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Internacional

Porque ardeu a torre Grenfell?

FACUNDO ARRIZABALAGA

Por enquanto, ninguém sabe ao certo como foi possível que um edifício residencial da capital britânica, com 120 apartamentos e entre 400 e 600 moradores, tivesse ardido por completo provocando a morte de, pelo menos, 12 pessoas, numa altura em que muitas outras continuam desaparecidas. Moradores estavam instruídos, em caso de incêndio, para esperar pelo socorro dentro de casa

Como foi possível? Eis a pergunta de um milhão de libras que os media britânicos tentam a todo o custo responder, cerca de 12 horas depois de uma torre residencial arder por completo em Londres, num dos maiores incidentes deste tipo na capital britânica.

Sabe-se agora que “há vários anos” que as famílias que aí moravam temiam este desfecho. Mas o senhorio garantia repetidamente que estava tudo bem, contou ao “The Guardian” Judith Blakeman, membro eleito pela comunidade local para defender os seus interesses.

“Diziam-lhes que os apartamentos estavam seguros durante uma hora, a não ser que estivessem muito próximo das chamas. Que deviam permanecer nos apartamento, que os bombeiros conseguiram resgatá-los durante uma hora, no máximo”, refere Judith Blakeman.

A mulher conta ainda que os bombeiros inspecionaram recentemente o edifício e concluíram que estava tudo bem. E as pessoas ficaram “muito satisfeitas”.

Mas esta madrugada, quando faltavam alguns minutos para a 1h (a mesma em Lisboa) as chamas começaram a engolir a torre de 24 pisos da Latimer Road, na região oeste de Londres. E devoraram-na por completo. Duzentos operacionais apoiados por 40 veículos acorreram ao sinistro. Os primeiros 20 garantem que demoraram apenas seis minutos a chegar desde de que a sirene tocou no quartel.

Quando lá chegaram tinham pela frente um edifício recentemente remodelado. Com um novo isolamento térmico, que, apurou o “The Guardian”, também foi aplicado em dezenas de outros blocos de apartamentos construídos entre os anos 60 e 70 do século passado.

Conta o jornal que o incêndio desta madrugada está a obrigar diversas empresas do sector da construção a passarem em revista os projetos de remodelação concluídos. Um arquiteto que pediu para não ser identificado lembra que o tipo de revestimento usado na torre Grenfell deveria ter sido instalado com uma espécie de linha “corta-fogo” entre pisos e à volta de cada janela. Se tivessem sido bem instalados, as chamas não poderiam ter avançado daquela forma.

A empresa encarregada da remodelação do edifício assegura em comunicado “que cumpriram à risca as normas em vigor”. Mas de acordo com o jornal imobiliário “Inside Housin”, durante as obras realizadas em 2016, para poder substituir as tubagens de aquecimento, as tais estruturas que impediriam o fogo de passar de um piso para o outro foram removidas. E não se sabe, por enquanto, se já teriam sido recolocadas. O empreiteiro voltou esta tarde a dizer que respeitaram “todas as normas em vigor”.

Uma associação de proprietários de Manchester, no rescaldo desta tragédia em Londres, assegura que a legislação britânica não obriga à instalação de um alarme de incêndio comum a todo o edifício, nem de equipamento de combate às chamas distribuído estrategicamente pelos corredores, como por exemplo extintores.

Esta quarta-feira foi amplamente noticiado pelos media britânicos que nada disso existia na torre Grenfell. Mas há uma escada para permitir escapar de um apartamento em chamas. Só que essa escada, refere o tal arquiteto que falou sob anonimato com o “The Guardian”, “só poderá ser usada para que um pequeno grupo de pessoas consiga sair de um apartamento em chamas”.

“A estratégia de segurança adotada na torre Grenfell [esperar até uma hora pelos bombeiros no apartamento em caso de incêndio], nunca funcionaria se as chamas estivessem a consumir o edifício pelo exterior. Por isso, terão morrido pessoas neste incêndio.”