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No julgamento do “homem mais odiado da América”, potenciais jurados dizem que não conseguem ser imparciais

Kevin Hagen/GETTY

É uma justificação algo invulgar, mas Martin Shkreli, que aumentou 56 vezes o preço de um medicamento salvador de vidas, também não é um réu vulgar

Luís M. Faria

Jornalista

Não é normal que os candidatos a jurados num julgamento criminal assumam de forma aberta o seu preconceito contra o réu. Mas foi isso que ontem aconteceu num tribunal em Brooklyn. Um dos potenciais jurados disse que Martin Shkreli, ali sentado uns metros, parecia uma serpente. Outro admitiu que jamais conseguiria ser imparcial. Ainda outro deu-lhe o cognome pelo qual muita gente o conhece: o homem mais odiado da América.

Que fez esse filho de modestos emigrantes albaneses e croatas, nascido e criado em Brooklyn (NY) e atualmente com 34 anos, para merecer um tratamento tão severo? Não foi aquilo por que se encontra em tribunal. Shkreli vai ser julgado por fraude; essencialmente, por ter enganado os investidores em duas companhias que já foram dele. Na primeira, terá escondido a sua gestão negligente e cometido outras manobras ilegais; na segunda, retirou dinheiro para tapar os buracos da primeira. São crimes graves, com prejuizos que atingem os 11 milhões de dólares, e podem valer-lhe até 20 anos de cadeia. Mas o principal pecado dele é outro.

Em 2015, Shkreli criou uma companhia farmacêutica chamada Turing Pharmaceuticals que adquiriu um medicamento chamado Daraprim, ou pirimetamina, usado no tratamento de doentes imunossuprimidos. Quer dizer, um medicamento do qual depende a vida de milhares de doentes com HIV. A dose era até então vendida ao preço de 13,5 dólares (119 euros). De repente, passou a custar 750 dólares (663 euros).

Objeto público de ódio

A subida de preço, na ordem dos 5600%, foi criticada por toda a gente, e Shkreli converteu-se instantaneamente num objeto público de ódio. Não ajudou a sua atitude pública arrogante, ou o tipo de justificações que deu - afirmando, por exemplo, que o Daraprim era o Aston Martin dos medicamentos e não devia estar ao preço de uma bicicleta.

Quando a situação do Daraprim se tornou um escândalo público, Shkreli foi notificado para testemunha no Congresso. Também aí a sua atitude foi criticada. Ele recusou responder a perguntas, invocando o seu direito a não se autoincriminar e pondo uma mensagem no Twitter onde acusava os congressistas de agirem no seu interesse próprio e concluído: "Difícil aceitar que aqueles imbecis representam o povo no nosso governo".

Agora a arrogância vai provavelmente sair-lhe cara. Logo que haja jurados suficientes para o julgamento começar...