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Internacional

Cólera infeta uma criança por minuto no Iémen

Enfermeira assiste um menino com cólera, num hospital de Hodeidah, cidade iemenita junto ao Mar Vermelho

ABDULJABBAR ZEYAD / Reuters

O alerta foi dado esta quarta-feira pela organização Save the Children que fala num surto “fora de controlo” no Iémen. Para além da pobreza crónica, três anos de guerra destruíram centros de saúde e degradaram os sistemas de saneamento e de fornecimento de água potável. As crianças são as principais vítimas

Margarida Mota

Jornalista

A guerra não pára de abrir frentes no Iémen. Atualmente, a cada minuto que passa, pelo menos uma criança é infetada com cólera, denunciou esta quarta-feira a organização não governamental Save the Children.

A taxa de infeção triplicou nas últimas duas semanas, afetando especialmente menores de 15 anos — que correspondem a 46% dos cerca de 5470 novos casos diários de cólera e de diarreia líquida aguda. Até 13 de junho (terça-feira), em 20 das 22 províncias iemenitas, já tinham morrido 942 pessoas.

Na origem da escalada deste surto “fora de controlo” estão situações de penúria alimentar — mais de dois milhões de crianças sofrem de subnutrição grave — e a destruição provocada por quase três anos de conflito, sobretudo ao nível das infraestruturas de saúde, do fornecimento de água potável e do saneamento básico.

Nas palavras de Grant Pritchard, diretor da ONG no Iémen, o Iémen está “à beira do colapso total”. Palavras semelhantes foram usadas, no início do mês, pelo representante da UNICEF no Iémen. “A cólera surgiu numa altura em que o sistema está prestes a colapsar, a pobreza está a aumentar e a subnutrição está em alta”, disse Meritxell Relaño. “Imagine-se como fica uma criança que já é muito fraca, e cujo sistema imunitário está nos mínimos, quando tem diarreia. Crianças com seis meses pesam apenas 2,5kg.”

Duas meninas empurram um carro de rodas com bidões de água, junto a uma pilha de lixo, em Sana

Duas meninas empurram um carro de rodas com bidões de água, junto a uma pilha de lixo, em Sana

Khaled Abdullah / Reuters

O Iémen é o mais pobre dos países árabes — 168º lugar no último Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (188 países) — e tem uma guerra em curso que vai a caminho do seu terceiro ano. Segundo a ONU, 18,8 milhões de iemenitas (cerca de 70% da população total) necessitam de assistência humanitária — incluindo 10,3 milhões de crianças.

O conflito acentuou-se a partir de março de 2015, quando o país começou a ser alvo de bombardeamentos por parte de uma coligação de países da região.

Oficialmente, a ofensiva liderada pela Arábia Saudita, o gigante árabe sunita do Médio Oriente, visa devolver o poder ao Presidente Abd Rabbuh Mansur Hadi, deposto em setembro de 2014 pelos rebeldes huthis — xiitas e próximos do Irão (país persa), o grande rival dos sauditas.

Na semana passada, a Arábia Saudita expulsou o Qatar desta coligação militar, na sequência do corte de relações de quatro países árabes (Bahrain, Egito, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos) em relação ao pequeno emirado.