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Adeus, terra prometida

FEDERICO PARRA/AFP/Getty Images

Há poucos anos era impensável. Mas a crise, o crime e a violência levam muitos portugueses a fazer a viagem de volta. Para trás deixam a Venezuela que os fez sonhar e que hoje parece incapaz de acordar do pesadelo. Um país à deriva

Daniel Lozano, CORRESPONDENTE em Caracas

O naufrágio do ‘chavismo’ deixou com a água pelos cabelos a colónia portuguesa da Venezuela, que vê no regresso à Europa uma tábua de salvação impensável há poucos anos. É uma viagem de regresso que jamais imaginaram os que um dia demandaram ou já nasceram nesta ‘terra prometida’. Hoje, a saudade é vivida ao contrário: os emigrantes portugueses, seus filhos e netos choram uma Venezuela que já não existe. Transformou-se num país onde a tragédia se vive todos os dias.

“Faltam os alimentos e os medicamentos. Depois, temos de acrescentar a insegurança e a inflação. Somos jovens que já não podem sair para se divertir, nem sequer podemos ficar doentes porque morremos. E isso é literal”, resume sem rodeios Luís Fernandes, de 25 anos, que trabalha numa seguradora em Caracas. “A insegurança e a inflação estão a matar-nos”, acrescenta o engenheiro civil Luís Filipe dos Santos, 24 anos, que também participa com orgulho numa comunidade portuguesa “tremendamente afetada” pela crise social, económica e política que assola a Venezuela, como descobriram as autoridades da Madeira.

Esta é a crónica de um país à deriva, onde os jovens vivem como velhos. O país que quis ser exemplo de que um mundo melhor era possível com o chamado socialismo do século XXI e que hoje nem tem morfina para que os doentes morram com dignidade. A economia afunda-se mês a mês, a caminho do quarto ano de recessão, depois da brutal queda do Produto Interno Bruto em 2016, que, segundo fontes extragovernamentais, se abeirou dos 10% negativos.

Quem avisa não é traidor, disseram há dez anos economistas e especialistas, que não se deixaram deslumbrar pelo barril de petróleo a 120 dólares e pelas promessas revolucionárias da “suprema felicidade”, que ainda hoje mantêm um vice-ministério que ninguém sabe para que serve. A Venezuela assemelha-se a um doente crónico nos cuidados intensivos, cujos órgãos falham um atrás do outro, que não tem remédios para se tratar e que além disso está internado num hospital que lhe vai caindo em cima aos bocados. Tão doente que mais de 11% das suas crianças com menos de 5 anos sofrem de desnutrição aguda, segundo estudos não oficiais da Caritas Portuguesa.

Uma contradição assombrosa para um país com as maiores reservas petrolíferas do planeta. E não é só o petróleo. Também tem as mais abundantes reservas em ouro de todo o continente e as terceiras em gás natural e em ‘coltan’ (uma mistura de dois minerais, columbita e tantalita, muito utilizados na indústria tecnológica). Um prodígio da natureza que também encabeça, para sua desgraça, os piores rankings socioeconómicos do mundo, essas estatísticas que fazem tremer qualquer sociedade: primeiro, recorde em subida de preços (entre 700% e 800% em 2016, segundo estimativas de economistas independentes e organizações internacionais) e, segundo, em violência urbana, que no ano passado atingiu o número de 28.479 homicídios, segundo o Observatório Venezuelano da Violência. Um assassínio a cada 18 minutos.

“Por tudo isso, em dezembro vou-me embora. A Madeira é o meu destino. Estão lá os meus avós, tenho onde ficar”, confessa Luís Fernandes, que não falhou uma só manifestação desde que os protestos rebentaram em princípios de abril. “Se não alcançamos os nossos objetivos, não teremos futuro”, defende. O jovem de origem portuguesa sente a mesma asfixia que boa parte da comunidade europeia na Venezuela, não só lusitanos, mas também espanhóis e italianos, as emigrações mais importantes se não contarmos com a da vizinha Colômbia.

A este país do café não estão só a regressar os seus naturais; também os venezuelanos atravessam a fronteira apesar do conflito diplomático quase permanente. O Laboratório Internacional da Emigração calcula que cerca de 800 mil venezuelanos já vivem na Colômbia. No total, desde que Hugo Chávez chegou ao poder em 1999, mais de dois milhões e meio de venezuelanos fugiram do seu país. E agora estão a fazê-lo a alta velocidade, num êxodo maciço que assusta os países vizinhos. Há uma semana, entrevistado pela rádio portuguesa TSF, o Presidente da Guiana, David Granger, queixava-se do número de venezuelanos que todos os dias atravessam os 800 quilómetros de fronteira e da incapacidade das autoridades em controlar o fluxo de pessoas.

Sucede o mesmo em Portugal. A viagem de muitos emigrantes de volta a Portugal já não passa despercebida às autoridades de Lisboa, alarmadas pela “muito grave” falta de abastecimento de alimentos e medicamentos. Uma realidade que não se pode tapar com o dedo bolivariano, tal como pretendem o Presidente Nicolás Maduro e a cúpula civil-militar da revolução, imersos numa batalha para obter plenos poderes através da Assembleia Nacional Constituinte convocada para 30 de julho.

Segundo fontes oficiais, já regressaram à Madeira entre 3000 e 4000 portugueses de primeira, segunda e até terceira geração. Muitos outros querem seguir-lhes as pisadas, como Carolina de Oliveira, estudante de Medicina, de 23 anos, decidida a regressar à ilha da família mal termine o curso. “É lamentável, mas já se foram embora milhares de profissionais de que este país necessita. E continuarão a ir-se embora, como eu”, reconhece a jovem, que partirá com uma desculpa e um sonho: a primeira, é fazer uma especialização; a segunda, regressar à sua terra mais tarde. “Se tivéssemos saído todos a protestar, já teríamos derrubado este Governo medíocre”, critica.

Carolina fará parte de um grande grupo de médicos, entre 15 e 20 mil, que abandonaram o país. A futura médica participa nos protestos que hoje fazem 81 dias e cuja repressão e violência também fez derramar sangue português. Ángel Moreira, de 28 anos, morreu em princípios de maio ao ser abalroado por um veículo que circulava a toda a velocidade e em contramão para evitar uma barricada de manifestantes. O jovem de origem portuguesa era nadador e representara a Venezuela em várias competições. Um orgulho para a sua comunidade e para o Centro Português de Caracas, de que era sócio e um dos atletas mais conhecidos. Naquele dia conduzia a sua moto, outra das suas paixões. O condutor que o matou pôs-se em fuga. A Fiscalía, que encabeça os críticos do chavismo contra o chamado madurismo, não avançou com investigações para descobrir a identidade do homicida.

Mais sorte teve Tomás Moreira, 18 anos, agredido e roubado por um grupo de guardas nacionais quando gravava um piquete de oposição na segunda-feira em Caracas. Os militares quiseram levá-lo sob detenção, mas a mãe, presente no lugar, agarrou-o com tanta força que os polícias preferiram deixá-lo em liberdade. Poucos minutos depois, uma jornalista venezuelana gravou um vídeo desolador nas proximidades da Plaza de Altamira: Tomás a contar o episódio, de pés descalços. A Guarda Nacional também lhe tinha roubado os sapatos.

A Venezuela parece hoje um país desolado, em que, a par das manifestações, se produzem violentos saques que também fizeram vítimas, como alguns comerciantes portugueses. Num dos seus estabelecimentos, La Mayer del Pan, morreram dez pessoas eletrocutadas durante os distúrbios de 19 de abril na zona popular de El Valle, em Caracas. Naquele dia, os emigrantes mais idosos recordaram com medo o histórico Caracazo de 1989, quando a repressão contra a multidão desesperada que assaltava lojas custou a vida a centenas de pessoas.

Tintalin é a mercearia familiar de Luís Aurélio, erguida em 1973 pelo seu pai. No dia seguinte a uma turba lhe levar toda a comida, bebidas, caixas registadoras e até os cortadores de salsichas, já estava a trabalhar na reconstrução. “Isto recupera-se pouco a pouco”, animava-se a si mesmo o comerciante, enquanto os vizinhos o ajudavam a começar de novo. “A Venezuela é nossa e nós somos dela” é o lema de uma emigração que lançou fundo fortes raízes, regadas com o suor do trabalho. Mas hoje, mais do que nunca, a realidade da Venezuela escurece o slogan favorito dos portugueses. Pelo menos 40 deles sofreram o ‘furacão’ de Carabobo, os terríveis quatro dias do princípio de maio em que as forças policiais não intervieram enquanto hordas de assaltantes saqueavam lojas nesse estado a duas horas de Caracas. A Central Madeirense de La Isabelica, um dos estabelecimentos mais importantes da zona, foi desmantelada. A paisagem depois da batalha era desoladora: centenas de prateleiras vazias e o chão coberto de lixo. Como se marabuntas tivessem passado por ali.

“Já estou velho para começar do zero noutro país”, reconhece o talhante Raul Freitas, de 57 anos. Mas a crise é tão forte que também não descarta “por completo a possibilidade de voltar à Madeira”. Palavras que surpreenderiam os seus próximos, convencidos de que Freitas não abandonaria jamais a ‘Terra Prometida’ dos portugueses. Palavras pessimistas que acompanha com um compromisso: “Apoio toda essa juventude que sai para lutar pela liberdade de todos, admiro-os muito”.

Enquanto bebem um café nas suas padarias, conversam sobre os golos de Cristiano Ronaldo na final da Champions ou relatam os seus exercícios de sobrevivência no Centro Português, os emigrantes de distintas gerações procuram nas suas memórias com saudade a outra Venezuela. É ali, no centro que serve como ponto de encontro da comunidade, que se entrecruzam as histórias da nova emigração, da debandada que provocou inclusivamente a venda maciça de ações do Centro Português.

A vários quilómetros, sem nunca sair da capital, também se fala uma mistura de espanhol e portunhol. Estamos na popular padaria El Faro, onde a memória de José Correia permanece entre os seus irmãos e demais familiares. José foi morto num assalto há três anos quando estava quase a regressar à sua desejada Boaventura. “E aqui continuamos”, esclarece o seu irmão António face aos rumores da sua partida que se espalharam pelo bairro da Candelaria, onde os venezuelanos se misturam com portugueses e espanhóis.

Desespero. 
“A Venezuela foi levada pelo diabo”, queixa-se a portuguesa Alexandrina Rodríguez. Muitos portugueses já não aguentam a violência e a escassez de bens 
e estão a regressar aos milhares à Madeira

Desespero. 
“A Venezuela foi levada pelo diabo”, queixa-se a portuguesa Alexandrina Rodríguez. Muitos portugueses já não aguentam a violência e a escassez de bens 
e estão a regressar aos milhares à Madeira

LUIS ROBAYO/AFP/Getty Images

O emigrante deixa claro ao repórter desde o primeiro momento: “Somos neutrais… Mas se nos tocar, vamo-nos embora”. A família Correia veio da Madeira, “a terra do Pinóquio”, brinca António, em 1958. “Portanto, já pode fazer contas aos meus anos”, continua, depois de evitar dizer a idade. António é capaz de atender um cliente, cobrar um cartão de crédito e contar um monte de notas de 100 bolívares, aquelas que Maduro condenou à morte em dezembro e que ainda hoje estão em circulação. E tudo isto sem perder a compostura e sem se lamentar da farinha que, importada pelo Governo, não chega às padarias dos seus compatriotas.

La Candelaria exibe hoje com vergonha a mesma decadência do resto do país. Nas suas ruas misturam-se a sujidade e as filas, esmagadas também pela propaganda revolucionária: “A Venezuela livre e soberana faz-se respeitar”, grita uma parede. Aqueles tempos em que os seus restaurantes e as suas praças atraíam os outros caraquenses parecem hoje postais antigos, tempos que nunca aconteceram.

As filas de La Candelaria são as mesmas que na terça-feira passada tomaram Santa Mónica, perto da Universidade Bolivariana. Às padarias portuguesas Codazzi, Opera e Royal chegou por fim a farinha, depois de dias de espera. No primeiro estabelecimento, a fila durou quatro horas. Entre os potenciais clientes estavam fregueses da zona e gente chegada em desespero de outros pontos da cidade. Alguns querem revender as canillas, as formas de pão, perto das suas moradas. Outros querem simplesmente comer, como o casal que com a filha pequena devora o pão ainda quente à porta da padaria. Para os pais era o primeiro alimento do dia. E nem se podem queixar: são aos milhares os venezuelanos que se alimentam nos caixotes do lixo, transformados em despensas da fome.

A megacrise do pão, em março, foi “resolvida” com várias expropriações, a abertura de padarias socialistas e a promessa de que Vladimir Putin enviaria ao seu aliado bolivariano milhares de toneladas de farinha russa. Nada disso aconteceu: as bichas continuam e o pão sofre uma espécie de racionamento ‘à cubana’, tal como os medicamentos, os instrumentos médicos, os géneros alimentares e os produtos mais básicos do dia a dia dos venezuelanos.

O primeiro exemplo revolucionário impôs-se no centro de Caracas com a expropriação temporária a um emigrante português. A loja mudou de nome: já não se chama, como sempre se chamou, Mansion’s Bakery. O ‘povo’ (comités comunais apoiados por inspetores fiscais, guardas nacionais, milicianos e coletivos revolucionários) rebatizou-a com um novo nome patriótico: Minka. Pouco importa que ninguém na aldeia saiba que essa Minka era uma tradição pré-colombiana de trabalho comunitário. À frente das operações no interior da loja pôs-se um retrato de Hugo Chávez, como se fosse o “comandante supremo” o encarregado de impor a ordem no meio do caos. Trabalhadores portugueses e vizinhos protestaram na rua, mas não serviu de nada: o projeto comunal segue por diante, contra ventos e marés, contra a própria realidade.

“O meu nome é Avelino e sou um cidadão nascido em Portugal, com nacionalidade venezuelana e que trabalha muito duramente há mais de 45 anos neste país. Cheguei por causa da guerra, que se parecia muito com o que estamos a viver hoje em dia neste país que me recebeu de braços abertos”, descreve um padeiro português, de apelido desconhecido, que há umas semanas tornou pública esta impressionante carta dirigida ao Presidente Nicolás Maduro. “Não tolerarei que ninguém entre à força (no meu estabelecimento), como fizeram nos dos meus colegas, uns compatriotas e outros muitos que são mais venezuelanos que você, que também têm padarias. Defenderei o meu negócio e os meus trabalhadores com a vida se for preciso. Espero que este ‘portu’ não receba na sua loja nenhum dos seus esbirros. Se você quer que o povo não faça bichas para comprar pão, então abra a sua própria padaria e trabalhe com as unhas e sem farinha como nós temos de fazer por causa da revolução fracassada”, conclui o comerciante furioso.

Uma indignação semelhante move Alexandrina Rodríguez: acaba de gastar 64 mil bolívares em hortaliças e frango. Em casa são três pessoas e com o que conseguiu podem alimentar-se, quando muito, um par de dias. Não mais. Nada mais. O salário mínimo mais os cupões de alimentação estão hoje nos 200 mil bolívares, o que só dá para pagar uma pequena parte do cabaz de compras básico de uma família, que já custa para cima de um milhão de bolívares. “A Venezuela foi levada pelo diabo”, resume a natural de Vila do Conde, desde 1969 em terras da América Latina. Os mesmos ‘diabos’ que lhe estragam o humor depois de saber que o Governo realizou a pior operação financeira da História: 865 milhões de dólares em dinheiro em troca de umas obrigações da dívida pública petrolífera, pelas que terá de pagar 3747 milhões de dólares em 2022.

O negócio com a Goldman Sachs, a banca de Wall Street, símbolo do capitalismo, irritou bastante, tanto a oposição como os chavistas críticos, que também se recusam a aceitar a nova Constituição à medida que Maduro se prepara para se conservar no poder.

“Esta é a última oportunidade que temos para salvar o nosso país. Se isto não melhora, quem puder vai-se embora”, prevê Jéssica Freitas, 21 anos, estudante de Comunicação Social. De momento o seu destino não é Portugal; a jovem espera acabar o curso para se instalar em Buenos Aires. Algo parecido pensa Diego de Quintal, 21 anos, que irá para Madrid. “E ainda que o Governo caia, se finalmente cair, a Venezuela vai demorar tempo a recuperar”, vaticina o rapaz, como se no fundo soubesse que passarão uns quantos anos até que a Venezuela deixe de ser a nostalgia de hoje para se transformar de novo num país de oportunidades.

Durante anos, a colónia riu-se de si mesma com as piadas protagonizadas pelo “Super Portu”, o super-homem português criado por Iván Aristeguieta, capaz de distinguir as múltiplas tonalidades de café que os clientes venezuelanos exigem, controlar com acerto a caixa registadora da sua loja e lutar nos tempos livres contra os malandros que acampam nas ruas. Na Venezuela de hoje, cheia de incertezas, até o “Super Portu” deixou de voar.

“NÃO ESTAMOS À BEIRA DA INGOVERNABILIDADE. JÁ CHEGÁMOS LÁ”

Conversa em Lisboa com Margarita Lopez Maya, uma das mais destacadas cientistas sociais da Venezuela

texto de Luciana Leiderfarb

Coisa de semanas, no máximo de um mês. É quanto Margarita Lopez Maya dá à manutenção da crise institucional no seu país. “Assim como está, a situação não é sustentável por mais tempo”, explica ao Expresso aquela que é uma das mais importantes cientistas sociais da Venezuela, que está por estes dias em Lisboa. Refere-se, é claro, aos mais de 80 dias de protestos consecutivos nas ruas e às 67 vítimas mortais da violência policial. Refere-se também ao esvaziamento de funções da Assembleia Nacional (AN), que “suspendeu a democracia”, e aos contornos de uma tragédia humanitária que o Governo de Nicolás Maduro se nega a assumir como tal, rejeitando a entrada no país de organizações como a Cruz Vermelha.

Porém, os cálculos temporais desta historiadora e professora jubilada do Centro de Estudios del Desarrollo incluem igualmente uma outra variante, surgida do negrume do próprio cenário social e há dias confirmada como “a única possibilidade de uma transição pacífica” do poder. Essa variante tem rosto, chama-se Luisa Ortega, e é a procuradora-geral que já em março denunciara a suspensão do Estado de direito no país. A 8 de junho fez mais: apresentou ao Supremo Tribunal de Justiça (STJ) um pedido de anulação da convocatória da Assembleia Constituinte (AC) que Maduro pretende realizar em julho e através da qual pode redigir uma nova Constituição. Este pedido deu entrada na secção eleitoral do STJ e não na secção constitucional, que é desde março o braço direito do Executivo. O círculo próximo do Presidente não tardou a solicitar uma avaliação psiquiátrica de Ortega, cujas pretensões só podem ser sintoma de “doença mental”.

“Depois de encerrar o Parlamento e de os protestos começarem, Maduro tirou da manga a AC como sede do diálogo e da paz necessários ao país. A Constituição diz que só o povo a pode convocar. Mas num outro artigo diz que, em certos casos, a iniciativa pode ser tomada pelo Presidente. Quando o STJ interpretou que Maduro está em condições de a tomar, foi contra a posição defendida pelo próprio Chávez, separando as águas dentro do chavismo. E perdeu a sua procuradora-geral”, explica Margarita Lopez Maya. Com isso, a Venezuela ganhou a chance de uma saída democrática, embora ainda seja longo o caminho para lá chegar.

Primeiro, enumera a historiadora, a secção eleitoral do STJ tem de anular a convocatória da AC e desta forma confrontar-se abertamente com a secção constitucional, na qual Maduro se apoia para governar o país. Essa cisão criaria as condições para o início de uma negociação de que as eleições seriam apenas o corolário. “Antes, é urgente declarar a crise humanitária e restituir as funções da Assembleia Nacional. A seguir, esta tem de renovar o STJ e a Comissão Eleitoral.” Outro cenário é o de uma ditadura militar, “que já existe na prática, pois todos os ministros de Maduro são militares”.

Se Maduro se serviu do Exército para reforçar e legitimar o seu poder, o seio militar do seu Executivo começa já a mostrar fissuras. “Nas ruas, quem exerce a repressão é a Guarda Nacional, sob a tutela do ministro do Interior. E o ministro da Defesa, que é general do Exército, já veio criticá-la, exigindo o fim das atrocidades”, diz Margarita.

Num país onde grassa a impunidade, com 90 homicídios por cada 100 mil habitantes — a média da América Latina ronda os 18 casos —, o colapso das forças de segurança é um assunto sério. E mais séria é a sua “fusão” com os grupos de delinquentes. Para a professora, tal não é de admirar: a inflação de 500% registada em 2016 simplesmente “pulverizou os salários”. E mergulhou a Venezuela num grau de carência que Margarita jamais pensou ser possível. Caracas é das cidades menos afetadas, mas isso não a isenta das regras que imperam pelo país fora: não se sai de casa depois das seis da tarde e não se para nos semáforos. Recebe-se uma caixa com alimentos básicos — dois litros de leite, dois quilos de farinha de milho e mais alguns produtos, por família, a cada três semanas —, mas só se se estiver nos 30% da população a quem, por “questões proselitistas”, são distribuídos.

De resto, recorre-se ao mercado negro para tudo, até para conseguir antibióticos, insulina ou o simples soro hospitalar, ou para cambiar dólares a 7100 bolívares (sendo o câmbio oficial de 10 bolívares/dólar). Ou come-se o que se encontra no lixo, o que no país do petróleo acontece a uma em cada dez pessoas. Ou emigra-se, como fizeram um milhão e meio de venezuelanos em 2016.

Mas por que razão falta comida na Venezuela? “Um Estado petrolífero que recebe o grosso dos recursos do preço do barril tem uma economia extremamente vulnerável a esses preços. Em 2011, com o barril a 110 dólares, toda a gente tinha emprego, comida subsidiada, transportes grátis e até viagens à Disneylândia. Quando o preço cai, as divisas são consumidas e deixa de haver o que comer porque, além do petróleo, o país não tem tecido produtivo e habituou-se a importar quase tudo o que precisa”, realça Margarita Lopez Maya, notando que, se nada disto é novo no seu país, o chamado “socialismo do século XXI” — ou o Chávez do segundo mandato — exacerbou essa fragilidade.

Margarita apoiou o “primeiro Chávez”, eleito em 1999, mas foi dos primeiros intelectuais venezuelanos a criticá-lo publicamente em 2007. E considera que Maduro representou a estocada final. “O projeto é o mesmo, mas Maduro não é Chávez. Não tem o seu carisma e é um mero operador político. Mesmo assim, tentou imitar o que ele interpreta ser o legado de Chávez com a mesma retórica e ideologia”, lembra a professora. Para ganhar as eleições, Maduro utilizou a estratégia do seu antecessor, financiando a campanha com meios do Estado. Porém, “mesmo abusando dos recursos públicos, Chávez ganhava com mais de 10% de margem, e isso expressa uma clara vontade popular. Maduro só obteve 1%”.

Com o poder debilitado, apoiou-se no Exército e na repressão. Em outubro conseguiu impedir a realização de um ‘referendo revogatório’, alegando irregularidades na convocatória. Em dezembro de 2015, perdeu as eleições legislativas, ficando em minoria — 112 deputados contra 55 — na AN. “Pela primeira vez em dez anos, há um poder do Estado independente do chavismo”, comenta Margarita. Antes de a nova AN assumir funções, Maduro substituiu 15 magistrados do STJ. São estes que, em janeiro, obstaculizam a abertura do novo Parlamento, apontando fraude na eleição de três deputados. A AN é obrigada a retirá-los. Em fevereiro, a Comissão Eleitoral, controlada por Maduro, adia pela segunda vez a realização de eleições regionais. Em março, o Presidente decreta o estado de exceção nas zonas fronteiriças e logo a seguir de emergência económica em todo o país, suspendendo a ação da AN. No fim desse mês, através do STJ, faz sair dois decretos que suspendem a imunidade parlamentar e permitem a Maduro legislar. É aqui que entra em cena Luisa Ortega, mulher do Estado e do chavismo que o madurismo apelida de “demente”. Ela pode ter trazido uma luz ao fundo do túnel escuro em que a Venezuela se tornou. “Não estamos à beira da ingovernabilidade. Neste momento, já chegámos lá”, diz tristemente Margarita. E de lá só se pode sair.