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Internacional

Mais de 40 estados dos EUA recusam fornecer dados dos eleitores a comissão criada por Trump

PAUL J. RICHARDS

Depois de ter alimentado a notícia falsa de que perdeu o voto popular para Hillary Clinton por causa de “fraude eleitoral em massa” nas presidenciais de novembro, o Presidente ordenou a criação de uma comissão para investigar o alegado crime

O Maryland, Delaware e Louisiana juntaram-se na segunda-feira a um crescente número de estados norte-americanos que já se recusaram a fornecer dados sobre os seus eleitores a uma comissão criada sob ordens do Presidente dos EUA para investigar alegados crimes de fraude nas urnas.

Neste momento, e de acordo com uma contagem da CNN junto das autoridades dos 50 estados norte-americanos, 41 já desafiaram o pedido do painel chefiado pelo vice-presidente, Mike Pence, e codigirido por Kris Kobach, secretário de Estado do Kansas. Entre os mais de 20 que rejeitaram totalmente o fornecimendo de dados contam-se a Virginia, o Kentucky, a Califórnia, Nova Iorque e Massachussetts, com a maioria a acusar Donald Trump de adotar uma medida desnecessária que viola o direito dos cidadãos à sua privacidade.

Em maio, Trump ordenou a criação de uma Comissão de Aconselhamento Presidencial sobre Integridade Eleitoral no seguimento de alegações feitas em fevereiro, um mês depois de ter tomado posse, quando sugeriu — sem provas ou indícios — que perdeu o voto popular para Hillary Clinton porque “milhões de imigrantes ilegais” puderam ir às urnas nas presidenciais de novembro.

Trump venceu graças ao sistema eleitoral norte-americano, que mantém a existência do Colégio Eleitoral, onde cada estado tem alocado um número pré-definido de delegados responsáveis por darem os seus votos ao candidato que venceu no seu respetivo estado. Graças à sua vitória nos estados de Wisconsin, Michigan e Pensilvânia, Trump firmou uma maioria dos grandes eleitores do Colégio que lhe garantiu a eleição, apesar de ter angariado menos 2,8 milhões de votos populares que a rival democrata.

Quando Trump sugeriu que isso se deveu ao facto de ter havido uma “fraude eleitoral em massa”, até membros do Partido Republicano pelo qual se candidatou à Casa Branca — entre eles Mitch McConnell, líder da maioria no Senado — disseram que, apesar de haver denúncias pontuais de fraude eleitoral, “não há qualquer prova de que tenha ocorrido a um nível que alterasse os resultados das eleições”.

Classificando o pedido da recém-criada comissão como “repugnante”, ontem o procurador-geral do Maryland, Brian Frosh, disse em comunicado que aconselhou o Conselho Eleitoral do estado a classificar as exigências como “ilegais” — dizendo que a comissão “parece ter sido criada apenas para intimidar eleitores e para satisfazer a fantasia do Presidente Trump de que venceu o voto popular”.

Na carta enviada aos 50 estados, a comissão pede-lhes que forneçam informações privadas sobre os eleitores, incluindo nomes, os últimos dígitos dos seus números de Segurança Social, moradas de residência, datas de nascimento, filiações políticas, potenciais cadastros criminais e historial de voto.

Em linha com outros, o secretário de Estado do Louisiana, Tom Schedler, garantiu que não vai deixar que a comissão “brinque à política com os dados dos eleitores” daquele estado. Em entrevista a uma rádio local, Elaine Manlove, chefe da comissão eleitoral do Delaware, também assegurou que não vai cumprir as ordens porque parte das informações requeridas são confidenciais — adiantando que o seu gabinete já está a trabalhar com a procuradoria estatal para rejeitar totalmente o pedido.

O Presidente já reagiu à recusa dos estados em fornecerem os dados exigidos, recorrendo ao Twitter para questionar o que “terão a esconder”. Vários grupos de ativistas dizem que a criação da comissão vai encorajar a supressão de votos por justificar a imposição de novas barreiras em idas às urnas, criticando a escolha de Hans von Spakovsky, um controverso ex-funcionário do Departamento de Justiça, para integrar o painel de investigação.