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Tsunami político no Golfo

Resgate de uma criança por uma janela do Parlamento iraniano

Omid Vahabzadeh/Reuters

Um embargo decretado por quatro “irmãos árabes” empurra o Qatar para os braços do inimigo Irão

Margarida Mota

Jornalista

A Arábia Saudita acusa o Qatar de apoiar grupos extremistas. A Arábia Saudita acusa o Irão de proteger o Qatar. O Irão é atacado pelo Daesh, o mais cruel dos extremistas. Bem vindos ao Médio Oriente!

Esta semana, em apenas três dias, uma crise diplomática no seio do mundo sunita — que isolou o Qatar — e um duplo atentado na capital do Irão — o gigante xiita — expuseram toda a complexidade geopolítica do Médio Oriente que transcende a rivalidade sectária sunitas-xiitas no seio do Islão. “Não vejo uma relação direta entre os ataques terroristas no Irão e a crise sobre o Qatar. Mas as políticas externas geopoliticamente analfabetas da Administração Trump são um factor importante na desestabilização da política mundial, do Golfo Pérsico à Coreia do Norte”, disse ao Expresso Arshin Adib-Moghaddam, professor de Pensamento Global e Filosofias Comparadas na Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres.

“Este Presidente colocou-se no lado errado da história, e a escolha errada de aliados e parceiros vai continuar a inibir e a limitar a posição dos EUA em todo o mundo. Sob esta liderança, o país assemelha-se a uma superpotência decadente.”

Quarta-feira, um duplo atentado em Teerão contra o Parlamento e o mausoléu do “ayatollah” Ruhollah Khomeini, o fundador da República Islâmica, provocou 13 mortos. O Daesh reivindicou e Teerão confirmou que cinco detidos, todos iranianos, estiveram em Mossul e Raqqa, bastiões do Daesh no Iraque e Síria. Fica, porém, por perceber a lógica do violento ataque desferido pelo rei da Arábia Saudita quando da recente visita de Donald Trump ao país: “O regime iraniano tem sido o ponta de lança do terrorismo mundial”, disse. O ataque desta semana mostra que o Irão é alvo da maior das ameaças.

Fora da órbita saudita

Dois dias antes, quatro países árabes sunitas cortaram relações com o igualmente sunita Qatar e decretaram um bloqueio por terra, mar e ar. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrain e Egito acusam Doha de apoiar “grupos extremistas” e exigem mudanças na sua política externa. Em causa está o apoio do Qatar a grupos como a Irmandade Muçulmana e o Hamas, que, acusam, mina o regime egípcio e a Autoridade Palestiniana.

Em causa está também a proximidade do Qatar ao vizinho da frente, o Irão, justificada pela necessidade do pequeno país não ficar na dependência do gigante saudita. “Irão e Qatar têm tido um relacionamento funcional. Com o campo de exploração de gás South Pars, os dois países partilham um dos maiores campos do mundo. A liderança qatariana tem provado ser suficientemente prudente para abster-se de antagonizar a liderança iraniana”, explica Arshin Adib-Moghaddam. “Por sua vez, o Irão do Presidente Hassan Rouhani é inflexível no desenvolvimento de uma relação próxima com o Qatar que o atraia para fora da órbita da Arábia Saudita.”

Mas se o Qatar é punido pelos “irmãos árabes” pela sua abertura ao Irão (persa), o isolamento a que foi votado coloca-o numa dependência total do... Irão. Para a aviação qatariana, o espaço aéreo iraniano é a única rota de saída possível. Igualmente, em caso de rutura alimentar — Arábia Saudita e Emirados eram os principais fornecedores —, Teerão já fez saber que está disponível para facilitar o trânsito de água e alimentos através dos seus portos.

Quinta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Qatar admitiu nunca ter sentido tanta hostilidade, e foi categórico: “Não estamos preparados para entregar, nem nunca entregaremos, a independência da nossa política externa”.

Al-Jazeera e futebol

Independente desde 1971, o Qatar apostou numa agenda internacional ambiciosa como fórmula de sobrevivência. Projetos como a Al-Jazeera — “um órgão de informação hostil”, diz Riade —, a realização do Mundial de Futebol de 2022 ou o patrocínio ao mediático Barcelona (pela Qatar Foundation e depois pela Qatar Airways) são armas dessa afirmação.

O reino procura estar de bem “com deus e o diabo”. Alberga a maior base aérea dos EUA na região (Al-Udeid) e desenvolve “amizades perigosas” com inimigos dos norte-americanos. Permite a construção de igrejas no território e partilha com a Arábia Saudita a interpretação wahabita do Islão.

Quarta-feira, a Turquia (que como o Irão não é árabe) aprovou o envio de um contingente para uma base turca em construção no Qatar. O Presidente Recep Erdogan disse que “a movimentação visa contribuir para a paz regional e mundial”.