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Morreu a mulher que era demasiado independente para concorrer à presidência de França

Em Nice, 2007, durante uma homenagem a mortos judeus

Foto Velry Hache / AFP/ getty

Mulher do direito e da magistratura e sobrevivente de Auschwitz-Birkenau, Simone Veil é uma das personalidades imortais de França que se tornou a política mais famosa do país ao legalizar a contraceção e a interrupção voluntária da gravidez em 1974. Feminista e europeísta convicta, morreu a duas semanas de completar 90 anos

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Antes de tudo era a cara suave. Antes de se lhe citar a sobrevivência ao campo da morte de Auschwitz, antes de se lembrar que se bateu como poucas figuras políticas proeminentes pelos direitos das mulheres, Simone Veil era uma cara de mulher de expressão suave, uma mulher serena em lutas de morte.

A antiga ministra Simone Veil, a política responsável pela legalização da contraceção e do aborto em França em 1974, morreu esta sexta-feira em sua casa no 7ème arrondissement de Paris, a escassos quinze dias de completar 90 anos (13 de julho), conforme comunicou à AFP o seu filho, o advogado Jean Veil.

As palavras sobre ela são grandes na imprensa francesa e fora dela no momento em que resumir os feitos não neutraliza o pesar, porque o sentimento de ver desaparecer os persistentes e determinados não se resume em palavras: grande figura da vida política francesa, académica, refugiada dos campos de concentração para onde foi deportada ainda adolescente, Veil é a memória francesa da Shoa...

Para feitos do passado, tecnologias de hoje. O Presidente Emmanuell Macron expressou a sua homenagem via Twitter “Muito vivas condolências à família de Simone Veil. Possa o seu espírito inspirar os nossos compatriotas, que nele encontram o melhor da França”. O “rosto de uma República erguida, humana, generosa, a França perde uma personalidade como a história oferece poucas”, exprimiu o primeiro-ministro Edouard Philippe.

Enquanto ministra da Saúde, anos 70

Enquanto ministra da Saúde, anos 70

AFP / Getty Images

Simone Veil é e ficará sinónimo de dignidade, coragem, retidão, percurso excecional. Grande europeísta e feminista convicta, foi imortalizada pela Academia de França em 2010, para onde entrou em 2008 ocupando o 13º assento, antes detido por Pierre Messmer, Paul Claudel e Racine. Mais tarde na vida confessou que tinha sido a sua experiência nos campos de concentração nazis que tinham feito dela uma defensora convicta da unificação da Europa.

“Simone Veil atravessou a história e fez história. Ela foi a primeira presidente eleita do Parlamento Europeu [1979]. A França perde uma das suas consciências”, disse o ex-presidente François Hollande. A sua luta contra um partido de direita para fazer adotar a lei da interrupção voluntária da gravidez granjeou-lhe forte oposição. Chegaram a pintar-lhe na porta de casa “Veil=Hitler”. Apesar disso, foi durante longo tempo a figura política mais popular de França. Talvez por isso Jean-Luc Mélenchon a tenha agora homenageado assim: “Madame Veil pertence ao melhor da nossa história”.

Em visita a Auschwitz com o Presidente Jacques Chirac, em 2005

Em visita a Auschwitz com o Presidente Jacques Chirac, em 2005

Foto Patrik Kovarik / AFP / Getty Images

A morte prometida

Em 2005, Veil contava numa entrevista à televisão que, 60 anos depois, “ainda sou assombrada pelas imagens, os cheiros, os gritos, a humilhação, as pancadas e o céu cheio do fumo saido dos crematórios”. A primeira vez que revelou publicamente a sua deportação para a Polónia foi durante a inauguração de um hospital na região parisiense. Com uma pá de pedreiro na mão, fez escorrer um pouco de cimento entre duas pedras e, em resposta a um prefeito que lhe elogiava a estreza do gesto, disse: “Fiz isto enquanto deportada, era este o meu trabalho”. França reagiu em choque.

Sessão inaugural do Parlamento Europeu em Estrasburgo, em 17 de julho de 1979, a que presidiu até 1982

Sessão inaugural do Parlamento Europeu em Estrasburgo, em 17 de julho de 1979, a que presidiu até 1982

AFP / Getty Images

Nasceu Simone Annie Liline Jacob em 13 de julho de 1927, em Nice, no seio de uma família judia e laica. O pai era um homem rigoroso, arquiteto, que levou os filhos a lerem os clássicos Montaigne, Racine, Pascal. Simone foi deportada com toda a família para um campo de morte nazi com 17 anos. Foi em 1944, pouco depois de ter concluído o bacharelato em 1943. O pai, André Jacob, e o irmão foram vistos pela última vez num comboio na Lituânia. A mãe, Yvonne, morreu de tifo em Bergen-Belsen imediatamente antes de o campo ter sido libertado pelo aliados em 1945. Simone e as suas duas irmãs, uma das quais morreu mais tarde num acidente de viação, contavam-se entre os apenas 11 sobreviventes de 400 crianças judias que foram deportadas na região onde viviam. A outra, Denise, foi presa no início da guerra por pertencer à Resistência e sobreviveu na prisão de Ravensbrück.

Em 2011 em Bruxelas, a ex-presidente do Parlmento Europeu participou na inauguração da “Simone Veil Agora” e do “Solidarnosc 1980 Esplanade” Foto Thierry Charrier / AFP

Em 2011 em Bruxelas, a ex-presidente do Parlmento Europeu participou na inauguração da “Simone Veil Agora” e do “Solidarnosc 1980 Esplanade” Foto Thierry Charrier / AFP

Foto Thierry Charrier / AFP/ getty


Veil formou-se em direito no Instituto Superior de Ciências Políticas e na Universidade de Paris e enveredou pela magistratura a partir de 1956, tornando-se secretária-geral do Conselho Superior de Magistratura em 1970. Foi ministra da Saúde de Valéry Giscard d'Estaing e de François Mitterrand de 1974 a 1979, deputada europeia de 1979 a 1993 (presidiu ao PP de 1979 a 1982) e foi ministra dos Assuntos Sociais de Édouard Balladur de 1993 a 1995, antes da sua entrada para o Conselho Constitucional, em 1998, onde permaneceu até 2007.

Foi em Sciences Po que conheceu o marido, Antoine Veil, com quem esteve casada 66 anos, até à morte deste, em 2013. O casal teve três filhos: Jean, o único ainda vivo, e Claude-Nicolas e Pierre François.

Escreveu a sua autobiografia em 2007, livro que foi traduzido em 15 línguas e vendeu mais de meio milhão de exemplares.

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