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Procurador despedido por Trump diz que há “absolutas provas” para investigar o Presidente

Drew Angerer

Preet Bharara foi afastado 22 horas depois de se ter recusado a atender uma chamada do Presidente, então acabado de tomar posse. Na sua primeira entrevista desde o despedimento, o ex-procurador de Manhattan explicou que tomou essa decisão por causa de outras duas conversas “esquisitas e peculiares” com o ainda Presidente eleito depois das eleições de novembro

O ex-procurador de Manhattan deu uma entrevista ao canal ABC News no domingo, a primeira desde que foi despedido por Donald Trump no final de janeiro, na qual denunciou ter recebido telefonemas “invulgares” de Donald Trump depois de o empresário ter vencido as presidenciais de novembro. As duas conversas, revelou Preet Bharara ontem, deixaram-no “desconfortável” e a elas seguiu-se uma terceira chamada que o então procurador se recusou a atender — tendo sido afastado 22 horas depois, juntamente com os 45 advogados que foram nomeados por Barack Obama para representar os interesses dos EUA.

“É uma coisa muito esquisita e peculiar haver uma conversa a sós, sem o procurador-geral dos EUA, sem aviso, entre o Presidente e eu ou entre [o Presidente] e qualquer advogado americano que [...] esteja na posição hipotética de investigar os interesses empresariais e os sócios do Presidente”, disse. Durante a administração de Barack Obama, acrescentou Bharara em jeito de comparação, nunca recebeu uma chamada do Presidente.

As suas revelações surgiram no rescaldo do depoimento de James Comey à comissão de serviços de informação do Senado, uma audiência que reforçou as suspeitas de que o Presidente tentou impedir uma investigação independente — levando os democratas a acusarem-no de obstrução à Justiça e a exigirem um inquérito no Congresso para apurar se assim foi.

Na sexta-feira, o ex-diretor do FBI confirmou publicamente que o Presidente lhe pediu que abandonasse a investigação a Michael Flynn, ex-chefe do Conselho de Segurança Nacional de Trump que se demitiu após ter sido denunciado que manteve contactos potencialmente ilegais com o embaixador da Rússia em Washington. Flynn é alvo de um dos vários inquéritos à alegada ingerência russa nas presidenciais e às suspeitas de colaboração entre a equipa de Trump e operacionais russos que estão em curso dentro do FBI e no Congresso.

Dias depois de o Presidente ter afastado James Comey, foi revelado que este tinha acabado de pedir ao Departamento de Justiça mais fundos para a investigação Trump-Rússia. Ao Senado no final da semana passada, Comey disse acreditar que foi despedido por querer investigar a administração no âmbito da alegada ingerência russa nas eleições. Trump continua a desmentir as alegações de conluio entre a sua equipa de campanha e o governo russo e, no rescaldo da audiência de Comey, voltou a garantir que nunca pressionou o então diretor do FBI para que suspendesse a investigação a Flynn.

Ontem, no programa "This Week", Bharara veio dar força às suspeitas de obstrução à Justiça que pendem sobre o Presidente, dizendo que os telefonemas que recebeu de Trump violaram as fronteiras que separam o ramo executivo do ramo independente judicial. Antes de tomar posse a 20 de janeiro, o então Presidente eleito ligou diretamente a Bharara por duas vezes "ostensivamente apenas para marcar passo". "Foi um bocadinho desconfortável, mas ele ainda não era o Presidente, era apenas o Presidente eleito", explicou o ex-procurador.

A terceira chamada, contudo, chegou dois dias depois da tomada de posse, altura em que Bharara recusou pegar no telefone. "O telefonema chegou. Recebi uma mensagem. Deliberámos sobre o assunto e achámos que era inapropriado devolver a chamada. E 22 horas depois, fui convidado a demitir-me juntamente com outras 45 pessoas", denunciou.

Na entrevista, o ex-procurador recusou-se a acusar diretamente o Presidente de obstrução à Justiça nas suas conversas com Comey, que acabariam por culminar no despedimento do então diretor do FBI. Ainda assim, Bharara disse acreditar que existem "absolutamente provas para abrir" uma investigação ao Presidente.