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No senado americano, um silêncio valeu mais que mil palavras

Win McNamee/ Getty Images

O procurador-geral dos Estados Unidos, Jeff Sessions, sentou-se esta terça-feira diante dos senadores para responder às perguntas sobre a alegada interferência russa nas eleições de novembro. Com um senão: Sessions preferiu responder às questões com silêncio. “Houve obstrução”, defendem especialistas consultados pelo Expresso

O calendário marcava o dia 8 de maio quando Donald Trump mandou chamar o procurador-geral dos Estados Unidos, Jeff Sessions, e o seu vice-procurador, Rod Rosenstein, para uma reunião privada. O objetivo era claro: Trump tinha já decidido que iria despedir o então diretor do FBI, James Comey, mas precisava que ambos fortalecessem a sua decisão, passando para escrito os argumentos a favor do despedimento. Foi o que aconteceu: Rosenstein escreveu uma crítica à forma como Comey geriu, na reta final da campanha presidencial, o caso dos emails de Hillary Clinton e o seu superior concordou.

Talvez Sessions tenha ficado surpreendido por, dois dias depois, Trump ter confirmado à NBC que a investigação do diretor do FBI à alegada interferência russa nas eleições americanas foi uma motivação para o despedimento: “Quando decidi [despedir Comey], disse para mim mesmo: ‘Esta coisa da Rússia, com Trump e a Rússia, é uma história inventada’”. Mais: ao ministro dos negócios estrangeiros russo terá dito então, numa reunião na Sala Oval, que o despedimento do “maluco” Comey lhe teria “retirado pressão”.

Embora na sequência destas declarações de Trump muita gente tenha perguntado se Sessions ficou surpreendido pelo facto de o Presidente falar à televisão da “coisa da Rússia” abertamente, a resposta é: talvez. Esta terça-feira, os senadores que interrogaram o procurador-geral, num inquérito sobre a alegada interferência russa nas eleições dos Estados Unidos, colocaram a questão. E Sessions respondeu de várias formas, nenhuma delas conclusiva: que não podia explicar, que não podia falar, que lhe era impossível dar detalhes, mesmo sobre a sua própria surpresa.

Win McNamee/ Getty Images

“Não me recusei a defender a minha honra”

“Deixem-me dizer isto claramente”, pediu Sessions na sua declaração inicial perante o Senado, “eu nunca me encontrei ou tive qualquer conversa com russos ou representantes estrangeiros sobre qualquer tipo de interferência em qualquer campanha ou eleição”. “E não tenho conhecimento de qualquer conversa desse tipo de ninguém ligado à campanha Trump.”

Foi um dos momentos mais claros da audiência, mas até esse foi ensombrado por dúvidas antigas – afinal, no início do ano descobriu-se que Sessions mentiu nas suas sessões de confirmação para o cargo de procurador-geral, ao omitir duas reuniões com o embaixador russo nos Estados Unidos, e depois disso Sessions decidiu retirar-se de qualquer investigação relacionada com a campanha do ano passado. “Eu retirei-me de qualquer investigação sobre a campanha para a presidência. Não me recusei a defender a minha honra de acusações falsas e escandalosas”, declarou Sessions esta terça-feira.

Em resposta às notícias que têm dado conta de um terceiro encontro de Sessions com um representante russo no hotel Mayflower, em Washington, o senador republicano Tom Cotton, do Arkansas, saiu em defesa do procurador-geral: “Alguma vez, nestas situações do domínio da fantasia, ouviram um enredo tão ridículo em que um senador dos Estados Unidos [Sessions era então senador do Alabama] e um embaixador de um governo estrangeiro conspirassem num espaço aberto, com centenas de outras pessoas, para conseguir o maior golpe da história de espionagem?”. Sessions sorriu e agradeceu: “Obrigado por dizer isto”.

EPA

“Poucas pessoas acreditam que tenha havido conspiração explícita”

Apesar do agradecimento, nem toda a gente acredita que a questão ali ridicularizada pelo senador do Arkansas fosse importante. “[Os senadores] deixaram que Sessions fugisse, permitindo-lhe que construísse uma narrativa inteiramente sobre se houve conspiração explícita com os russos durante a eleição. Poucas pessoas acreditam que tenha havido conspiração explícita. Os russos são demasiado sofisticados para isso”, explica ao Expresso Ian Shapiro, professor de ciência política na Universidade de Yale. “A pergunta que deviam estar a fazer é se e quando começaram as conversas entre membros da campanha e administração Trump e representantes do Governo russo sobre abolir ou retroceder nas sanções sobre a Rússia. Foi um erro chocante o de não ter havido perguntas sobre as sanções.”

Outro dos focos principais da sessão baseou-se na audiência da semana passada em que o próprio Comey, naquela mesma sala, fez revelações sobre a pressão que Trump terá feito sobre a investigação do FBI à alegada interferência russa nas eleições, e em particular o pedido do presidente para que parasse de investigar Michael Flynn, o seu antigo conselheiro de segurança nacional. Da audiência de Comey surgiram várias questões, a que Sessions respondeu quase invariavelmente com… recusas em responder.

Na sua audiência, Comey falou do encontro em fevereiro, na Casa Branca, em que Trump pediu que o deixassem a sós com o diretor do FBI. Sessions, que também lá estava, terá sido o último a sair e, depois da conversa, Comey pediu-lhe que não o voltasse a deixar sozinho com o presidente – habitualmente, é o procurador-geral que informa o presidente sobre o estado das investigações, de forma a evitar pressões políticas, neste caso sobre o diretor do FBI. Questionado sobre o encontro, Sessions explicou que não viu o incidente como um “grande problema”. Também recordou ter dito a Comey, depois do encontro, que concordava que havia “regras sobre conversas privadas com o presidente”. “Mas não há uma proibição”, argumentou.

BRENDAN SMIALOWSKI/ Getty Images

“Sim, houve obstrução”

Recusando responder sobre se sabia que a investigação russa era uma motivação de Trump para despedir Comey, Sessions justificou as recusas com o “privilégio executivo”, um direito que o presidente do país pode invocar para não responder a algumas questões. No entanto, esse direito não pertence a Sessions, que disse estar a tentar proteger o presidente e as suas conversas privadas.

“Tal como o diretor dos serviços secretos, Daniel Coats, e da NSA, Mike Rogers, na semana passada, o procurador-geral recusou-se a responder a questões sobre assuntos que não são confidenciais. De facto, o porta-voz já tinha declarado antes da audiência de Sessions que não iriam usar o privilégio. Por isso sim, houve obstrução”, defende Ian Shapiro. “Nenhum deles conseguiu citar base legal nenhuma para recusar responder às perguntas.”

“O argumento de que uma testemunha pode recusar responder a uma pergunta porque ela tem que ver com assuntos sobre os quais o presidente pode declarar um privilégio (embora não o tenha feito até agora) é novidade”, corrobora ao Expresso Mark Tushnet, professor de direito constitucional em Harvard. “A única forma de testar a legalidade do que Sessions fez seria acusá-lo de desacato perante o Congresso, o que obrigaria o presidente a declarar formalmente o privilégio.”

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Com os argumentos para defender o seu silêncio a ser atacados pelos especialistas, pela imprensa e por boa parte dos senadores que o interrogaram, Sessions poderá ter dado mais um golpe “na sua reputação” e no mandato de Trump, argumenta Shapiro: “Como no depoimento de Comey na semana passada, não houve um golpe fatal para Trump, mas continua a destruir-se aos poucos a sua legitimidade”.

Apesar de as palavras terem sido poucas, para Bruce Ackerman, especialista em direito constitucional e políticas públicas e professor em Yale, “o elemento mais importante do testemunho passou despercebido”: questionado sobre as intenções de Trump de despedir o procurador especial do FBI agora encarregado da investigação sobre a Rússia, Robert Mueller, Sessions acabou por dizer que tem “confiança” em Mueller. “Isto aumenta muito o preço político para Trump se, como o ‘New York Times’ noticiou, ele cumprir a sua ameaça de o despedir. De facto, a edição desta quarta-feira noticia que Trump recuou – pelo menos por agora”, explica Ackerman.

“Não houve revelações chocantes no testemunho de Sessions”, resume ao Expresso Robert S. Erikson, professor de ciência política na Universidade de Columbia. “Não haver grandes notícias, de certa forma, ajuda Trump.” Mas nem tudo o que parece é e as vozes críticas insistem agora que os silêncios de Sessions podem ter dito mais do que as suas respostas. “Com o tempo, aspetos do seu testemunho (ou o seu silêncio) podem tomar uma magnitude que não reconhecemos ainda”, conclui o professor.