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O líder da nova geração que assusta o Kremlin

Conferência de imprensa de Navalny num tribunal de Moscovo

SERGEI KARPUKHIN/REUTERS

Putin ignora na TV e reprime na rua
protestos crescentes da oposiçãoConferência de imprensa de Navalny num tribunal de Moscovo

Sophia Kishkovsky, correspondente em Moscovo

O programa televisivo anual do Presidente russo, quinta-feira, durou quase quatro horas, mas Vladimir Putin não fez menção direta “àquele que não deve ser nomeado”: Aleksei Navalny, cruzado anticorrupção e autoproclamado candidato presidencial às eleições de 2018.

Choveram apelos para resolver crises na habitação, empreso e saúde (2,6 milhões de mensagens durante o programa), mas Putin não conseguiu contornar os protestos da oposição. Na segunda-feira, jovens inspirados pelo movimento de Navalny manifestaram-se em dezenas de cidades.

“Vladimir Vladimirovich, só posso fazer-lhe uma pergunta”, disse um dos pivôs desta emissão em direto na TV pública. “A crise é difícil para todos. O número de descontentes está a crescer. Há quem proteste nas redes sociais. Há quem proteste na rua. Está disposto a falar com alguém da oposição?” Putin não desbobinou estatísticas ao ritmo habitual nem contou piadas, o que suscitou especulação sobre o seu possível desânimo. Preferiu acusar os adversários de quererem tirar proveito dos males da Rússia. “Estou disposto a falar com quem quiser melhorar a vida das pessoas, resolver problemas, e não utilizar as dificuldades, que existem em qualquer lugar, para marketing político, como ferramenta de autopromoção, exacerbando-as.”

Putin ainda não anunciou que concorre a um quarto mandato presidencial. As autoridades têm dito que Navalny não se pode candidatar, por ter sido condenado por desvio de fundos. O opositor diz que as acusações eram falsas e tinham motivações políticas. “Tanto quanto sei, e ele também sabe, não há hipótese de concorrer, devido à condenação anterior”, disse Ella Pamfilova, chefe da Comissão Eleitoral Central, ao canal independente TV Rain.

Navalny cumpre pena de 25 dias de prisão por ter violado a “lei de organização de reuniões públicas”. Foi detido, segunda-feira, depois de ter pedido aos manifestantes que trocassem o local de concentração aprovado pelo dos festejos do Dia da Rússia, que assinala o nascimento do Estado pós-soviético. Garante que não vai parar.

Alguns dos mais de 100 comícios dos apoiantes de Navalny decorreram sem incidentes. Tal não impediu dura repressão, sobretudo em Moscovo, São Petersburgo e Vladivostok. A organização OVD-Info refere mais de 1700 detenções após os comícios de segunda-feira. Embora muitos tenham sido rapidamente libertados, há casos por tramitar e as consequências podem ser graves. Um professor de história e ciências sociais de Krasnodar, no sul do país, foi condenado a dez dias de cadeia, em audiência fechada, e despedido do liceu. Na quinta-feira, o sítio informativo Meduza, ligado à oposição, escrevia que um aluno do 11.º ano fora detido em São Petersburgo, por suspeita de uso de força contra um polícia. A 10 de junho, outro suspeito foi preso em Moscovo, por ter participado num comício de Navalny, a 26 de março, que alarmou as autoridades devido à grande afluência de jovens.

Navalny, advogado de 41 anos, alto e loiro, atrai um público jovem que não vê televisão, mas vive na Net e nas redes sociais. Todas as quintas-feiras às 20:18, se não está na prisão, realiza uma emissão de uma hora, em direto, no YouTube, sobre os assuntos da semana. A sua fundação e o estúdio improvisado ficam num bairro gentrificado que era zona industrial na era de Estaline. Os funcionários, jovens e fluentes em inglês, não destoariam em Londres ou Los Angeles.

“Estamos aqui porque queremos mudar algo”, dizia Jana Tombu, intérprete e estudante de Direito, de 23 anos. “O Governo tem de dar respostas e dizer-nos para onde vão os nossos impostos.” O magnetismo de Navalny alimenta teorias da conspiração. Há quem até diga que é agente infiltrado do Kremlin.

Andrey Loshak, jornalista alinhado com a oposição, escreveu no Facebook após o comício de segunda-feira: “O que importa não é a corrupção, nem sequer Navalny, mas uma geração de pessoas cujas opiniões sobre liberdade e justiça são muito diferentes daquilo que as autoridades têm para oferecer. Trata-se de um protesto fisiológico da juventude contra um Estado decrépito, cínico e obsoleto”. A forma como irá evoluir definirá a história da Rússia por muitos anos.