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Internacional

Advogado de Trump usou associação de beneficência para ele e a família receberem dezenas de milhões de dólares

Jay Sekulow (à esq.) à conversa com Mitt Romney, antigo candidato presidencial pelos republicanos

Joe Raedle / Getty Images

Muito do dinheiro foi pago como salários, mas a lei americana proíbe pagamentos desproporcionados em instituições não-lucrativas

Luís M. Faria

Jornalista

Um dos principais advogados de Donald Trump fundou uma associação cristã de beneficência cujo verdadeiro objetivo era financiar o seu jato privado e providenciar-lhe elevados rendimentos, bem como a outros membros da sua família. Assim diz uma história publicada esta terça-feira no diário britânico "The Guardian".

Jay Sekulow, um advogado de 61 anos, especializou-se em causas religiosas antes de se tornar advogado do atual chefe de estado dos EUA. Enquanto presidente da CASE (Christian Advocates Serving Evangelism – Defensores Cristãos ao Serviço do Evangelismo) e principalmente conselheiro legal de outra que lhe está ligada, o American Center for Legal Justice (Centro Americano para a Justiça Legal), Sekulow conseguiu que mais de 60 milhões de dólares (53 milhões de euros) fossem pagos a si mesmo e a entidades próximas.

O dinheiro foi entregue como pagamento de salários, bem como de serviços alegadamente prestados pelo escritório de Sekulow e por uma empresa de media que é proprietária de um avião a meias com outra empresa, detida pela mulher do advogado.

“Ofertas de sacrifício”

Os pagamentos ascendiam frequentemente a milhões de dólares, e o que torna tudo mais escandaloso é o facto de muitas das pessoas a quem se solicitavam doações serem pobres ou estarem desempregadas na altura.

Um documento aprovado por Sekulow em 2009, no auge da crise financeira, dizia aos operadores de telemarketing para instarem os potenciais doadores a fazerem "ofertas de sacrifício". Devia-se exprimir compreensão pelas dificuldades que eles pudessem estar a passar antes de lhes pedir que contribuíssem, "nem que seja 20 dólares nas próximas três semanas".

Além de Sekulow, mais de sete seus familiares foram pagos pela CASE, recebendo quantias vultuosas que ultrapassam largamente o que é habitual.

Quantias “praticamente inéditas” nessa área

O presidente de um grupo que motoriza instituições não-lucrativas explicou ao "The Guardian" que se tratava de algo "extremamente invulgar, e dá uma aparência de conflito de interesses que qualquer associação não-lucrativa deve tentar evitar". Outro especialista disse que as quantias em causa eram "praticamente inéditas no mundo não-lucrativo".

Pela sua parte, Sekulow não quis comentar, mas um representante dele garantiu que os pagamentos foram considerados razoáveis por entidades independentes que os analisaram.

O advogado, que no passado esteve envolvido em negócios imobiliários que correram mal e este ano se tornou um dos representantes legais de Donald Trump, já tinha estado nas notícias há uma semana, quando disse que o Presidente não estava a ser investigado em relação com a Rússia, uma afirmação que contradiz as do próprio Trump sobre o assunto.