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Nos próximos dias, o Presidente que vai aparecer na televisão americana não é Donald Trump

Durante dois anos, Oliver Stone encontrou-se doze vezes com Vladimir Putin para o entrevistar “sem assuntos proibidos”. A imprensa norte-americana viu o resultado e não está a ser branda: “[Putin] vê Stone como um jornalista, um aliado ou um tolo?”

É provável que boa parte dos americanos nunca tenham ouvido, pelo menos com atenção, a voz de Vladimir Putin. Afinal, apesar de o nome do líder russo estar sempre na boca dos jornalistas e políticos do país e até no Twitter do Presidente, não são raras as vezes em que as suas declarações são traduzidas com recurso a uma dobragem que impede o espectador de ouvir as palavras na voz do próprio.

Esta é uma das preocupações de Oliver Stone, o realizador premiado pela academia e conhecido por obras como “Platoon”, “JFK” ou a recente biografia de Edward Snowden. Foi por isso que tomou a decisão de “deixar Putin falar” e legendar as suas respostas na nova série documental que estreia esta segunda-feira na Showtime, nos Estados Unidos, e que se prolonga até quinta-feira, batizada como “The Putin Interviews”.

Para oferecer esta perspetiva de Putin, Stone teve de mergulhar no mundo do líder russo à procura de respostas. Fê-lo em doze entrevistas diferentes, que decorreram entre julho de 2015 e fevereiro deste ano e resultaram em pelo menos 25 horas de gravações, que mostram Putin a responder a perguntas sobre tudo um pouco – Stone diz que “não foram impostos limites”, de Hillary Clinton à guerra fria, passando pela vida familiar do Presidente russo – e com várias câmaras dedicadas a mostrar todos os ângulos possíveis do avião, do palácio, ou até do campo de hóquei que se encontram.

É nesse campo de hóquei, com Putin já equipado para jogar – os seus talentos no desporto, seja no hóquei ou no judo, são enfatizados – que declara a Stone: “Tem de torcer por mim, não pode ficar só a ver”. Outro dos momentos em que a dupla parece cómica acontece quando Stone o convida a ver o clássico de Kubrick “Dr. Strangelove”, de 1964, uma paródia sobre a guerra nuclear. Quando Stone lhe oferece, no final, a caixa do DVD como se fosse uma oferta de paz, Putin volta para trás para explicar que lhe o DVD ficou no leitor e a caixa está vazia: “Típico presente americano”.

O “New York Times” faz o relato da cena e traça a relação com o espírito de toda a série. “Se alguma vez viu um filme com um amigo cinéfilo que precisa de que goste tanto daquilo como ele gosta, conhece esta dinâmica. Putin diz algumas palavras elogiosas. Mas o que está a sentir? Desconforto? Perplexidade? Vê Oliver Stone como um jornalista, um aliado ou um tolo? (…) O interlúdio embaraçoso capta a essência de ‘The Putin Interviews’”.

Publicadas as primeiras críticas que antecedem a estreia, a ideia é que Stone é, demasiadas vezes, o “aliado” ou até o “tolo”. Num dos excertos revelados, o realizador que é conhecido pelas ideias revisionistas da história americana, e sobretudo por criticar a atuação do país em diversas frentes no período da guerra do Vietname e na guerra fria, pergunta a Putin: “Teve saudades minhas?”. O outro responde: “Chorei de vez em quando, mas aqui estamos”.

Acham que o vosso país é inocente?

“Acham que o vosso país é assim tão inocente?”, pergunta Trump, num trecho de uma declaração usada no documentário. Stone é criticado por se mostrar em vários temas demasiado ao lado de Putin, e por não ser suficientemente crítico noutros momentos, como quando se fala da Ucrânia ou do tratamento aos partidos da oposição. É deste documentário que vêm duas das frases de Putin que têm feito títulos nos últimos dias: “Eu não sou uma mulher, por isso não tenho dias maus”, responde, quando Stone lhe pergunta se tem dias maus. Sobre a perseguição a homossexuais na Rússia que Putin nega, Stone pergunta se um marinheiro gay poderia tomar banho ao lado de um colega heterossexual. Putin responde, enfatizando que é especialista em judo: “Eu preferia não ir para o banho com ele. Para quê provocá-lo?”.

Sobre a sua abordagem, que já mereceu epítetos como “polícia bom” ou “embaraçosamente generosa” nas avaliações do “New York Times”, Oliver Stone justifica-se: “Estou aqui para fazer com que Putin fale. Deixá-lo falar. Se puder encorajá-lo tendo um ouvido simpático, é o meu estilo. Também sou dramaturgo. Estou a encorajar os meus atores a serem melhores”. Ao mesmo jornal, acrescenta: “Podem deitar todas as culpas à Rússia, e é basicamente o que estamos a fazer desde 1917”.

Stone parece ter ficado com boa impressão de Putin: diz que o “impressionou” como líder, como representante dos interesses russos, com a sua disciplina. “Tanto quanto sei, nenhum presidente americano trabalha tantas horas”. E assegura que o desafiou: “Sentia que, se fosse mais longe, ele podia ter acabado com qualquer uma dessas reuniões – ele podia ter dito que não após o primeiro encontro, sem dar explicações”.

Os trailers da série apresentam Putin como o homem “mais poderoso, influente, perigoso” do mundo, num suspense estilo Hollywood que convida a saber mais. Mas o conteúdo, pelo menos o que até agora foi revelado, continua a mostrar um Putin reservado, cauteloso, mesmo que Stone defenda que quer que a série sirva para “esclarecer mal-entendidos” entre os dois países. “Pelo menos”, conclui a Deadline na sua análise ao documentário em quatro partes, “Stone mostrou-nos que o provável homem mais poderoso do mundo está longe de ser o mais interessante”.