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PS. Maioria quer primárias mas ficam na gaveta

PEDRO SARMENTO COSTA / LUsa

Dois terços dos militantes querem escolher candidatos do PS a eleições. Mas a direção remete o tema para 2018

A maioria dos militantes do PS é favorável à realização de eleições primárias para a escolha de todos os candidatos socialistas a câmaras municipais, governos regionais, deputados na Assembleia da República ou eurodeputados. A conclusão consta de um estudo encomendado pelo partido no âmbito do grupo de trabalho criado para a revisão dos estatutos do PS e reforça assim a tese subscrita por alguns militantes socialistas sobre o alargamento das primárias — já utilizado para a eleição de António Costa para secretário-geral — à escolha de todos os candidatos do partido a cargos públicos.

A Comissão Nacional do PS vai, no entanto, chumbar na próxima semana a proposta que tem já em cima da mesa para adotar primárias em todas as eleições, apresentada pelo movimento “Resgatar a Democracia” no Congresso de 2016. O chumbo foi confirmado ao Expresso pelo secretário nacional responsável pela organização do partido e coordenador do grupo de trabalho para a revisão dos estatutos do PS, Hugo Pires. Porque, diz, a direção quer repensar de forma mais abrangente toda a organização do partido e apresentar uma nova proposta de estatutos no congresso de 2018.

“Não fazia sentido estar a aprovar uma proposta cirúrgica como esta quando temos em curso um trabalho para repensar a fundo a organização do partido, desde o seu financiamento, ao modelo de escolha de candidatos ou à sua organização no mundo digital”, sintetiza Hugo Pires. Numa segunda fase, acrescenta, a proposta do movimento de Daniel Adrião pode mesmo “ser integrada” nesse processo.

A decisão foi avançada na sequência de questões do Expresso sobre o estudo, que terá concluído, entre outras coisas, que mais de 65% dos militantes inquiridos concordam com a realização dessas primárias em regime fechado (ou seja, só com voto de militantes). Resultados que levam Daniel Adrião a defender que “fica claro aquilo que a larga maioria das pessoas quer”. Por isso rejeita as justificações apresentadas pela direção do PS.

“Trata-se de uma desculpa descabelada de quem apenas quer, contra todas as evidências, manter à força o statu quo e não aceita qualquer mudança que possa afetar os seus interesses corporativos”, diz, rotulando a decisão da Comissão Nacional de “um ato de violência política contra a vontade maioritária dos militantes do PS”. “Este é o tipo de atitude que explica a repulsa de cada vez maior número de cidadãos pelos partidos”, reage.

O chumbo à proposta do seu movimento confirma ainda, segundo Adrião, que “a resistência do aparelho do partido” a estas primárias está a “trair a vontade dos militantes”. E a forçar a direção do partido a adiar uma medida que “o próprio António Costa defendeu antes de chegar a secretário-geral” do PS.

“Acredito que Costa continue a querer avançar, só que deve estar a ser pressionado pela estrutura dirigente para que não avance”, diz Adrião, acusando o aparelho não querer “pôr em causa os poderes que estão instalados”. Uma situação que, prossegue, coloca também “em causa” cinco dezenas de dirigentes atuais do partido que em 2013, ainda na liderança de António José Seguro, assinaram um manifesto a exigir primárias no partido.

“Como é que estas pessoas podem agora votar contra algo que defenderam?” questiona.
Depois da apresentação da proposta no Congresso de 2016, António Costa propôs a criação de um grupo de trabalho para estudar a revisão de estatutos do partido. Mas ao contrário do que pretendia Adrião, as primárias acabaram por falhar logo a primeira meta traçada: a escolha dos candidatos socialistas às autárquicas deste ano. “Havia tempo para isso. E poderiam ter-se resolvido problemas em autarquias como Matosinhos, Fafe, Barcelos ou Vila do Conde”.

Hugo Pires rejeita, porém, que o partido tenha congelado este processo intencionalmente. “Não se trata de pôr as primárias na gaveta. O secretário-geral do PS foi o primeiro a ser eleito desta forma em Portugal e damos lições ao nível da escolha de titulares de cargos públicos. Mas estas coisas têm o seu timing”, diz.