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França: Um vencedor claro, Macron (e o problema da abstenção)

CHRISTOPHE PETIT TESSON

O partido presidencial (REM) de Emmanuel Macron é o grande vencedor na primeira volta das legislativas em França, hoje realizada. Todos os outros perderam... e lamentam que metade dos franceses não tenha ido votar

Numa primeira e muito sumária análise aos previsíveis resultados da primeira volta das legislativas francesas pode dizer-se que há um único vencedor claro: o partido República em Marcha (REM) e sobretudo o presidente Emmanuel Macron (32,2% segundo as últimas estimativas da Ipsos).

Todos os restantes partidos, da extrema-esquerda à extrema-direita, tiveram maus resultados, o que significa que um partido novo e vindo do nada cilindrou os partidos tradicionais, designadamente os socialistas (PS) e os conservadores (LR). Este novo partido, tendo à volta de um terço dos votos da primeira volta, poderá ter 74% dos deputados na nova Assembleia Nacional, ou seja um máximo de 430 lugares num total de 577.

Uma maioria de tal maneira avassaladora põe problemas à democracia?
A isto os responsáveis da República em Marcha têm respondido que a maioria dos seus candidatos não vem dos aparelhos políticos mas da sociedade civil e que boa parte destes são mulheres o que só por si já seria uma mudança.

Ainda assim os comentadores começaram já a apontar para o risco de, sem uma oposição forte no parlamento, o eixo da luta política passar para a rua, ou seja poder, a prazo, haver um agravamento da tensão social.

Os conservadores (Les Republicains, LR) são os que melhor limitaram os estragos, tendo uma votação da ordem de grandeza (21,5%) da que o seu candidato presidencial François Fillon tivera à primeira volta (20%), devendo corresponder a um grupo parlamentar de 85 a 125 deputados. Contudo, por detrás deste resultado menos mau há perspectivas mais sombrias pois a coesão interna é baixa e figuras da ala esquerda do partido como Alain Juppé, para não falar no próprio primeiro-ministro em funções Édouard Philippe, são atraídos pelo partido de Macron.

Nos socialistas, se o resultado previsível (14,2%) é menos desastroso do que as sondagens apontavam, representa um desastre relativamente ao número de lugares no parlamento que desce de mais de duas centenas de deputados na legislatura cessante para um máximo previsível de 35 lugares. Símbolos de uma noite para esquecer a eliminação do candidato socialista logo à primeira volta no círculo de Marselha onde o esquerdista Jean-Luc Mélenchon concorria ou igual sorte para o secretário-geral do partido Jean-Christophe Cambadelis.

Outro dos grandes derrotados da noite é a Frente Nacional. Marine le Pen vê a votação do partido cair dos 21% da primeira volta das presidenciais para os 14% desta noite. Enfrenta dissensões internas das quais a ruptura com a sua sobrinha Marion Maréchal Le Pen é exemplo, está sob investigação devido ao uso dos dinheiros do Parlamento Europeu e, se os maus resultados se estenderem à segunda volta, pode ver a sua liderança posta em causa. Daí o apelo forte que fez à mobilização dos patriotas (leia-se os seus votantes e simpatizantes) para a segunda volta, dentro de oito dias.

A França Insubmissa (esquerda radical) sofre uma queda semelhante (de 18% na primeira volta das presidenciais para uns previsíveis 14% esta noite), apenas compensada pelo desempenho do seu líder Jean-Luc Mélechon em Marselha onde eliminou o seu adversário socialista e por uma ligeira vantagem em votos sobre o PS (14 contra 13,2% segundo os últimos números da Ipsos). Se – e isso depende da segunda volta – conseguir chegar ao limiar dos 15 deputados, terá grupo parlamentar e protagonismo reforçado nos debates da Assembleia Nacional.

Resta a abstenção que salta dos 42,8% de 2012 para, previsivelmente, 51,2%, a maior da V República. Se não foge à tendência crescente dos últimos anos (apenas interrompida pelo dramatismo das eleições presidenciais onde a mobilização anti-Le Pen terá levado mais gente às urnas) inquina, mesmo que marginalmente, a legitimidade da vitória do partido de Macron. Uma explicação possível é a de, perante o andamento das sondagens, algum eleitorado ter achado que com o resultado já pré-definido não valeria a pena ir votar.