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Austrália suspende missões de combate na Síria após ameaça da Rússia

Camberra tem 600 tropas estacionadas nos Emirados Árabes Unidos desde 2014 a postos para executarem missões no Iraque e na Síria

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Moscovo avisou na segunda-feira que vai considerar como potencial alvo qualquer avião que entre no espaço aéreo do seu aliado no Médio Oriente, depois de a coligação liderada pelos EUA para combater o Daesh ter abatido um avião de guerra sírio sobre Raqqa

A Austrália anunciou esta terça-feira a suspensão de todas as suas missões de combate aéreo na Síria, após a Rússia ter avisado que a partir de agora vai lidar com qualquer avião da coligação liderada pelos EUA como um potencial alvo a abater. A ameaça foi feita esta segunda-feira, um dia depois de as forças da coligação criada para combater o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) terem abatido um avião de guerra sírio. Os Estados Unidos garantem que as suas forças agiram para defender os grupos que, no terreno, estão a tentar recuperar o controlo da cidade de Raqqa, o último bastião urbano do Daesh na Síria.

"Como medida de precaução, as operações de ataque da Força Aérea Australiana (RAAF) na Síria foram temporariamente suspensas", informou o Departamento de Defesa em comunicado. Ao canal australiano ABC, um porta-voz desse departamento disse que a situação na região vai continuar a ser monitorizada e que as missões da RAAF no Iraque vão continuar. "O pessoal da Força de Defesa Australiana está a acompanhar de perto a situação aérea na Síria e uma decisão sobre a retomada das operações aéreas na Síria será tomada a seu tempo."

Os EUA garantem que as suas forças abateram no domingo o caça Su-22 das forças sírias porque o avião tinha acabado de largar bombas numa área controlada pelas Forças Democráticas da Síria (FDS), um dos grupos apoiados pela coligação ocidental que está no terreno a combater as forças de Bashar al-Assad e os militantes do Daesh. O governo de Assad, pelo contrário, garante que o seu avião estava a executar uma missão contra os jiadistas.

O vice-ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Ryabkov, disse por sua vez que o ataque dos EUA "tem de ser visto como uma continuação da política americana de desprezo pelas normas estabelecidas na lei internacional". "O que é que isto foi senão um ato de agressão? É, se quiserem, uma ajuda aos terroristas que os EUA estão a combater, declarando que estão a levar a cabo políticas antiterrorismo."

Depois das declarações de Ryabkov, o MNE russo anunciou em comunicado que, em resposta ao ataque, vai suspender o canal de comunicações com as forças dos EUA, criado para impedir colisões ou outros incidentes perigosos no espaço aéreo da Síria, onde mais de meio milhão de pessoas já morreram em mais de seis anos de guerra civil. O ministério também avisou que, de futuro, vai considerar os aviões da coligação que sobrevoem a Síria como potenciais alvos.

"Todos os tipos de veículos aéreos, incluindo aviões e UAVs [veículos aéreos não-tripulados] da coligação internacional, que sejam detetados a oeste do rio Eufrates serão seguidos pelos sistemas SAM da Rússia como alvos aéreos", anunciou o ministério em comunicado, com a ressalva de que só vai considerar abatê-los "se executarem ações que representem uma ameaça à aviação russa".

Minimizando as repercussões do incidente de domingo, o chefe das forças armadas norte-americanas, Joseph Dunford, insistiu esta segunda-feira que a linha direta de comunicações estabelecida há oito meses entre o comando central dos EUA no Qatar e o comando central russo na Síria ainda está em funcionamento e que vai continuar a ser usada para manter a situação sob controlo.

"Estou confiante de que ainda há comunicações entre o centro de operações da coligação e o centro de operações russo. Penso que o pior que qualquer um de nós pode fazer é dar resposta a esta hipérbole. Também estou confiante de que as nossas forças têm a capacidade de tomar conta de si próprias."

Em abril, no rescaldo de um outro ataque ordenado por Donald Trump contra uma base da força aérea da Síria, o Exército russo já tinha ameaçado encerrar a linha telefónica, conhecida como "canal de des-conflito". Essa ameaça nunca se concretizou e o canal continuou aberto.

Num artigo publicado esta segunda-feira no rescaldo do abate do caça sírio, a revista "Time" explicava que esse incidente pode vir a ter muito peso no futuro da Síria e de toda a região. "Durante os primeiros seis anos da crise síria, os EUA apoiaram grupos rebeldes que estão a lutar contra Assad, mas evitaram conflitos diretos com as suas forças. Isso mudou a 6 de abril, quando o Presidente dos EUA, Donald Trump, ordenou um ataque com mísseis-cruzeiro contra uma base da força aérea síria em resposta a um ataque químico que matou mais de 70 pessoas incluindo civis. Agora, acabou de envolver-se em combates ar-ar pela primeira vez."

"O abate do caça sugere uma reformulação dos contornos do conflito sírio. À medida que os EUA aprofundam o seu envolvimento na guerra no terreno contra o ISIS [Daesh] no leste da Síria, o país vai encontrar-se em conflito direto com o governo em Damasco e possivelmente com Moscovo. Este incidente aumenta o risco de uma conflagração regional mais abrangente, à medida que os EUA, Assad, a Rússia e o Irão executam manobras para tentarem controlar e influenciar o território sob controlo do ISIS."