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May anuncia investigação oficial ao incêndio em Londres. Seis vítimas “identificadas provisoriamente”

TOLGA AKMEN/GETTY IMAGES

Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista britânico, quer que “a verdade venha ao de cima” e o deputado trabalhista David Lammy apela a que os responsáveis por este “homicídio corporativo” sejam detidos. Residentes dizem ter alertado para as más condições de segurança do edifício e para o risco de incêndio, sem que ninguém tenha ouvido as suas queixas. Seis vítimas foram já “identificadas provisoriamente”. Uma delas é um sírio de 23 anos que chegou a Londres em 2014. Eis os mais recentes desenvolvimentos do incêndio que deflagrou num edifício em Londres e do qual resultaram pelo menos 17 mortos e dezenas de feridos

Helena Bento

Jornalista

A primeira-ministra britânica, Theresa May, anunciou esta quinta-feira que haverá uma investigação oficial sobre o incêndio que ocorreu numa torre residencial em Londres e que provocou pelo menos 17 mortos e dezenas de feridos.

Em Downing Street, depois de uma visita ao local da tragédia, na zona oeste de North Kensington, Theresa May afirmou à BBC ser “necessário assegurar que esta terrível tragédia vai ser devidamente investigada”. “As pessoas merecem uma resposta, que lhes será dada a partir desta investigação”, garantiu a primeira-ministra, que foi muito criticada por alguns dos seus opositores políticos, entre os quais a deputada trabalhista Harriet Harman, por não se ter encontrado com residentes durante a sua visita ao local - mais tarde, May haveria de justificar esta sua decisão com o argumento de que a sua visita teve como objetivo obter algumas informações rápidas junto dos serviços de emergência, que se encontravam a trabalhar em “condições horríveis”, revelando “profissionalismo” e “bravura”.

Na madrugada de quarta-feira, um incêndio deflagrou na Torre Grenfell, um edifício com 24 andares e 120 apartamentos, onde viviam entre 400 a 600 pessoas. As causas ainda não são conhecidas. Segundo o mais recente balanço oficial da polícia, morreram 17 pessoas, um número que poderá ainda aumentar dado o “número indeterminado” de desaparecidos.

Em declarações ao programa Today, da rádio BBC 4, o deputado trabalhista David Lammy referiu-se ao incidente como um “homicídio corporativo” e apelou à detenção dos responsáveis. Horas após o incidente, a associação de moradores Grenfell Action Group, que assume ter como compromisso “defender os direitos dos moradores de Lancaster West Estate”, zona onde se localiza a torre que foi consumida pelas chama, publicou um texto no seu blogue em que refere ter alertado, no passado, a câmara municipal e a organização de gestão dos residentes de Kensington e Chelsea (Kensington and Chelsea Tenant Management Organisation ou, na sigla no original, KCTMO) para as más condições de segurança do edifício e para o risco de incêndio, assim como para os “maus tratos recebidos pela comunidade”, sem que as suas queixas tenham sido “ouvidas”. “Os leitores regulares do blogue saberão que, nos últimos anos, temos feito numerosas advertências sobre os baixos níveis de segurança contra incêndios na Torre Grenfell e, em geral, em todo o bairro”, lê-se na mensagem publicada.

Também o presidente da Câmara de Londres apelou, esta quinta-feira, a um inquérito “público e independente” para que “até ao final do verão, o mais tardar, já haja respostas”. “A dimensão desta tragédia começa a tornar-se cada vez mais clara e há questões urgentes que exigem respostas urgentes”, afirmou Sadiq Khan num comunicado citado pelo jornal britânico “Independent”, em que afirma ainda que as famílias afetadas têm de ter uma boa representação legal pública, durante a investigação oficial, para analisar se houve, ou não, negligência na manutenção do edifício, como acusam alguns residentes.

Mostrando-se solidário com as vítimas, o líder do Partido Trabalhista britânico, Jeremy Corbyn, defendeu que “a verdade tem de vir ao de cima” e adiantou que o recém-eleito deputado pelo Partido Trabalhista em Kensington e Chelsea irá falar aos residentes. Também o ministro das Finanças britânico, Philip Hammond, manifestou o seu pesar pelo sucedido e agradeceu o esforço das equipas médicas que prestaram socorro no local.

Segundo informações oficiais, há atualmente 30 pessoas internadas em seis hospitais da cidade, 15 das quais encontram-se em estado considerado grave. Das vítimas mortais, foram já “provisoriamente” identificadas seis, anunciou o comandante da Polícia Metropolitana de Londres, Stuart Cundy. Uma das vítimas, de acordo com a associação de solidariedade Syrian Solidarity Campaign, é Mohammed Alhajali, um sírio de 23 anos que morava no 14.º andar da Torre Grenfell, com o irmão mais velho, Omar, que se encontra no hospital. Estudante de engenharia civil na University of West London, Mohammed Alhajali fugira da Síria em 2014 com os irmãos e os pais. “Sobreviveu a Assad [Presidente da Síria] e à guerra na Síria para acabar por morreu num edifício em Londres. Não há palavras”, lamentou Abdulaziz Almashi, um amigo da família e co-fundador da associação de solidariedade. “Isto é horrível. Depois de tudo aquilo por que passou, acaba por morrer num sítio seguro. Temos um governo que inicia uma guerra contra os seus cidadãos e um governo que negligencia os regulamentos de construção... quando é que os líderes vão finalmente começar a preocupar-se com os seus cidadãos?”, questionou Marjorie Bahjad, uma amiga dos irmãos da vítima, citada pelo britânico “The Telegraph”.

Mohammed Alhajali, explicou em comunicado a associação de solidariedade que informou sobre a sua morte, terá estado cerca de duas horas à espera de ser resgatado, no interior do seu apartamento. Durante esse tempo, fez várias chamadas para amigos e família na Síria, para explicar o que estava a acontecer. A dada altura, e apercebendo-se da proximidade das chamas, enviou uma última mensagem a despedir-se. “O fogo já aqui está. Adeus”.