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A misteriosa Melania Trump

foto SAUL LOEB/AFP/GETTY IMAGES

Quase sem se dar por ela, a “menina Knavs” tornou-se a primeira-dama dos EUA. Ambição e discrição foram a receita do sucesso de um percurso de vida que ainda hoje gera polémica nos tribunais do país natal, como contaram ao Expresso várias fontes ligadas aos Trumps

Com fama de playboy e caloteiro, Jure Zorcic, um agente desportivo esloveno, chegou há poucas horas a Nova Iorque. Diz que veio em trabalho, mas na verdade viajou mais de sete mil quilómetros para visitar Melania. Mal pousa as malas no hotel Mayflower, no centro de Manhattan, dirige-se ao arranha-céus Trump Tower, onde a antiga namorada vive num triplex de luxo, conhecido como o Versalhes flutuante.

A vista panorâmica para Central Park, a talha dourada, os anjos barrocos e os cristais e mármores reluzentes nada têm que ver com o discreto apartamento em que a atual primeira-dama americana cresceu, na pequena cidade industrial de Sevnica, Eslovénia.

Ao chegar, o porteiro informa-o de que não vive ali ninguém com aquele nome. Mesmo assim, desloca-se ao interior, fala com meia dúzia de seguranças e regressa pela mesma porta giratória, confirmando a informação. Jure sabe que o indivíduo mente, mas compreende o zelo. Pede-lhe por isso que fique com o seu cartão profissional, cujo verso traz o número do quarto em que ficou hospedado.

Dois dias depois, ela telefona-lhe. Jure não conseguia deixar de pensar nos tempos de namoro, quando ele tinha 23 anos e ela 21, nos passeios de Vespa e nas férias de verão no resort de Opatija, na Croácia. Melania sugere que ambos se encontrem no SFA, um restaurante na Quinta Avenida, a menos de 500 metros da Trump Tower. Sôfrego por vê-la, chega adiantado, entretendo-se a observar pelo janelão da entrada o formigueiro do trânsito nas ruas adjacentes, repletas de longas filas de acesso ao Rockefeller Center e à catedral de Saint Patrick.

Por fim, ela surge acompanhada por dois guarda-costas. Dá-lhe um abraço, dois beijos no rosto e afetuosidade q.b., afinal de contas a ex-modelo é hoje uma mulher casada. E essa era apenas uma das mudanças na sua vida. Tantas outras tinham ocorrido em mais de quinze anos de Nova Iorque.

Bastava olhar para ela para perceber que a rapariga de Sevnica tinha desaparecido. “Ela parecia artificial”, recorda Jure ao Expresso, durante uma videochamada a partir da capital eslovena, Ljubljana. “Ela era bastante magra, mas agora tinha curvas e curvas. Rabo, mamas… Os dedos pareciam de cerâmica.”

O reencontro, em 2010, durou pouco mais de cinco minutos e na despedida Melania destruiria todas as esperanças de Jure com uma garantia: “Eu nunca mais voltarei a Sevnica” (uma advogada da modelo garantiu que a relação de ambos foi apenas de amizade, mas não desmentiu a visita). “Ela ilustra a história de uma mulher que renasceu. Mudou de nome, idioma, país e até o corpo está diferente. A única coisa que permaneceu intocada foi a ambição de ser alguém, de ser a primeira-dama do mundo”, conta-nos o poeta esloveno Mitja Cander.

Desde 20 de janeiro, data em que o marido, Donald Trump, tomou posse como 45º Presidente dos Estados Unidos, Melania Knavs Trump concretizou aquele desejo, quase sem se dar por ela, após um percurso meio desconhecido que o Expresso procurou deslindar, a partir de várias entrevistas com fontes próximas do casal mais poderoso da América.

Coincidências e má-língua

A vida de Melanija Knavs, hoje Melania Trump, a trinca-espinhas nascida na pequena cidade eslovena de Novo Mesto, em 1970, “está cheia de coincidências e astros perfeitamente alinhados, produto de uma incrível rede de circunstâncias”, descreve-nos Bojan Pozar, autor da biografia não autorizada Melania Trump, “The Inside Story”.

Ao contrário do marido, ela cresceu no seio de uma família modesta de classe média. O pai, Viktor, era mecânico e membro do Partido Comunista. A mãe, Amalija, trabalhava como operária têxtil. Pouco ou nada se sabe sobre os amigos, o que pensa, que paixões tem. Porém, a partir de 2005, ano em que se casou com Donald Trump, a curiosidade pelo seu passado disparou.

“A partir daí vários jornalistas estrangeiros vieram até cá. Em 2016, durante a campanha eleitoral, foi um corrupio. Cheguei a ter 15 repórteres à minha espera no escritório”, afirma ao Expresso Natasa Musar, a advogada da primeira-dama em Ljubljana, onde lidera a batalha judicial contra uma publicação local que alegou que Melania teria sido escort (acompanhante de luxo) em Nova Iorque — ao longo desta reportagem, a causídica dará pormenores exclusivos deste processo, marcado por acusações bombásticas, desmentidos e indemnizações chorudas.

O tal fascínio por Melania relacionava-se com a fortuna e a projeção mediática do marido, um magnata do jogo e do ramo imobiliário, símbolo das elites faustosas americanas. “Ela foi maltratada porque namorava um velhote. Ainda hoje, ouve-se a seguinte piada: ‘O que vê Melania quando olha para Donald Trump? Dólares e colesterol elevado’”, conta Natasa Briski, CEO do grupo de media Metilanista.

Magoada, a jovem isolar-se-ia ainda mais, passando a recusar os pedidos de entrevista dos media eslovenos. “Não sabemos quanto tempo mais irá durar, mas desde então ninguém na Eslovénia conseguiu arrancar-lhe uma declaração”, lamenta Briski. Pozar tem outra explicação para o silêncio: “A equipa de relações públicas e conselheiros políticos do marido criaram uma narrativa sobre Melania e alimentam os jornalistas com isso”.

Modelo de pé descalço

A amiga de infância Mirijana Jelancic é hoje diretora da escola primária Osnovna Sola Sava Kladnika, em Sevnica, a mesma que ambas frequentaram enquanto crianças. Em declarações ao Expresso, recorda a “miúda encantadora, angelical, que gostava muito de ajudar as pessoas a fazer as pazes”.

Curiosamente, revela-nos que, já na altura, em plena década de 70, Melania falava em “ir para a América”. “Temos de compreender que a vida na antiga Jugoslávia era muito difícil e ainda não se vislumbrava o fim da ditadura”, justifica.

Tricotavam juntas, passeavam e pouco mais, uma vez que Viktor tinha Melania e Ines, a irmã dois anos mais velha, sob controlo apertado.

A rotina manteve-se quando a família se mudou para Ljubljana, onde Melania seria observada pelo fotógrafo Stane Jerko, à saída do centro cultural Pionirski. Deslumbrado, ele ofereceu-se para a ajudar a iniciar o seu portefólio.

Trocaram números de telefone e dois dias depois a jovem de 16 anos, de longos cabelos negros, ar sisudo e 1,80 m ligou para aceitar.

Nas primeiras fotos a preto e branco, Melania aparece sempre descalça, visto que não havia sapatos de tamanho 40 no estúdio, diz Jerko ao Expresso, via Skype, gesticulando várias vezes para descrever as curvas da primeira-dama. “Era muito gira, sem um grama de gordura”.

Discreta. Melania permaneceu quase invisível ao longo dos 17 meses de campanha, que começaram com esta foto de família, em junho de 2015. Os especialistas dizem que não gosta da exposição e muito menos das controvérsias políticas

Discreta. Melania permaneceu quase invisível ao longo dos 17 meses de campanha, que começaram com esta foto de família, em junho de 2015. Os especialistas dizem que não gosta da exposição e muito menos das controvérsias políticas

O trabalho chegou à agência de Riccardo Gay, que gostava de ‘caçar’ jovens promissores nos Balcãs, tornando-se o primeiro passo em direção às passarelas de Paris e Milão. “Parecia-me desde muito cedo que ela tinha a força de vontade para furar até atingir o estrelato”, diz o fotógrafo.

Tal como Ines, Melania, que entretanto tinha germanizado o nome de Knavs para Knauss, alegadamente mais reconhecível no mundo da moda, matriculou-se em arquitetura na universidade de Ljubljana. Não bebia, não fumava e dividia o tempo entre a escola e os desfiles.

Discreta, mas sem nunca descuidar a aparência, era conhecida entre os rapazes pela sua antipatia, assegura o repórter esloveno Vanja Vardan. “Estivemos juntos em algumas festas, onde a menina Knavs era capaz de dizer cinco palavras em três horas”.

Em 1992, após ficar em segundo lugar no concurso Slovenian Look of the Year, promovido pela revista “Jana”, ela preparou-se para dar o salto. A desagregação da Jugoslávia, um mercado com 24 milhões de habitantes, forçou a decisão.

Subir na vida

A vida na Eslovénia “sempre foi fácil, calma e muito verde. As montanhas e os vales, com o rio Sava em pano de fundo, formam a imagem de marca do nosso país”, descreve Natasa Briski.

Apesar deste cenário idílico, Melania aprendeu com os pais que o mais importante na vida é a ascensão social e a mesa de arquitetura ou as passarelas de Paris e Milão ofereciam poucas garantias.

Donald Trump teve, neste aspeto, uma infância forjada em valores semelhantes. Várias vezes, em frente à lareira, ouviu o pai, Fred, a repetir teses sobre competitividade. Uma das suas prediletas era a de que “a vida é uma eterna luta, com vencedores e perdedores”. Os primeiros eram os “matadores”, os outros “escumalha”.

Quando, em 1996, o dono da agência de modelos Metropolitan Models, Paolo Zampolli, lhe ofereceu um bilhete de ida para Nova Iorque, ela aceitou de imediato. Aos 26 anos, Melania era uma aposta tardia para modelo. Mesmo assim, o empresário, um velho amigo de Trump, arriscou, tratando pessoalmente do seu visto, disse, há cerca de um ano, à “The New York Magazine”. O ritmo na maior metrópole dos Estados Unidos foi um choque e o medo de falhar aumentava a cada dia que passava, a cada conta por pagar.

“Nos primeiros tempos, ela parecia perdida e só arranjava trabalho de vez em quando, normalmente para catálogos de lingerie e de fatos de banho”, contou o fotógrafo Matthew Atanian, que dividiu um apartamento com ela nas torres Zeckendorf, na Union Square, em Manhattan. Apesar das dificuldades, poucos meses depois Melania conseguiria arrendar um T1 sozinha por 2500 dólares, segundo revelou a própria à revista “People”, explicando que a decisão foi uma espécie de “declaração de independência”.

Mas a timidez da primeira-dama americana continuava a jogar contra ela e as noites eram passadas em casa, em vez de serem usadas para conviver e criar uma agenda de contactos. O restaurante italiano Cipriani Downton, no cruzamento da Broadway com a Broome Street, conhecido pelas pizas feitas num forno artesanal trazido de propósito da cidade de Nápoles e pela clientela jovem e hip, era dos poucos locais onde podia ser vista.

“Quando saía, na maior parte das vezes, ia jantar com homens mais velhos. Mas chegava sempre cedo, muito antes de eu sair para a noite”, lembra Atanian. Melania confessaria à revista “GQ” que aceitou vários convites de “cavalheiros nova-iorquinos”, mas garantiria que se tratou sempre de uma ida ao cinema ou de um simples jantar. “Eu andava muito atarefada. Depois de um longo dia de trabalho, a última coisa que eu queria fazer era arranjar-me e fazer uma noitada. Eu não gosto de me sentir exausta”.

No ano passado, em plena campanha eleitoral, o tabloide “The New York Post” escancarou na primeira página imagens da modelo numa sessão fotográfica erótica. O perfil discreto da primeira-dama era de repente posto em causa, embora o autor do trabalho, Alé de Basseville, jurasse que fora uma vez sem exemplo — o mesmo indivíduo esclareceria mais tarde que o projeto datava de 1996 e não de 1995, como tinha dito antes, o que levou alguns jornais e rivais políticos do marido a acusarem Melania de ter residido ilegalmente nos EUA.

Interrogado sobre as fotos, onde Melania aparece nua, de saltos altos e a beijar a câmara, o então candidato republicano, Donald Trump, declarou que “na Europa, imagens como estas são comuns”.

A suspeita de violação da lei de imigração levou a imprensa a questionar várias vezes o magnata sobre o percurso da mulher. No final do passado mês de outubro, por exemplo, a Associated Press revelava que Melania Trump teria recebido pagamento por dez sessões fotográficas em 1996, antes de obter os documentos necessários para poder trabalhar no país.

A denúncia surgiu na sequência de uma série de entrevistas dada pela eslovena às televisões americanas, onde pormenorizou a sua jornada até se tornar cidadã americana. “Como jovem empreendedora, queria seguir o meu sonho para um lugar onde a liberdade e as oportunidades eram abundantes”, afirmou à CNN.

Melania Trump partiu da Eslovénia para os Estados Unidos a 27 de agosto de 1996, com um visto de visitante (B1/B2) e conquistou, segundo a AP, um rendimento de mais de 20 mil dólares antes de conseguir o visto de trabalho (H-1B), a 18 de outubro de 1996. Obteria o Green Card (documento que valida o estatuto de residente) em março de 2001, tornando-se cidadã em 2006, um ano depois de se ter casado com o multimilionário.

A equipa de Trump responderia através do advogado Michael Wildes, confirmando todas aquelas datas. O alegado pagamento de 20 mil dólares ficou, no entanto, por provar. O tema marcou a agenda, dado que o candidato conservador baseara o discurso político nas críticas à imigração ilegal, propondo um muro na fronteira com o México.

E quando o assunto se esgotou, as mesmas imagens serviram para inspirar uma nova tese, publicada em agosto pelo “Daily Mail”, de que Melania trabalhou em Milão e em Nova Iorque para agências de modelos que forneciam também serviços de escort. Contactado novamente, Matthew Atanian, o tal fotógrafo que partilhou o apartamento em Union Square com Melania, garantiu que nunca viu nada de suspeito. “Ela saía e voltava sempre cedo”.

A advogada Natasa Musar deu pormenores exclusivos ao Expresso sobre este processo que ainda hoje faz correr tinta em Ljubljana. Paralelamente à queixa contra o diário britânico, a primeira-dama americana processou Tomaz Mihelic, o jornalista da revista local “Suzy” que está na origem do alegado boato e que, mais tarde, seria a “fonte eslovena” do artigo do “Daily Mail”, onde surge identificado pelas iniciais S.S.

Ambição. O poeta esloveno Mitja Cander disse sobre Melania: “Ela ilustra a história de uma mulher que renasceu. Mudou de nome, idioma, país e até o corpo está diferente. A única coisa que permaneceu intocada foi a ambição de ser alguém, de ser a primeira-dama do mundo”

Ambição. O poeta esloveno Mitja Cander disse sobre Melania: “Ela ilustra a história de uma mulher que renasceu. Mudou de nome, idioma, país e até o corpo está diferente. A única coisa que permaneceu intocada foi a ambição de ser alguém, de ser a primeira-dama do mundo”

foto ALEX WONG/GETTY IMAGES

“O artigo da ‘Suzy’ não tem fontes nem factos. A lei eslovena exige que um processo de ofensa criminal, neste caso por difamação, seja sempre interposto contra uma entidade física, uma pessoa, e não contra uma entidade legal, por isso a ação é contra o jornalista e não contra a ‘Suzy’”, explica Musa. Arriscando uma pena de um ano e meio de prisão, Mihelic recorreu após ter perdido na primeira instância. Até final do ano, o caso poderá ficar resolvido.

No que respeita ao “Daily Mail”, Melania foi ainda mais severa, explicando em comunicado que a publicação do rumor num jornal de projeção global danificou a sua “reputação pessoal e profissional”. Por essa razão, exigiu uma indemnização de 100 milhões de dólares, pois o artigo teria prejudicado oportunidades futuras de lucrar com seu perfil público, que renderia ainda mais dinheiro caso Trump vencesse as eleições.

“Como uma pessoa extremamente famosa e conhecida, bem como ex-modelo profissional e empresária bem-sucedida, o artigo limitou a minha possibilidade de lançar linhas de produtos, que poderiam ter conquistado relações comerciais de vários milhões de dólares por um período de diversos anos”, argumentou a modelo. “Essas categorias de produtos poderiam incluir vestuário, acessórios, joias, cosméticos e fragrâncias, entre outros”.

Neste ponto, Melania Trump poderá ser pioneira. Myra Gutin, uma historiadora especializada na presidência americana e professora na Universidade Rider, no estado de New Jersey, esclarece porquê: “Algumas primeiras-damas participaram em projetos — livros, transmissões de rádio, programas de TV —, mas doaram sempre os honorários a instituições de caridade. É um território obscuro, mas não há nada que a impeça de lucrar com o cargo”.
No início de abril, a batalha contra o tabloide terminou, com Melania a aceitar um pedido de desculpa e o pagamento de três milhões de dólares. O seu bom nome foi reposto e a pretensa carreira paralela desacreditada.

Um homem de verdade

Melania cruzou-se pela primeira vez com Donald Trump em 1998, tinha então 28 anos. Ele, com 52, era dos personagens mais famosos da sociedade nova-iorquina, resultado de uma carreira de sucesso como empresário. Ambos haviam sido convidados para uma festa privada no clube Kit Kat, durante a New York Fashion Week. O magnata ia acompanhado por Celina Midelfart, a esbelta herdeira de uma multinacional norueguesa de cosméticos. À saída, quando a companheira se ausentou por segundos, Trump abordou Melania, pedindo-lhe o número de telefone. Ela recusou, mas aceitou ficar com o dele.

Uma semana depois, os dois eram vistos de mãos dadas em vários restaurantes da cidade. Questionada por amigos sobre a diferença de idade e o passado mulherengo do magnata, ela respondia sempre da mesma maneira: “Donald é um homem de verdade”. Nos meses seguintes, Melania dispôs-se a tudo, nomeadamente a ser usada como prova da virilidade do marido, quando, por exemplo, confirmou, no programa de rádio de Howard Stern, que os dois tinham relações sexuais mais do que uma vez por dia.

Marla Maples, a anterior conquista do multimilionário, passou pelo mesmo, chegando a ser pressionada pelo próprio para pousar nua para a revista “Playboy” — alegadamente, ele já teria negociado o cachê com a publicação.

Apenas as aspirações políticas de Trump provocavam tensão, gerando a única separação do casal. “Em 1999 ele pensou em concorrer pelo Partido Reformista”, disse a primeira-dama há cerca de um ano à revista “Dujour”. “Não tinha cabeça para outra coisa e afastámo-nos uns meses até ele perceber que amava o seu negócio mais do que a presidência”. A vida voltaria ao normal e a 26 de abril de 2004 Donald pediria Melania em casamento, selando o compromisso com a oferta de um anel de noivado avaliado em 1,5 milhões de dólares.

Trinta quilos de diamantes

A cerimónia realizou-se a 22 de janeiro de 2005, em Mar-a-Lago, o resort de luxo do Presidente. Os 126 quartos albergavam a nata da sociedade de Nova Iorque, nomeadamente Hillary Clinton, a rival nas presidenciais de novembro passado, na altura senadora daquele estado americano. Bill Clinton também viera.

“Trump tratou de tudo como se fosse uma produção da Broadway e quis negociar os direitos de transmissão do evento, mas Melania recusou”, recorda, ao Expresso, Michael D’Antonio, autor do livro “The Truth About Trump”. Melania estava coberta por 250 mil dólares de diamantes, cravejados no vestido de trinta quilos desenhado por John Galliano e nos sapatos Manolo Blahnik.

À saída da igreja Bethesda-by-the-sea, em Palm Beach, o casal foi engolido por milhares de pétalas cor de rosa, oriundas de uma estufa menonita, no Nebrasca. A boda prosseguiu num salão em estilo barroco, recentemente inaugurado, que deixou os mais de 350 convidados boquiabertos com a amálgama de mármores e dourados.

À medida que as horas passavam intensificava-se a componente de entretenimento. Billy Joel, por exemplo, subiria ao palco para tocar ‘That’s Why the Donald is a Trump’, uma versão rearranjada do tema ‘The Lady Is A Tramp’ de Frank Sinatra. Tony Bennet e Paul Anka fariam um dueto durante a refeição de lagosta, caviar e filet mignon, regada com champanhe Cristal, pouco antes do ritual do corte do bolo, um Grand Marnier com um metro e meio de altura.

Cinco meses depois dos festejos em Mar-a-Lago, Melania ficou grávida de Barron. Aos 35 anos, ela atingira a idade do abandono, ou, como o magnata tinha confessado numa outra entrevista a Howard Stern, a “idade do check-out”.

É nessa altura que Trump dá a entrevista a Billy Bush, revelada durante a última campanha eleitoral, onde afirmou que quando vê mulheres atraentes deseja “agarrá-las pela r…”. (grab them by the pussy). Tal como o marido, que classificou o episódio de “conversa de balneário”, Melania desvalorizou o palavreado, alegando que tudo não passava de “conversa de rapazes”, que os “homens serão sempre homens” e que “a culpa foi do entrevistador que o acicatou”.

Washington. Donald Trump, Melania e Barron aterram no relvado da Casa Branca após uma deslocação a New Jersey, há duas semanas

Washington. Donald Trump, Melania e Barron aterram no relvado da Casa Branca após uma deslocação a New Jersey, há duas semanas

foto CHRIS KLEPONIS/GETTY IMAGES

Sobre as mulheres que vieram a público acusar Trump de vários crimes sexuais, Melania chamou-lhes “mentirosas”. “Eles são uma equipa. Nem todas as relações se baseiam no romance, na paixão ou no desejo. Cada um percebe o seu papel e o outro evita cruzar-se no seu caminho”, explica D’Antonio.

Lisa Hytner, amiga da família e antiga relações públicas da agência de modelos Trump Model Management, explica porque é que Melania é a mulher perfeita para Donald: “Não faz ondas, fala apenas quando se dirigem a ela e é muito doce”.

A aparente frieza com que a primeira-dama lida com o comportamento polémico do companheiro estará relacionada, segundo fontes próximas, com a sua lista de prioridades. No topo está educação do jovem Barron e tudo o resto é secundário.

Numa entrevista à publicação “Parenting”, a antiga modelo revelou que nunca quis que Donald mudasse fraldas ou contasse uma história ao filho. “O pequeno Barron quer ser empresário e golfista como o pai. E tal como ele, veste sempre fato e gravata. Ele não é uma criança que ande de fato de treino”.

A boa imigrante

Onze anos depois de, pela primeira vez, ter magicado na ideia de concorrer à presidência, Trump lançou as bases para a candidatura de 2016. Como? Duvidando da nacionalidade de Barack Obama, o primeiro Presidente afro-americano na história dos EUA.

Disponibilizou-se para uma série de entrevistas no prime-time televisivo, onde repetiu que o chefe do Estado devia apresentar a certidão de nascimento. No espaço negro da internet, renascia o orgulho branco, que se tinha começado a mobilizar após a vitória do líder democrata em 2008.

O aparelho partidário republicano não sabia como controlar a corrente populista, entusiasmada com propostas como a construção de um muro na fronteira com o México ou o bloqueio à entrada de muçulmanos.

Melania, a segunda primeira-dama estrangeira na história dos EUA (a britânica Louisa Adams, mulher de John Quincy Adams, foi a primeira), permanecia ao lado do seu homem ao contrário do que tinha ocorrido em 2000. Trump usava-a como o exemplo do bom imigrante, que respeitou a lei e esperou pela sua vez.

A eslovena aceitou o papel. “Eu respeitei a lei… E todos deviam fazer o mesmo. Não devemos ter aquela atitude laxista de esperar para ver”, referiu à MSNBC, em Fevereiro de 2016.

Numa entrevista ao Expresso, o advogado Lucio Perez-Reynoso, membro da organização de apoio a indivíduos indocumentados American Friends Service Committee, critica aquela “atitude moralista”. “Nem vou falar das dúvidas que existem sobre a data em que Melania chegou aos EUA. Não vou alimentar a polémica. Porém, há algo que ela tem de perceber: nem todos os que entram neste grande país, uns à procura de sucesso, outros simplesmente em fuga de sociedades destruídas pelo crime organizado, têm acesso ao dinheiro e aos advogados que a senhora Trump teve. Toda a gente sabe que quem tiver alguns milhares de dólares entrega o processo de legalização a um bom advogado e não tem de se chatear”.

Apesar do protagonismo neste capítulo, Melania permaneceu quase invisível ao longo dos 17 meses de campanha. “Ela não gosta da exposição e muito menos das controvérsias políticas, algo que foi constante na corrida presidencial. Ela raramente exprimiu uma opinião em público sem o filtro da equipa do marido”, afirma Michael D’Antonio.

Das poucas vezes em que surgiu em público, fê-lo com estrondo, como por exemplo durante a Convenção Republicana do passado mês de julho, quando seria acusada de ter plagiado um discurso de Michele Obama.

Sair da sombra

Uma das particularidades da nova primeira-dama é a sua ausência da Casa Branca, justificada com a necessidade de acompanhar o dia a dia de Barron em Nova Iorque.
O Presidente americano nunca contestou a decisão e, quando questionado pelos media, considerou que a mulher é “uma excelente mãe” e que, por essa razão, decidiu “não desestabilizar” a vida do filho a meio do ano letivo.

A harmonia familiar dos Trumps custou um preço aos pais dos colegas de Barron, na Escola Columbia Grammar and Preparatory School, em Manhattan. Um deles, um financeiro de Wall Street que pediu para não ser identificado, explicou-nos que, se soubesse que os seus finais de tarde seriam passados em filas de trânsito repletas de carros dos serviços secretos, “nunca teria votado nele”.

Este corrupio tem os dias contados, pois Barron já foi matriculado na St. Andrew’s Episcopal School, no estado de Maryland, do lado de lá do Potomac, o rio que banha a cidade de Washington. Os 40 mil dólares de propina anual não foram obstáculo, até porque, segundo um comunicado da primeira-dama, que se mudará para a capital dos EUA em agosto, aquele estabelecimento de ensino “é conhecido por ser uma comunidade escolar multicultural, que estimula o espírito de inclusão”.

“Talvez ele aprenda a ter respeito pela diferença e ensine o pai!”, diz-nos, em tom jocoso, a congressista democrata Marcy Kaptur, uma das vozes mais críticas do líder americano na Câmara dos Representantes.

Com a partida de Nova Iorque, a cidade que moldou a tal mulher renascida de que o poeta esloveno Mitja Cander nos falava, completa-se o trajeto improvável desde Svenica até à Casa Branca. Melania ficará mais exposta, algo que não a preocupa. “Eu dou conselhos ao meu marido. Se for necessário, digo-lhe a verdade”, asseverou numa entrevista à CNN.

Stephanie Wolkoff, amiga do casal e CEO da SWW Creative, uma empresa de consultoria para negócios ligados à moda, antevê mudanças. “Não a subestimem só porque ela é reservada. Ela é muito confiante e quando não concorda com o que Donald diz ou com o que está a ser feito, ela aponta um caminho diferente e ele ouve. Veja-se o que aconteceu em Israel, quando ela afastou a mão do marido, num aparente sinal de desagrado relacionado com algo. Melania sairá da sombra, acreditem”.