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Receita para matar um Nobel da Paz

Manifestantes em Hong Kong com máscaras alusivas a Liu Xiaobo

Bobby Yip/Reuters

Liu Xiaobo é libertado com um cancro de fígado em fase terminal, o que livra Pequim de um opositor incómodo

António Caeiro

Pela primeira vez em cerca de duas décadas, a União Europeia não criticou a China na última sessão do Conselho da ONU para os Direitos Humanos, concluída há uma semana em Genebra. A Grécia, a braços com a necessidade desesperada de receitas após a imposição das receitas de austeridade da troika, teve que vender a empresas estatais chinesas 51% do Pireu, em Atenas, o maior porto do país. Além de ter feito o mesmo a 24% da sua rede de distribuição de energia.

Agora, Atenas vetou a tentativa de criticar a falta de direitos humanos na China. Seria “um criticismo improdutivo”, justificou um funcionário grego. Este caso teve pouco impacto mediático, mas a situação dos direitos humanos na China acabaria por ser notícia poucos dias depois de forma dramática e muito além do que as autoridades de Pequim podem controlar!

Ao fim de oito anos e meio, o Prémio Nobel da Paz 2010, Liu Xiaobo, saiu da prisão e foi hospitalizado com um cancro no fígado em fase terminal, revelou segunda-feira um dos seus advogados. Segundo a Administração Prisional de Liaoning, Liu Xiaobo foi transferido para um hospital de Shenyang, a 700 km de Pequim, em regime de “liberdade condicional médica”, e “oito reputados oncologistas foram destacados para o tratar”.

O seu estado de saúde é “extremamente grave”, afirmou o advogado, Shang Baojun. “É muito difícil tratar este tipo de cancro terminal. Seria mais fácil se tivesse sido descoberto mais cedo.” A doença está tão avançada que Liu Xiaobo já não pode ser operado nem submeter-se a qualquer tratamento de quimio ou radioterapia, disse a mulher do dissidente, Liu Xia.

Uma vida de resistência

Informações saídas na imprensa ocidental dão conta de que o Nobel da Paz teve sucessivas hepatites durante o tempo de prisão, relacionadas com má higiene e alimentação e que estas doenças e o enfraquecimento do sistema imunitário decorrente de más condições prisionais terão favorecido o desenvolvimento do cancro.

Liu Xiaobo, nascido em 1956, cumpre 11 anos de prisão por “atividades subversivas”. Antigo professor universitário, conhecido como crítico literário e ativista político, Liu Xiaobo “tirou partido da internet, para difamar e incitar outros a derrubar o poder de Estado da Ditadura Democrática do Povo e o sistema socialista”, sentenciara um tribunal de Pequim em dezembro de 2009.

Foi a sua terceira condenação desde a sangrenta repressão militar do movimento pró-democracia da Praça Tiananmen, há 28 anos. O Comité Nobel norueguês distinguiu-o “pela sua longa e não violenta luta pelos direitos fundamentais na China”. Para o Governo chinês, que considerou a distinção “um insulto à soberania judicial da China”, trata-se de “um criminoso condenado por violar a lei”.

O “incitamento à subversão” que lhe é imputado diz respeito à “Carta 08”, um abaixo-assinado a favor da “democratização da China” difundido em dezembro de 2008 e subscrito, entretanto, por 10.390 pessoas. Inspirada num manifesto idêntico divulgado na antiga Checoslováquia pró-soviética pelo escritor e futuro Presidente Vaclav Havel, a “Carta 08” defende a eleição direta dos dirigentes do Estado, a separação de poderes e a despartidarização das forças armadas.

“Devemos abolir o especial privilégio de um partido para monopolizar o poder e devemos garantir princípios de livre e justa competição entre diferentes partidos políticos”, reclamava a “Carta 08”.

No conjunto, Liu Xiaobo passou quase um terço da vida adulta na cadeia ou num “campo de reeducação através do trabalho”. “Liu Xiaobo separou-se há muito da sociedade chinesa. É estranho ao desenvolvimento da China (...). A China não implodiu, como o Ocidente previa nos anos 80 e 90, e criou um milagre económico global”, proclamava quarta-feira passada o Global Times, tabloide nacionalista do grupo “Diário do Povo”, o órgão central do Partido Comunista Chinês.

Poder morrer no Ocidente

Ao longo das duas últimas décadas, Wang Dan, Wei Jingsheng, Wang Juntao, Xu Wenli e outros dissidentes chineses foram autorizados a tratar-se fora da China. É esse também o desejo de Liu Xiaobo, disse um escritor amigo, Liao Yiwu, refugiado na Alemanha. “Disse claramente que, se tiver de morrer, gostaria de morrer no Ocidente”, assegurou Liao Yiwu. Mas segundo indicou o advogado de Liu Xiaobo na quinta-feira, as autoridades já rejeitaram um pedido nesse sentido feito pela mulher do dissidente.

Apesar do crescente poder económico e diplomático da China, a vida ou a morte de Liu Xiaobo são suscetíveis de ensombrar a imagem do Partido Comunista Chinês. “Uma deterioração da sua doença proporciona um bom ingrediente para diabolizar a China”, reconheceu o “Global Times”. Meia centena de consagrados autores, como Margaret Atwood, J.M. Coetzee, Philip Roth e Salman Rushdie, escreveram ao Presidente Xi Jinping, pedindo-lhe que seja concedido a Liu Xiaobo “a dignidade e autonomia que todo o ser humano merece”.