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Balde de água fria para Grillo e o “Cinco Estrelas” 

Beppe Grillo votando na sua cidade natal, Génova, onde o resultado lhe foi adverso

LUCA ZENNARO/EPA

As eleições municipais correram mal à formação de Beppe Grillo, mas é cedo para dá-la por acabada

Os indignados do Movimento 5 Estrelas (M5S), fundado pelo cómico Beppe Grillo, que as sondagens indicam ser o primeiro ou segundo partido de Itália (30%), sofreram um revés nas últimas eleições municipais parciais realizadas no país. Ainda assim, não estão acabados.

O “partido antipartidos” não conseguiu qualquer autarquia entre as 24 capitais de região e província onde se votou. Também não conquistou nenhuma das cidades e aldeias com menos de 15 mil habitantes, tendo vencido apenas em nove das localidades mais pequenas.

“O M5S está acabado”, a sua “onda expansiva terminou”, “Grillo Kaput”, escreveu-se na maioria dos diários transalpinos, numa leitura provavelmente equivocada do significado dos desastrosos resultados eleitorais obtidos por um “partido” que em 2013 obteve, de repente e a nível nacional, 25% dos votos. “É melhor ser prudente antes de dar o M5S por acabado”, alerta o sociólogo Ilvio Diamanti. “O M5S existe e constitui uma força política”, confirma o ex-primeiro-ministro Matteo Renzi, líder do progressista Partido Democrata (PD), comentando precisamente o resultado desta ida às urnas.

A breve história do M5S mostra que nas eleições legislativas de 2013 o “partido” de Grillo reuniu 25% dos votos, mas dois meses mais tarde conseguiu apenas duas câmaras municipais. Em 2014 obteve apenas duas autarquias, mas nas eleições europeias do mesmo dia chegou aos 21% de sufrágios. Em 2015 ganhou apenas dois municípios e foi apenas em 2016 que o M5S conquistou 19 municípios dos 143 que foram a votos, incluindo Roma e Turim. Isto levou a pensar que por fim os “grillitos” indignados estavam a tornar-se um “partido” nacional. Estará o M5S a voltar para trás?

Mistérios da sociologia eleitoral

Quase todos os sociólogos interpretam este vaivém eleitoral por o movimento “não estar implantado no território”. O M5S recolhe votos no norte, centro e sul do país; entre operários, estudantes, trabalhadores independentes, trabalhadores por contra de outrem e desempregados. É um partido “transversal” a classes sociais, profissões, idades... A exceção são os reformados e donas de casa, que costumam votar à esquerda “porque garante melhor futuro económico”. Por estes motivos, o M5S obterá vitórias nacionais, mas derrotas ou pequenos consolos à escala local.

Uma das causas é política e sociológica. O M5S seleciona os seus candidatos através de primárias na internet — chamam-lhe “democracia direta” — o que facilita fenómenos como este: em 2013 uma cabeleireira da ilha da Sardenha obteve 300 votos nas primárias e depois ganhou um lugar de deputada, face a adversários que eram veteranos da política. A questão não reside no ofício da candidata, mas em que no seu eleitorado o M5S não pôde realizar uma seleção política, tendo apenas um candidato que carecia de liderança social e política na sua cidade.

O M5S surgiu em Itália como formação contra as castas, antipolítica e anticorrupção, o que, tem tempos de corrupção generalizada, podia ter garra e ser atraente. Acontece, porém, que um presidente da câmara ou de uma região tem de lidar, diariamente, com problemas concretos, desde a chegada em massa de emigrantes e refugiados, à limpeza das cidades ou à construção de habitação social. “A maioria [dos “grillitos”] pensa que a democracia pode funcionar melhor sem partidos”, escreveu o sociólogo Diamanti.

Não obstante, a administração quotidiana de uma aldeia ou de uma cidade exige que os dirigentes locais do M5S tomem decisões que, por vezes, não são partilhadas pela cúpula do movimento, incluindo Grillo. Nessa altura expulsam-nos ou trocam de candidato, como aconteceu desta vez em Génova. A cúpula do movimento decidiu que a candidata eleita online era “incompetente”, preferindo o segundo classificado. A primeira fez queixa e o tribunal deu-lhe razão.

Um Movimento “antitudo” não perde a virgindade política num dia. A próxima contenda será nas legislativas de 2018. Segundo os estudos de opinião, o M5S e o progressista PD de Renzi têm 30% cada um.