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Qatar: Exigências dos sauditas não são “razoáveis” nem “viáveis”

Sean Gallup/Getty Images

Qatar recebeu lista de exigências - que incluem o corte de relações com o Irão e o encerramento de uma base turca instalada no país e da televisão árabe Al-Jazeera - mas não gostou do que leu. “Resposta oficial” ao documento não tardará

Helena Bento

Jornalista

O diretor do departamento de comunicação do Governo do Qatar, Ahmed bin Saif Al Thani, considera que a lista de exigências apresentada esta semana pelas quatro nações árabes que suspenderam as relações diplomáticas com o país não é “razoável nem viável”.

Num comunicado emitido na sexta-feira e citado, entre outros meios de comunicação internacionais, pela televisão árabe Al-Jazeera, o diretor diz que as exigências - são 13, no total, entre as quais se encontram o corte de relações com o Irão e o encerramento de uma base turca instalada no país - “confirma aquilo que o Qatar suspeita desde o início. Isto é, que o “bloqueio ilegal [dos sauditas e seus aliados árabes, como o Egito, Emirados Árabes Unidos e Bahrain, apoiados pelo Iémen, as Maldivas e a Líbia] nada tem a ver com o combate ao terrorismo, mas apenas com o desejo de limitar a soberania do país e terceirizar a [sua] política internacional”.

Ahmed bin Saif Al Thani defende ainda que a lista, que também inclui o encerramento da televisão árabe Al-Jazeera, acusada de ingerência e apoio ao terrorismo, “não obedece aos critérios definidos pelos EUA e pelo Reino Unido”, país este que, na sexta-feira, apelou a uma atitude “comedida e realista” por parte dos países responsáveis pela imposição do bloqueio, nas palavras do ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, Boris Johnson. O diretor adianta ainda que as exigências estão a ser analisadas e que terão, em breve, uma “resposta oficial” por parte do Governo do seu país.

A lista foi igualmente criticada por Meshal bin Hamad Al Thani, o embaixador do Qatar nos EUA, que, em duas publicações na sua conta no Twitter, reiterou as palavras do diretor do departamento de comunicação - lista de exigências, disse o embaixador, “revela que a atual disputa nada tem a ver com as alegadas acusações de terrorismo; trata-se, pelo contrário, de uma tentativa de suprimir a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão no país, ao mesmo tempo que “infringe a [nossa] soberania e pune o Qatar pela sua independência”.

O bloqueio diplomático e económico imposto ao Qatar pelos sauditas e seus aliados árabes mantém-se há duas semanas. Na sexta-feira, a porta-voz adjunta do secretário-geral das Nações Unidas, Eri Kaneko, afirmou, durante uma conferência de imprensa, estar “profundamente preocupada” com a crise diplomática na região e apelou ao diálogo entre os vários países, garantindo que, da parte da ONU, "não serão poupados esforços para encontrar uma solução diplomática”. Eri Kaneko sublinhou ainda que o secretário-geral da ONU, António Guterres, apoia a ideia de um diálogo regional encabeçado pelo mediador Kuwait - posição que o próprio manifestara já na passada terça-feira.

As exigências - que deverão ser cumpridas no prazo de dez dias - incluem ainda o corte de “quaisquer contactos” com a Irmandade Muçulmana e com outros grupos radicais islâmicos, como o Hezbollah, a Al-Qaeda e o autoproclamado Estado Islâmico.

O Qatar deverá ainda recusar a naturalização de cidadãos da Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos e Bahrein, e expulsar os que se encontram atualmente no país, tendo a medida sido descrita como um esforço para impedir Doha de interferir nos assuntos internos daqueles países.

Todos os indivíduos procurados por terrorismo por aqueles quatro países deverão ainda ser entregues, do mesmo modo que deve ser cortado o financiamento de qualquer movimento radical considerado como grupo terrorista pelos EUA. Se aceitar as condições, o Qatar fica ainda obrigado a fornecer informações pormenorizadas sobre membros da oposição financidados por Doha, nomeadamente na Arábia Saudita. O documento inclui ainda uma soma - o valor não foi especifiado - em compensações e estabelece inspeções mensais no primeiro ano e, no segundo ano, inspeções de três em três meses. Nos dez anos seguintes, o país será monitorizado mensalmente.