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A maioria de Macron é tão grande que não cabe em nenhuma sala do Parlamento

CHRISTOPHE PETIT TESSON / POOL/ EPA

Nunca se viu uma coisa assim em França. As projeções para a segunda volta apontam para um grupo parlamentar gigantesco do partido République en Marche, do Presidente Emmanuel Macron, com cerca de 450 deputados num total de 577. A magia do sistema eleitoral francês favorece-o e levará também a que o terceiro partido mais votado na primeira volta, a Frente Nacional, de Marine le Pen, passe para quinto lugar. E que o PS, que ficou em quinto, passe para terceiro

Há quem diga, no campo do Presidente Emmanuel Macron, que está em curso uma “revolução” em França. Nem mais nem menos. No mesmo campo, há também quem prefira dizer que o país está a conhecer uma “primavera Macron”.

Para os primeiros, será a revolução do “nem esquerda nem direita”, slogan do jovem chefe de Estado, o homem que provocou uma recomposição nunca vista da vida partidária francesa e o fim do bipartidarismo (socialistas/direita) que sempre alternou no poder na V República.

Quanto à alusão às primaveras árabes, tem a ver com as centenas de caras novas que vão aparecer no Parlamento, muitas delas de neófitos completamente desconhecidos dos franceses e dos jornalistas, sem currículo partidário e totalmente inexperientes na política.

Emmanuel Macron em marcha para uma hegemonia parlamentar

Emmanuel Macron em marcha para uma hegemonia parlamentar

CHRISTOPHE PETIT TESSON / POOL/EPA

Estes qualificativos poderão ser ousados, mas facto é que a primeira volta das legislativas deste domingo provocou no país um sismo político de grande envergadura. A maré Macron ampliou a sua recente vitória nas presidenciais e entrega ao Eliseu todos os poderes, que ficará, segundo se prevê, quase sem oposição no Parlamento. A hegemonia do República Em Marcha (REM), fundado há apenas 16 meses, será esmagadora na Assembleia Nacional, até porque, entre a centena de deputados de Os Republicanos que serão eleitos, uma boa parte diz querer cooperar com o PR e o seu Governo, que é aliás dirigido por Edouard Philippe, membro deste partido de direita. Os Republicanos alcançaram 21,56% dos votos na primeira volta, mas estão profundamente divididos sobre a estratégia a seguir face a Macron e ao seu Governo, de centro-direita.

Vassourada humilhante

Os resultados da primeira volta foram uma vassourada humilhante para alguns dos nomes mais conhecidos da “velha” classe política. Por exemplo, Benoît Hamon, candidato socialista às presidenciais, foi eliminado. O mesmo aconteceu com Jean-Cristophe Cambadèlis, líder do PS, ou com Cécile Duflot, figura de proa dos ecologistas. Muitos outros antigos ministros e deputados socialistas, cerca de 90, foram igualmente afastados brutalmente da corrida à segunda volta por candidatos do REM que quase ninguém conhece.

Benoit Hamon

Benoit Hamon

CHRISTIAN HARTMANN/ Reuters

O PS mergulhou numa crise profunda, certamente duradoura. Os eleitores sancionaram o balanço do quinquénio de François Hollande e os socialistas apresentaram-se às eleições sem uma linha clara. Durante a campanha, nunca conseguiram explicar se eram a favor ou contra Hollande e uns candidatos diziam uma coisa outros outra. A hecatombe socialista não surpreende.

A magia da lei eleitoral

O êxito do partido de Emmanuel Macron é inegável, apesar da elevada taxa de abstenção (mais de 51% dos eleitores não votaram). O REM obteve 32,32% dos votos, mas graças à lei eleitoral francesa – uninominal maioritária a duas voltas – a dimensão da sua vitória será fortemente ampliada. É um sistema mágico porque, por exemplo em Portugal, com a lei eleitoral proporcional, o REM nem sequer alcançaria a maioria absoluta. Pelo contrário, em França, ela será não apenas absoluta mas sobretudo esmagadora.

A lei eleitoral também permitirá ao PS, que foi completamente cilindrado na primeira volta, com 9,51% dos votos, passar do quinto lugar para terceiro lugar no Parlamento. Graças a acordos de desistências e de transferências de votos com outros partidos, os socialistas poderão ter mais de 20 lugares na futura Assembleia Nacional.

SEBASTIEN NOGIER/EPA

Ao contrário, a Frente Nacional, da nacionalista Marine le Pen, ou França Insubmissa, do radical de esquerda Jean-Luc Mélenchon, que este domingo ficaram respetivamente em terceiro e quarto lugares no escrutínio, claramente à frente do PS, poderão nem sequer chegar a eleger 10 deputados cada um. No entanto, Marine le Pen e Mélenchon, que pedem uma lei eleitoral proporcional que represente melhor as reais relações de força entre os diversos partidos, poderão consolar-se: ambos têm hipóteses de serem eleitos nos círculos onde são candidatos.

EPA

Um almoço muito saboroso

A campanha, bem como as tradicionais negociações de bastidores de entre as duas voltas que o sistema favorece, já começou esta segunda-feira. A votação decisiva é no próximo domingo mas, no poder, não há dúvidas sobre a imparável dinâmica da vitória do REM.

Emmanuel Macron e Edouard Philippe comeram hoje no Eliseu um almoço que foi qualificado de “muito saboroso”. Discutiram sobre o futuro e preparam já o pós-legislativas – designadamente o nome do futuro Presidente da Assembleia e a reforma do Código do Trabalho, que vai avançar neste verão no sentido de uma maior flexibilidade nomeadamente no número de horas de trabalho semanal e que porá fim ao princípio da primazia da lei sobre os acordos feitos em empresas ou em setores de atividade.

Sem oposição digna desse nome na Assembleia, Emmanuel Macron ficará com as mãos livres para avançar com todas as suas promessas eleitorais. O próximo Parlamento terá quase uma só cor e o Presidente ganhará sem dúvida mais poder e uma nova legitimidade com as legislativas.

As projeções para a segunda volta indicam que o REM terá um grupo de tal forma gigantesco que nem sequer há salas na Assembleia que tenham capacidade para acolher as suas reuniões. Se todos os seus deputados comparecerem às reuniões do grupo parlamentar, não se sabe por agora onde poderão reunir-se.