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Internacional

Apagão na Faixa de Gaza

Palestinianos protestam na fronteira de Khan Youris no sul de Gaza

Ibraheem Abu Mustafa / Reuters

Situação crítica em Gaza, quase sem luz e com gravíssimos problemas de poluição, água e saúde pública

Julio de La Guardia, correspondente em Jerusalém

A única central elétrica existente na Faixa de Gaza está sem funcionar há mais de dois meses. Situada no campo de refugiados de Nuseirat, desligou todos os sistemas no passado dia 16 de abril, devido à impossibilidade de pagar o combustível que a alimenta. É que o governo da Autoridade Nacional Palestiniana (ANP) decidiu suspender o subsídio que fornecia há anos à milícia islamita Hamas para pagar o combustível. A paragem traduziu-se numa redução do fornecimento de luz para cinco a seis horas por dia. Os habitantes de Gaza tiveram de recorrer ao uso de geradores externos de gasóleo, que ligam quando o abastecimento é interrompido.

Dado, porém, que em Gaza tudo é sempre suscetível de piorar, a potência caiu ainda mais. O Governo da ANP em Ramallah deu novo murro na mesa no confronto aberto que mantém com a administração “de facto” do Hamas em Gaza, anunciando a decisão de deixar de pagar a Israel uma percentagem importante da eletricidade que o Estado hebraico fornece à Faixa, e cujo pagamento tem sido assumido por Ramallah. Por agora, o Coordenador de Atividades nos Territórios (COGAT) israelita preferiu não cortar completamente a eletricidade, com o objetivo de evitar uma revolta dos cidadãos. Ainda assim, agora há apenas três horas de luz por dia.

“Se dependesse de nós, proporcionávamos-lhes energia 24 horas por dia”, declarou o chefe do Estado-maior do Exército israelita, Gadi Eisenkot, na conferência de política e estratégia que se realiza todos os anos no Centro Interdisciplinar de Herzliya. “O que não podemos permitir é que a eletricidade seja usada para o Hamas construir túneis”, acrescentou. Segundo os serviços de informações militares, a milícia islamita continua a escavar túneis carácter ofensivo — como os que utilizou durante a guerra do verão de 2014 para lançar ataques no seu território —, muito embora o Hamas assegure que a sua atividade subterrânea tem fins meramente defensivos.

Guerra palestiniana 
pela eletricidade

“Pagamos 40 milhões de shekels (10 milhões de euros) todos os meses para liquidar a fatura elétrica de Gaza, ao passo que o governo de facto do Hamas recebe pela prestação do serviço e fica com tudo o que recolhe”, acusa o diretor-geral da Agência Nacional de Energia palestiniana, Zaher Melhem, em declarações ao Expresso. Segundo este dirigente de Ramallah, o que o Hamas cobra aos consumidores finais na Faixa poderia chegar para cobrir 30 a 40% da fatura total. “Uma vez que também instalámos a rede, o que o Hamas deveria fazer é deixar-nos tomar conta do fornecimento deste serviço e de todos os demais serviços essenciais”, reclama.

O grupo islamita vê nos últimos movimentos da ANP uma tentativa do respetivo Presidente, Mahmoud Abbas, para sobrecarregar financeiramente o Hamas e responsabilizá-lo pela cobrança de impostos, o que, previsivelmente, levaria a uma redução do apoio popular cada vez menor de que gozam. Abbas quer retomar o controlo de sectores-chave em Gaza, como o energético ou a segurança fronteiriça. Os porta-vozes do Hamas consideram que as medidas da ANP visam demonstrar à Administração Trump — cujos mediadores Jared Kushner e Jason Greenblat voltaram a visitar a zona esta semana — que também Abbas pode controlar a Faixa, tornando-se o único interlocutor válido para a paz.

“O principal motivo desta crise elétrica continua a ser a ocupação e o bloqueio a que a Faixa de Gaza está submetida por Israel desde 2007, que impede a entrada de certos materiais e peças de substituição de que necessitamos para consertar a central de Nuseirat e fazer a manutenção da rede geral”, explica Melhem. Reconhece que há um segundo motivo, que é a divisão política e administrativa entre a Cisjordânia — governada pela ANP — e a Faixa de Gaza — administrada pelo Hamas.

Este alto funcionário assegura ter um plano de ação para tornear o problema: completar a transformação da central de Nuseirat para trocar os combustíveis líquidos pelo gás natural, expandir as ligações de alta tensão com a rede israelita e aumentar a compra de eletricidade ao Egito. Melhem não prevê, de momento, a introdução em massa das energias renováveis, como a solar (Gaza desfruta de mais de 300 dias de sol por ano). “Soa muito bem, mas não soluciona o problema a curto prazo, que é o mais urgente. Demoraríamos mais de dez anos a pôr em prática todas essas ideias sobre renováveis ”.

A falta de eletricidade afeta gravemente a prestação de serviços essenciais. Repercute-se muito negativamente, entre outros, na gestão da água, tanto potável como residual. O défice energético faz com que as depuradoras não possam funcionar e que 100 mil metros cúbicos de águas fecais sejam escoadas diretamente para o mar todos os dias. Pelo mesmo motivo, as pequenas centrais de dessalinização disponíveis na Faixa reduziram a produção de água potável para até 15% da sua capacidade.

A quantidade média de água fornecida por cidadão desceu de 90 para 45 litros diários, segundo um relatório recente do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). O sector que mais sofre, porém, é a saúde, uma vez que o défice elétrico levou a uma redução progressiva da capacidade dos hospitais e clínicas, que mal conseguem assegurar os serviços mínimos.