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Internacional

Visita de Trump à Polónia aumenta receios de mais divisões na Europa

Trump vai discursar frente ao monumento de homenagem à revolta dos polacos contra a ocupação nazi em 1944

WOJTEK RADWANSKI / AFP / Getty Images

“Ao final de alguns meses na presidência, Trump já pôs em risco o acordo de Paris sobre as alterações climáticas, as relações dos EUA com a União Europeia e com a NATO e agora arrisca-se a piorar uma situação já de si delicada na Polónia e no leste europeu”, acusou Gianni Pittella, líder do bloco socialista no Parlamento Europeu

Há razões estratégicas para Donald Trump ter decidido viajar até à Polónia para uma visita oficial que começa na quarta-feira à noite. À cabeça, o recente destacamento de tropas norte-americanas para o país e o desejo da atual administração dos EUA em expandir o fornecimento de gás natural líquido à Europa. Mas para muitos analistas, há motivos ulteriores que justificam essa visita, em vésperas da cimeira do G20 em Hamburgo, e que ameaçam aumentar as divisões internas na União Europeia.

Na Polónia, aponta hoje o diário britânico “The Guardian”, o governo de extrema-direita do Partido Lei e Justiça (PiS) mal consegue conter a excitação com a visita de Trump a Varsóvia, já comparada pelos governantes do país à histórica visita de John F. Kennedy a Berlim Ocidental, em 1963. O Presidente norte-americano vai aterrar na capital polaca amanhã à noite e, para quinta-feira à tarde, é esperado um discurso em que deverá elogiar a nação por estar empenhada em alocar 2% do seu PIB para o orçamento de defesa comum da NATO, depois de ter criticado a maioria dos Estados-membros da aliança por não fazerem o mesmo.

Crê-se que o outro grande motor da visita de Trump é a recusa da Polónia ao leme do PiS em aceitar imigrantes muçulmanos, numa altura em que Bruxelas e a maioria dos países da UE continuam, sem sucesso, a pressionar o país e os seus vizinhos do leste a aceitarem as quotas de redistribuição dos milhares de refugiados que têm chegado à Europa nos últimos anos.

No mês passado, quando o governo americano anunciou a visita oficial de Trump, o ministro polaco da Defesa, Antoni Macierewicz, declarou que a escolha demonstra “o quanto a posição da Polónia na geopolítica mundial mudou” nos últimos tempos.

Em Bruxelas e noutras importantes capitais europeias, instalou-se de imediato um desconforto alimentado pela noção de que, com esta visita, o líder norte-americano está declaradamente a apoiar a postura do governo nacionalista polaco — que continua em rota de colisão com a UE por pôr em causa a independência das suas instituições democráticas e por causa da recusa em participar nos esforços de acolhimento de requerentes de asilo.

“Ao final de alguns meses na presidência, Trump já pôs em risco o acordo de Paris sobre as alterações climáticas, as relações dos EUA com a União Europeia e com a NATO e agora arrisca-se a piorar uma situação já de si delicada na Polónia e no leste europeu”, apontou recentemente Gianni Pittella, líder do Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas (S&D) no Parlamento Europeu.

Para horror da oposição polaca, Trump vai proferir o seu antecipado discurso de quinta-feira frente ao monumento de homenagem à rebelião de Varsóvia contra a ocupação nazi em 1944, um esforço condenado à partida que resultou na morte de cerca de 200 mil polacos.

“Ele vai elogiar a coragem polaca no período mais negro da sua História e celebrar a emergência da Polónia enquanto potência europeia”, referiu há alguns dias HR McMaster, chefe do Conselho de Segurança Nacional da administração Trump. “E vai também pedir a todas as nações que busquem inspiração no espírito dos polacos perante os desafios com que hoje se confrontam.”

Não será de estranhar se, a par disso, Trump elogiar também as atuais políticas anti-imigração da Polónia, considerando a retórica islamofóbica partilhada pelos dois governos. Depois do atentado de Manchester em maio, a primeira-ministra polaca, Beata Szydlo, criticou a “loucura da elite de Bruxelas” que quer criar uma “utopia de fronteiras abertas”, com o seu ministro do Interior, Mariusz Blaszczak, a responsabilizar o grosso dos Estados-membros da UE pelo “terrorismo islâmico” que ameaça as “raízes cristãs” do continente.

A primeira-ministra da Polónia, Beata Szydlo

A primeira-ministra da Polónia, Beata Szydlo

Carl Court / Getty Images

O governo de Szydlo também tem acusado a UE de estar a ser gerida ao sabor da vontade da Alemanha, que por sua vez tem encorajado os restantes Estados-membros a adotarem mão de ferro contra a Polónia por causa dos seus ataques aos “valores comuns” do bloco. Palavras de Angela Merkel numa altura em que o governo polaco continua a ameaçar a independência dos media e do poder judiciário desde que tomou posse no final de 2015.

“Para o governo polaco, a visita de Trump é uma oportunidade para mostrar que o muito discutido isolamento de Varsóvia é um mito”, com esse mesmo governo a “declarar esta visita um sucesso ainda antes de ter começado”, aponta Piotr Buras, diretor do gabinete polaco do Conselho Europeu para as Relações Externas. Citado pelo “The Guardian”, um diplomata europeu acrescenta sob anonimato: “Não me parece que esta visita possa melhorar a situação, pelo contrário, só vai piorá-la”.

De acordo com os media polacos, o governo conseguiu convencer Trump a visitar o país antes da cimeira do G20 prometendo-lhe que, ali, será recebido como um rei, numa altura em que a maioria das capitais ocidentais olha para ele como um bobo — ou um “vírus”, como Pittella declarou em agosto do ano passado. Veja-se o caso do Reino Unido, onde uma petição contra uma visita planeada do Presidente norte-americano angariou dois milhões de assinaturas e onde grupos de ativistas já estão a preparar uma série de protestos perante os rumores de que Trump poderá dar um salto a Londres antes do encontro das 20 potências mundiais em Hamburgo.

No sábado, no congresso do PiS, o antigo líder do partido e ex-primeiro-ministro do país, Jaroslaw Kaczyński, acusou a Europa de ter inveja da Polónia por ter sido a capital eleita por Trump. “Temos um novo sucesso, a visita de Trump. Os outros invejam-no, os britânicos estão a atacar-nos por causa disso.”

Para garantir que a visita é mesmo um sucesso, o governo autorizou cada deputado do PiS a trazer consigo 50 convidados para o discurso de Trump e está a planear transportar apoiantes de outras cidades para a capital a fim de aumentar a assistência. No Facebook, o deputado Jerzy Wilk criou um evento público para a cidade de Elbląg, convidando os eleitores para um “grande piquenique patriótico” durante o qual vão assistir “ao primeiro discurso do Presidente dos Estados Unidos na Europa”, prometendo “autocarros totalmente pagos” para transportar os interessados até ao local do encontro.