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Internacional

Reinventar a tradição

Bisarro

Transformar o barro de Bisalhães, património da Unesco, em objetos de design moderno é a aposta de dois jovens de Vila Real. O segredo está na cozedura

Talvez nunca tenha ouvido falar em Bisalhães. Esta pequena aldeia serrana do concelho de Vila Real tem uma particularidade: os seus artesãos produzem ali o "barro preto", a chamada "olaria negra de Bisalhães". Em novembro do ano passado, a Unesco declarou esta arte Património Cultural Imaterial. Esse facto não impede, todavia, que esta tradição esteja em vias de extinção. Dos artesãos que conheciam os segredos desta arte apenas quatro persistem. Acresce que muitos não têm a quem transmitir o seu saber. O que encerra em si mesmo o risco de este património nacional se perder.

A olaria de Bisalhães, o chamado "barro preto", é património da Unesco desde novembro de 2016

A olaria de Bisalhães, o chamado "barro preto", é património da Unesco desde novembro de 2016

Lino Silva

Renato Costa, natural de Vila Real, há muito que matutava nesta ideia. Aos 26 anos, formado em design, desafiou o diretor criativo da SPAL, Daniel Pera, para integrar o projeto que viria a chamar-se "Bisarro" (contração das palavras "Bisalhães" e "barro"). No início, em 2011, a Bisarro era um projeto de ilustração, que foi evoluindo e amadurecendo até se transformarem numa linha de vários objetos, que aliaram a tradição antiga ao design moderno em forma de bules, chávenas de chá e café, vasilhas de água. Com uma roupagem fresca, o saber antigo ganha nova luz. De norte a sul de Portugal surgiram clientes, houve "peças exclusivas" feitas "para a restauração" e manifestaram-se compradores de 15 países - do Canadá ao Japão ou ao Dubai, de França à Alemanha ou à Bélgica, passando pela Islândia.

Renato Costa e Daniel Pera são os designers por trás do projeto Bisarro, em Vila Real

Renato Costa e Daniel Pera são os designers por trás do projeto Bisarro, em Vila Real

Fundamentais para o projeto, os artesãos de Bisalhães ganharam a possibilidade de não caírem no esquecimento. Estão hoje reduzidos a quatro homens que sabem trabalhar o barro negro. Renato e Daniel escolheram um oleiro mais novo, Manuel Tapada, para criar as suas peças. É o processo de cozedura do barro que torna a olaria de Bisalhães única. "A cozedura é feita debaixo de terra e o forno ainda é a lenha, chegando a alcançar os 1100 ºC.", explica Renato. "As peças de cerâmica adquirem a cor preta através de um processo de carbonização. Quando o forno alcança os 950º C, este é "abafado", retirando-se todo o oxigénio do seu interior, o que cria uma atmosfera redutora. É nesta altura que as peças amareladas absorvem o carbono existente no interior, obtendo a cor negra."

O processo de produção da Bisarro une a tradição de Bisalhães e o design moderno

O processo de produção da Bisarro une a tradição de Bisalhães e o design moderno

Além da recuperação deste saber, a dupla tem trabalhado noutras formas de salvaguardar esta arte manual. Apostaram na formação de novos oleiros e têm neste momento um protocolo com a Universidade da Beira Interior (UBI), junto dos alunos de mestrado, para divulgar a arte de Bisalhães. Para que no futuro não seja nada bizarro falar de um saber feito nos confins de uma aldeia serrana de Portugal mas que é património do mundo inteiro.

Até agora, foram já 15 os países estrangeiros interessados nestes objetos de design português que resgatam um saber praticamente em vias de extinção

Até agora, foram já 15 os países estrangeiros interessados nestes objetos de design português que resgatam um saber praticamente em vias de extinção