Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Republicanos forçados a adiar votação de novo plano de saúde para “revogar" o Obamacare

Justin Sullivan

Confusão instalada entre a maioria republicana no Senado, com pelo menos oito membros do partido a recusarem-se a aprovar a proposta da administração Trump. Votação adiada para depois do feriado de 4 de julho

Os republicanos do Senado norte-americano foram forçados a adiar a votação do seu projeto-lei de saúde para depois do feriado de 4 de julho, dia da independência dos EUA, em mais um revés para os esforços do partido no poder e da administração de Donald Trump para "revogar e substituir o Obamacare".

O anúncio foi feito na terça-feira ao final do dia pelo líder da maioria republicana na câmara alta do Congresso, Mitch McConnell, depois de pelo menos oito senadores republicanos terem garantido que iam vetar a proposta. Dada a atual composição da câmara, bastam pelo menos dois para que o projeto-lei seja chumbado e regresse à Câmara dos Representantes, onde o partido conseguiu que fosse aprovado no início de maio depois de muitas negociações e de uma série de alterações à proposta inicial.

Ao lado de vários senadores republicanos convidados a participar numa reunião na Casa Branca, Trump tinha declarado ontem à tarde que "seria ótimo se o projeto-lei fosse aprovado". Mas na tentativa de minorizar a antecipada oposição de membros do próprio partido, o Presidente garantiu: "Se não conseguirmos [que seja aprovado], será apenas algo de que não vamos gostar e isso é OK e eu entendo-o perfeitamente".

Quando o Congresso regressar ao trabalho depois do feriado de 4 de julho, a câmara alta terá apenas duas semanas para debater e votar o projeto-lei antes do início das férias de verão. McConnell já prometeu continuar a tentar angariar apoios suficientes, dizendo-se disponível para fazer as alterações necessárias ao documento a fim de convencer os senadores mais céticos a aprovarem-no.

Os republicanos mais moderados do Senado dizem que o projeto-lei nos atuais moldes vai ter um impacto negativo junto dos seus eleitores mais vulneráveis. Alguma oposição também tem sido registada entre os senadores mais conservadores do partido maioritário, que condenam a proposta por abrir a porta a "demasiada interferência" do governo federal.

O adiamento da votação aconteceu um dia depois de uma comissão bipartidária do Congresso ter avisado que, se for aprovado, o conjunto de medidas vai fazer com que 22 milhões de norte-americanos percam o acesso a seguros de saúde ao longo dos próximos dez anos. Há um mês, a mesma comissão independente tinha referido que seriam 23 milhões de pessoas a perder cobertura até 2026.

McConnell está disposto a alterar o projeto-lei para atrair mais apoios

McConnell está disposto a alterar o projeto-lei para atrair mais apoios

Drew Angerer

O que é o Trumpcare?

A Lei de Reconciliação para Melhores Cuidados de Saúde, delineada no documento de 142 páginas a ser votado pelo Senado, prevê uma série de fases para acabar com a expansão do Medicaid, o programa do governo que garante cobertura mínima de cuidados de saúde aos norte-americanos mais pobres, impondo profundos cortes no sector.

A par disso, o projeto-lei dá a cada um dos 50 estados norte-americanos mais poderes para definirem o que é que as seguradoras têm obrigatoriamente de garantir aos segurados, desde cobertura de ambulatório a serviços de saúde mental passando por cuidados maternos e infantis. Entre outras propostas incluem-se o fim dos impostos de saúde aos mais ricos e às empresas seguradoras e o corte no financiamento federal da Planned Parenthood, uma organização sem fins lucrativos que garante cuidados de saúde sexual e reprodutiva gratuitos às camadas mais vulneráveis da sociedade norte-americana.

Antes da votação de terça-feira que acabou por não se concretizar, cinco senadores republicanos já tinham anunciado que iam chumbar a proposta, com outros três a juntarem-se aos desertores pouco antes da hora marcada para o voto.

Nenhum democrata vai dar o seu voto ao projeto-lei — que para os críticos mais moderados do Partido Republicano representa um ataque aos direitos dos mais pobres, dos idosos e das mulheres e que para os mais conservadores "não vai longe o suficiente" na revogação do Obamacare, o programa de cuidados de saúde universais implementado pela anterior administração, que veio garantir a cobertura de milhões de norte-americanos até então sem seguro de saúde.

Nancy Pelosi, a líder da minoria democrata na Câmara dos Representantes, já avisou que aprovar o projeto-lei vai corresponder a condenar "centenas de milhares" de americanos à morte. Chuck Schumer, que lidera os democratas no Senado, diz que "os republicanos não têm como extirpar o âmago podre" da proposta.

A Associação Americana para as Pessoas Reformadas, a organização não-governamental mais antiga dos EUA que representa os cidadãos com mais de 50 anos de idade, já condenou o projeto-lei por criar um "imposto etário" que pesa sobre os mais velhos.