Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Congresso dos EUA vai suspender venda de armas aos sauditas até crise com o Qatar estar resolvida

Mark Wilson / Getty Images

Líder da comissão de relações externas do Senado diz que postura da Arábia Saudita e seus aliados sunitas põe em causa os esforços dos EUA no Médio Oriente

O republicano que lidera a comissão de relações externas do Senado anunciou que o Congresso dos EUA não vai aprovar um pacote de armas negociado por Donald Trump com a Arábia Saudita enquanto o bloqueio imposto ao Qatar não for levantado.

Em declarações aos jornalistas na segunda-feira, o senador Bob Corker acusou as nações do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) de não terem aproveitado a cimeira de maio em Riade, que contou com a participação do Presidente norte-americano Donald Trump, para resolverem as suas diferenças, “tendo escolhido em vez disso o caminho do conflito”.

Muitos analistas consideram que o discurso de Trump nesse encontro, no qual demonizou o Irão xiita atribuindo-lhe culpas exclusivas pela instabilidade regional e o terrorismo, foi interpretado pela Arábia Saudita como luz verde para agir a seu bel-prazer no Golfo.

Um mês depois da cimeira, o reino sunita, a par do Egito, dos Emirados Árabes Unidos e do Bahrain, anunciaram um bloqueio económico e diplomático ao Qatartendo exigido entretanto ao emirado que suspenda os contactos com o Irão e que encerre a estação televisiva Al-Jazeera se quer ver as relações normalizadas.

Nesse mesmo encontro, Trump terá negociado um acordo de venda de armas aos sauditas avaliado em mais de 110 mil milhões de dólares (mais de 98 mil milhões de euros) — um que, segundo um ex-espião da CIA que é analista do Instituto Brookings, “não existe”.

“Em vez disso”, apontou Bruce Riedel no início do mês, “há uma série de cartas de interesse ou de intenções, mas nenhum contrato. Muitos são ofertas que a indústria da Defesa acha que podem vir a interessar aos sauditas um dia destes. Mas até agora, nada foi entregue ao Senado para revisão. A Agência de Cooperação de Segurança e Defesa, o braço de venda de armas do Pentágono, chama-lhes ‘vendas planeadas’. Nenhum dos acordos identificados até agora são novos, todos começaram com a administração Obama.”

Trump esteve reunido com representantes do CCG em Riade no final de maio

Trump esteve reunido com representantes do CCG em Riade no final de maio

MANDEL NGAN

Depois dessa denúncia, a maioria republicana no Senado conseguiu bloquear as tentativas dos democratas para impedir a venda de bombas de precisão aos sauditas avaliadas em 500 milhões de dólares (mais de 445 milhões de euros), parte desse acordo de armamento. Mas agora, o partido que ajudou a eleger Trump está disposto a suspender as vendas enquanto a querela com o Qatar não estiver resolvida.

“Antes de darmos mais autorizações durante o período de revisão informal da venda de equipamento militar letal aos Estados do CCG, precisamos de compreender melhor qual o caminho para resolver a atual disputa e voltar a unir o CCG”, disse ontem Corker. O Congresso tem o poder de bloquear vendas de armas a outros países durante um mês a contar do dia em que o Departamento de Estado notifica os legisladores sobre um dado acordo.

A coligação liderada pela Arábia Saudita e que integra países árabes como o Egito, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrain anunciou o corte de relações com o Qatar a 5 de junho, mas só forneceu uma justificação formal para a decisão 18 dias depois, quando publicou uma lista de 13 exigências a serem cumpridas no prazo de dez dias.

Entre outras, os aliados sunitas exigem que Doha encerre o seu canal de televisão e suspenda as relações diplomáticas com o Irão xiita bem como a construção de uma base militar turca no seu território. Até agora, a coligação árabe ainda não anunciou que medidas pretende implementar caso o Qatar não cumpra as exigências no prazo estipulado.

Desde que o conflito regional estalou, a postura dos EUA ainda não foi bem definida. No rescaldo do embargo imposto ao Qatar, Trump aplaudiu a decisão dos aliados árabes e ecoou as alegações sauditas sobre os qataris serem os grandes financiadores de grupos terroristas como o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) e a Al-Qaeda. Na semana passada, contudo, o secretário de Estado, Rex Tillerson, exigiu à coligação árabe que negoceie uma solução pacífica com o parceiro votado ao isolamento.

Desde que a lista de 13 exigências foi divulgada, Tillerson assumiu uma postura mais prudente, dizendo que será “muito difícil” para o Qatar cumprir essas exigências em tempo útil e argumentando que existem “áreas importantes que servem de base ao diálogo em curso, que pode levar a uma resolução”.

Deste lado do Atlântico, as reações têm sido mais unidas e em tom de maior condenação à Arábia Saudita e seus aliados. Sigmar Gabriel, o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, já classificou a atual crise no Golfo como uma versão árabe da famosa série de televisão “House of Cards” — sublinhando que as exigências feitas ao Qatar são provocatórias, que o país está longe de ser o único responsável pelo financiamento de terroristas e que a Europa tem de fazer mais para infuenciar as visões da administração Trump sobre o Médio Oriente.

“Cabe-nos a nós, europeus, convencer os EUA a continuarem a apoiar o sistema internacional”, declarou ontem Gabriel num encontro do “think tank” Council on Foreign Relations. Nesse mesmo evento, o chefe da diplomacia iraniana disse que os países que apontam o dedo ao seu país e ao Qatar estão a tentar fugir às suas próprias responsabilidades e ao seu falhanço em responder às exigências dos seus povos.