Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Embaixador dos Emirados Árabes Unidos sugere sanções contra países que negoceiem com o Qatar

Em entrevista ao “The Guardian”, Omar Ghobash, embaixador dos EAU na Rússia, garante que os Estados do Golfo e seus aliados árabes responsáveis pelo isolamento do Qatar estão dispostos a serem sujeitos ao mesmo escrutínio que Doha

Os Estados do Golfo que mantêm o Qatar isolado há quase um mês, exigindo-lhe que corte relações com o Irão, estão a ponderar aplicar mais sanções ao pequeno emirado que, entre outras, passam por reduzir as trocas comerciais com países que continuem a negociar com Doha.

Assim avisou esta terça-feira Omar Ghobash, embaixador dos Emirados Árabes Unidos (EAU) em Moscovo, numa entrevista exclusiva ao "The Guardian", ao final de três semanas de escalada de tensões entre a coligação árabe e o Qatar.

Ao jornal britânico, o diplomata diz que os Estados árabes sunitas estão dispostos a serem sujeitos ao mesmo tipo de monitorização ocidental que o Qatar, para assegurar que os seus principais líderes e figuras políticas não estão a financiar grupos extremistas como o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) e a Al-Qaeda.

No início de junho, os EAU, o Egito e o Bahrain, ao leme da Arábia Saudita, anunciaram um embargo económico e diplomático ao Qatar, acusando o pequeno emirado de dar guarida e apoio a grupos terroristas há vários anos.

Na semana passada, os países divulgaram uma lista de 13 exigências – entre elas o encerramento da estação televisiva Al-Jazeera e o corte de relações com a Irmandade Muçulmana egípcia e com o Irão xiita – dando ao Qatar um prazo de dez dias para as cumprir, sob pena de vir a sofrer represálias, sem dizerem quais para já.

Os Estados Unidos e a maioria das capitais europeias têm estado a tentar forçar os dois lados a dialogar na tentativa de prevenir a escalada das tensões, temendo que a disputa por tempo indefinido empurre o Qatar para o Irão.

Na entrevista a partir de Londres, Ghobash diz que a expulsão do Qatar do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), tida como uma das potenciais sanções a serem impostas num futuro próximo, "não é a única disponível".

"A posição deles [qataris] hoje é inconsistente com a permanência no CCG enquanto membro, porque esta é uma organização comum de segurança e defesa. Existem certas sanções económicas que podemos aplicar e que estão a ser consideradas neste momento", garante o embaixador dos EAU. "Uma das possibilidades é impor certas condições aos nossos parceiros comerciais e dizer-lhes que, se querem trabalhar connosco, têm de fazer uma escolha comercial. Se o Qatar não estiver disposto a aceitar as nossas exigências, estaremos perante um caso de 'Adeus Qatar', já não precisamos dele na nossa barricada."

Recusando as críticas, Ghobash insiste que aquilo que o seu país e os outros Estados árabes estão a tentar fazer é inaugurar um novo capítulo na História do Médio Oriente. "Sim, estamos a fazer exigências ao Qatar, mas é muito importante perceber que estamos a impor-lhes os mesmos padrões que impomos a nós próprios. Portanto, se pedimos que as transações financeiras do Qatar sejam monitorizadas, bem como o seu financiamento do terrorismo, então estaríamos abertos à mesma ideia [aplicada a nós próprios]. Isto não é bullying, é exigir padrões mais elevados em toda a região."

Na entrevista, o diplomata diz ainda que a coligação árabe não tem "nada a esconder" e que está disposta a ser sujeita "aos mesmos padrões [de escrutínio] que o Qatar". "O Ocidente tradicionalmente queixa-se da falta de transparência financeira na região e deve haver muitas coisas que o Ocidente pode fazer para monitorizar o que está a acontecer."

A escalada de tensões, avisa Ghobash, pode dar-se "com mais informação" mas "não militarmente", porque "não é dessa forma que estamos a olhar para as coisas". Sobre o risco de estarem a empurrar o Qatar para o Irão, assevera: "Estamos a pedir ao Qatar que faça uma escolha. Temos noção de que pode optar pela rota até ao Irão e estamos dispostos a aceitar as consequências disso."

Questionado sobre se é razoável exigir que a Al-Jazeera seja encerrada, acrescentou: "Nós não reivindicamos ter liberdade de imprensa. Não promovemos a ideia de liberdade de imprensa. Estamos a falar de responsabilidade no discurso. A liberdade de expressão tem diferentes conotações em diferentes sítios. A [liberdade de] expressão no nosso lado do mundo tem um contexto particular e esse contexto pode ir de pacífico a violento em menos de nada só porque houve palavras específicas a serem proferidas."