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Internacional

Angela Merkel e Donald Trump em rota de colisão na cimeira do G20 em Hamburgo

Os primeiros choques entre Trump e Merkel aconteceram no final de maio, na cimeira do G7 em Taormina, na Sicília

Sean Gallup

Agenda da chanceler alemã no encontro da próxima semana será encabeçada por temas sobre os quais não há consenso com a atual administração dos Estados Unidos, incluindo as alterações climáticas, o comércio global e o acolhimento de refugiados e migrantes

O encontro das 20 nações mais industrializadas do mundo (G20) em Hamburgo, marcado para 7 e 8 de julho, vai traduzir-se na primeira vez que Donald Trump estará reunido com o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, desde que o primeiro venceu as eleições presidenciais norte-americanas em novembro do ano passado.

Mas acima disso, avança esta segunda-feira o "The Guardian", a cimeira será sobretudo marcada por um confronto "quase inevitável" entre o líder norte-americano e a Europa ao leme da Alemanha, numa altura em que Angela Merkel pretende dar destaque a tópicos de discussão que já levaram Trump a entrar em rota de colisão com os aliados europeus dos EUA — nomeadamente as alterações climáticas, o comércio livre global e as formas de gestão da crise humanitária global que tem levado milhões de pessoas a fugirem dos seus países, com centenas de milhares delas a procurarem asilo na Europa e nos EUA.

Na cimeira marcada para sexta-feira e sábado da próxima semana, os líderes das 20 maiores economias mundiais, que juntas representam 85% do PIB global, vão estar reunidos na cidade alemã para debaterem uma agenda que promete maximizar o isolamento de Trump e minimizar a desunião entre os restantes países.

Em maio, os grandes temas em discussão já tinham conduzido a choques entre o Presidente norte-americano e os seus parceiros ocidentais na cimeira do G7 em Itália, uma experiência que deverá agora repetir-se em Hamburgo, com a diferença de que, desta vez, gigantes como a Índia e a China deverão juntar-se à Europa nas críticas aos EUA de Trump.

Na semana passada, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, deixou avisos ao governo de Trump sobre os riscos de os EUA serem ultrapassados como líder mundial por causa dos confrontos do empresário tornado Presidente com as restantes economias sobre temas que precisam de respostas urgentes e unidas.

No que toca às alterações climáticas, Merkel prepara-se para chamar à barricada europeia os dois aliados mais fulcrais para o combate ao aquecimento global — a Índia ao leme do primeiro-ministro Narendra Modi e a China de Xi Jinping — tendo já estado reunida com Modi e com o primeiro-ministro chinês, Li Kegiang, para preparar o encontro da próxima semana.

A China é o maior emissor de gases com efeito de estufa do mundo, seguida dos EUA e da Índia em terceiro lugar. Se um desses ou ambos seguissem o exemplo americano e decidissem abandonar o Acordo do Clima de Paris, como Trump fez no rescaldo da cimeira do G7, todo o processo de proteção ambiental ficaria em risco. Os dois países já garantiram que vão cumprir os compromissos delineados nesse tratado no final de 2015.

Apesar de a agenda de Merkel prometer mais choques com os EUA, a chancelaria alemã continua a insistir que não vai a Hamburgo procurar confrontos com os EUA. Há alguns dias, Sigmar Gabriel, o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, lembrou que vai haver governos a participar na cimeira que são muito mais de direita que a administração Trump e garantiu que a Alemanha não pretende impôr-se como rival da América.

Merkel, aponta hoje o "The Guardian", continua relutante em assumir o papel de farol dos valores liberais do Ocidente, apesar de uma sondagem recente do Pew Research ter apurado que a popularidade da chanceler alemã está a subir em toda a Europa, sobretudo entre a esquerda, com 52% dos inquiridos a dizerem-se confiantes de que ela "fará o que é certo na política mundial".

A relutância surgiu na sequência da cimeira do G7 e da decisão de Trump em rejeitar o tratado do clima já ratificado por 147 dos 197 países que participaram no encontro em Paris há um ano e meio, entre eles a China e a Índia.

Quatro dias depois do encontro na Sicília, a chanceler alemã aproveitou um comício de campanha na Baviera para anunciar o início de um novo capítulo na aliança transeuropeia, declarando: "O tempo em que podíamos depender completamente dos outros de certa forma acabou. Apercebi-me disto nos últimos dias. Nós, europeus, temos verdadeiramente de tomar o nosso destino em mãos. Temos de ter noção de que temos de lutar pelo nosso futuro sozinhos, pelo nosso destino enquanto europeus."

O facto de que o único país que Trump vai visitar na Europa antes do encontro do G20 ser a Polónia — o maior poluidor da União Europeia, atualmente liderado por um governo de extrema-direita mais alinhado com a atual administração dos EUA do que com o bloco que integra — "simboliza o desconforto do Presidente Trump" face a uma Europa que, no último mês, viu o europeísta Emmanuel Macron ser eleito Presidente de França e o governo eurocético de Theresa May ser castigado nas urnas no Reino Unido.

Sobre a agenda protecionista de Trump, Merkel falou sem rodeios na semana passada sobre a sua crença nos mercados abertos durante um encontro com empresários alemães. "Faremos tudo o que pudermos para alcançarmos um acordo o mais abrangente possível em Hamburgo", prometeu. "Isso não será fácil com a nova administração americana, mas ainda assim temos de fazer esse esforço."

Neste momento, não são só os líderes europeus que estão a reavaliar a sua relação com os EUA. Na semana passada, num discurso ao parlamento, a ministra canadiana dos Negócios Estrangeiros, Chrystia Freeland, disse aos deputados que o facto de a administração Trump "pôr em dúvida o verdadeiro valor da sua liderança global" significa que o Canadá, como outros países, "tem de definir a sua própria rota clara e soberana".

A declaração ecoou as palavras de Julie Bishop, chefe da diplomacia da Austrália, que em março assumiu que a relação do país com os seus parceiros regionais está presa num "padrão estratégico em suspenso", à espera de perceber que rumo vai Trump seguir enquanto líder dos Estados Unidos. A Argentina, que vai presidir à próxima cimeira do G20 em 2018, também já deixou avisos a Trump sobre os riscos de alimentar o isolamento dos norte-americanos.