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Helmut Kohl: Um génio “que privilegiava sobretudo a substância”

MAURIZIO GAMBARINI/AFP/Getty Images

O ex-chanceler alemão é aqui recordado por Luís Almeida Sampaio. O atual embaixador de Portugal na NATO cruzou-se por diversas vezes com Helmut Kohl nos últimos 30 anos

- Agora já não há homens, políticos, de estatura internacional, como o senhor.

- Pois não, agora há mulheres - respondeu de imediato Helmut Kohl.

A conversa entre o antigo chanceler alemão e o embaixador português na Nato está na memória de Luís Almeida Sampaio, que entre 2012 e 2015 era embaixador de Portugal em Berlim. Foi durante esses anos que escreveu a Helmut Kohl, “numa carta à mão”, pedindo-lhe para se encontrarem. Queria “ouvir da boca dele” as memórias sobre a “reunificação da Alemanha”.

O encontro decorreu no Bundestag, o parlamento alemão, num escritório que Kohl mantinha no grupo parlamentar da União Democrática Cristã (CDU) - partido hoje liderado por Angela Merkel. Durante uma hora teve lugar o que descreve como uma “conversa fascinante”.

“Ele vivia como se fosse ontem esses momentos únicos da sua vida política”, diz Almeida Sampaio. Ao lado de Kohl estava a sua segunda mulher, Maike Kohl-Richter, “que o acompanhava sempre nestes últimos anos”, em que o estado de saúde do antigo líder era mais frágil mas em que a mente permanecia “perfeitamente lúcida”.

Foi já no final desse encontro que Kohl afirmou que “agora há mulheres” em vez de homens de estatura internacional. Angela Merkel foi durante anos sua protegida na política, sucedendo-o na liderança da CDU, num processo que revelou as divergências entre ambos. “Apesar disso, não deixa de ser curiosa a forma como ele imediatamente reagiu”, conta o embaixador.

Mas as lembranças que tem de uma das figuras-chave do século XX vêm de trás, do final dos anos 80, quando Almeida Sampaio era um “dos jovens diplomatas” que integravam o gabinete do então secretário-geral da NATO Manfred Wörner. O alemão tinha sido ministro da Defesa nos três primeiros governos de Helmut Kohl.

Decorriam “os anos extraordinários” da queda do muro de Berlim, da reunificação alemã, na abertura da NATO ao leste da Europa, dos contactos com a União Soviética de Gorbatchev. Eram tempos “complexos da política internacional” que “exigiam enorme coragem”.

“A personagem mais impressionante nesse contexto era Kohl, que falava como regularidade com o secretário-geral da NATO”, recorda Almeida Sampaio.

“Ele desde muito cedo percebeu que seria possível unificar a Alemanha no quadro das comunidades Europeias e no quadro da NATO”, sublinha, recordando que em todas as reuniões e conversas que presenciou “nunca houve nada” que fizesse Kohl divergir desta perspetiva europeia e ao mesmo tempo de salvaguarda do reforço da relação transatlântica.

“Agora parece uma evidência, na época era considerado irreal”, adianta, referindo-se também à rapidez com que o processo de reunificação acabou por se fazer, também no quadro da Aliança Atlântica. “Desde o início, Kohl teve esse instinto e contagiou o secretário-geral da NATO”, diz Almeida Sampaio, acrescentando que “o génio de Helmut Kohl foi acreditar e tudo fazer que a reunificação tivesse lugar de forma a não desequilibrar perigosamente a situação de segurança internacional”.

Ao mesmo tempo, a relação franco-alemã desenvolvia-se e tornava-se fundamental. Está gravada na História a imagem do chanceler alemão de mãos dadas com o então presidente francês François Mitterrand, numa época em que à frente da Comissão Europeia estava um outro francês, o carismático Jacques Delors.

O contributo para a moeda única

A Alemanha vai somando peso e influência dentro da Comunidade Económica Europeia, à medida que esta se transforma em União e avança para um aprofundamento económico e monetário. “Kohl desempenhou um papel decisivo na criação do euro, contribuindo para convencer os alemães a deixar o marco”, diz Almeida Sampaio, que na segunda metade dos anos 90 acompanhou o processo como assessor diplomático do então comissário João de Deus Pinheiro, durante o mandato de Jacques Santer.

“O apoio de Kohl à criação do euro foi, no fundo, na minha opinião, o preço que ele teve de pagar pelo apoio francês à unificação da Alemanha”, comenta. O chanceler alemão terminou o último mandato em outubro de 98. Uns meses antes, em junho, a Alemanha dava luz verde à transformação do Instituto Monetário Europeu em Banco Central Europeu. O Euro começava a circular na forma de moedas a 1 de janeiro de 2002.

Sobre a figura, Almeida Sampaio recorda um homem “que privilegiava sobretudo a substância”, que estava “ultra bem preparado” e muito bem assessorado por Horst Teltschik. Alguém que preferia um estilo de “comunicação sóbrio”, privilegiando a “economia da narrativa” e o “trabalho à porta fechada”.

“Havia um recato da parte dele, do ponto de vista político e da execução política, que contrastava com outras personalidades que na época eram muito mais mediáticas”, diz Almeida Sampaio, lembrando a primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, o presidente norte-americano, Ronald Reagan, ou o francês François Mitterrand.

Kohl era “um homem reservado”, mas não “frio e insensível”. Almeida Sampaio recorda as manifestação de afeto e simpatia que tinha para como o seu antigo ministro da Defesa Manfred Wörner.

Outra recordação que guarda é um pedaço original do muro de Berlim que Helmut Kohl ofereceu à mulher de Almeida Sampaio, durante o jantar de lançamento do livro “Aus Sorge um Europa” - “Preocupações com a Europa”.

“Ele achava que o que tinha sido conseguido com a reunificação da Alemanha, com o alargamento da União Europeia, tinha permitido uma coisa única. Desde 1871, data da primeira unificação da Alemanha, o país estava em paz com todos os seus vizinhos”, conclui.