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O caso surreal do helicóptero de ‘Rambo’

No interior do Parlamento venezuelano, em Caracas, elementos da Guarda Nacional Bolivariana tentam controlar os protestos de deputados da oposição

STRINGER / EPA

Maduro diz que o ataque ao Supremo Tribunal é obra da oposição. Esta fala em terrorismo de Estado com mão do Presidente

Daniel Lozano, correspondente em Caracas

A Venezuela bolivariana bateu recordes de surrealismo entre terça e quarta-feira. O país sofreu desde alegados “ataques terroristas coordenados pela CIA” até “terrorismo de Estado” promovido pelo Governo. São acusações graves, acompanhadas por um apelo às armas de Nicolás Maduro em caso de derrota do regime, cerco ao Parlamento por radicais chavistas perante a inércia da Guarda Nacional, agressão ao presidente da Assembleia Nacional por parte de um coronel acusado de sequestro e novas sentenças do Supremo Tribunal contra a procuradora-geral da República, Luisa Ortega, que a deixam à beira da destituição.

O mundo viu as imagens assombrosas de um helicóptero que sobrevoou Caracas e atacou o Supremo Tribunal de Justiça (STJ), contra o qual lançou três granadas de fragmentação sem ferir ninguém, e disparando 15 tiros contra o Ministério do Interior, tudo isto num espaço aéreo vigiado.

Tenha sido ação de um “lobo solitário”, catalisado pelo descontentamento nacional, ou encenação governamental, como acredita parte da oposição, o que não houve foi uma tentativa de golpe de Estado, como afirmou o Governo. Desde que chegou ao poder, em 2013, o sucessor de Hugo Chávez falou 100 conspirações e golpes, nenhum dos quais se confirmou.

Ortega, líder do Ministério Público e encarregada de investigar tais denúncias, diz: “São ações de barbárie [do Governo] que promovem a violência e incitam à insurreição armada. Estão desesperados por um levantamento militar, um golpe de Estado”. Hoje crítica de Maduro, a magistrada foi muito próxima do falecido Chávez.

Convertido numa espécie de ‘Rambo’ crioulo, o comissário Óscar Pérez protagonizou o segundo filme da sua vida a bordo de um helicóptero roubado, que transportava outro homem. Antes do voo, pelo menos dois polícias, comandados pelo chefe das brigadas de intervenção da polícia científica, gravaram um vídeo em que exigem a Maduro o restabelecimento da ordem constitucional. A polícia demorou 22 horas a encontrar o helicóptero, apesar de tudo se ter passado à vista dos radares, perto do palácio presidencial, ministérios e outros edifícios governamentais.

Pérez protagonizara um filme real em 2015: “Morte suspensa”, baseado no sequestro de um comerciante português em 2013. Com apoio policial, visava desmitificar os bandidos mais famosos, admirados em certos bairros populares.

O Governo define o sucedido como “ataque terrorista no âmbito de uma ofensiva rebelde movida por elementos de extrema-direita, com apoio estrangeiro”. Maduro acusa o ‘Rambo’ Pérez de ter pilotado o aparelho ao serviço do general jubilado Miguel Rodríguez Torres, ex-chefe dos serviços de informações de Chávez, que foi ministro do Interior no primeiro Executivo de Maduro.

Respeitado nas Forças Armadas, Torres é mais um chavista crítico, dos que alinham com a Mesa da Unidade Democrática (oposição), o Parlamento, a Igreja Católica, o Movimento Estudantil, as principais universidades e ordens profissionais e os juristas, intelectuais, artistas e desportistas mais populares do país. Todos estão contra o processo constituinte através do qual Maduro pretende alterar a Constituição à força e eternizar-se no poder.

Em 92 dias, a repressão dos protestos custou pelo menos 82 vidas e fez milhares de feridos e detidos. O regime insiste em realizar eleições territoriais a 30 de julho, concebidas para garantir maioria ao “madurismo” na Assembleia Nacional Constituinte, contra a vontade de 85% da população.

“Há terrorismo de Estado. Perdeu-se o direito de manifestação, os protestos são cruelmente reprimidos e há civis acusados pela justiça militar”, sentenciou a procuradora Ortega, na quarta-feira. Passadas quatro horas foi proibida de sair do país e os seus bens e contas foram congelados.