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Cem Anos de Solidão: O livro que ele não derrotou

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Há 50 anos, num 5 de junho, aconteceu o big bang literário chamado ”Cem Anos de Solidão”. O livro que deu fama a García Márquez e a uma terra real de tão imaginada — Macondo. O livro que inaugurou uma era e que, antes de o ser, tinha já uma lenda construída à sua volta

Macondo é uma árvore dos trópicos, incapaz de flores ou frutos, cuja madeira serve para construir canoas e utensílios de cozinha. É também uma tribo errante de Tanganica, grafada com ‘k’ — ‘makondo’ — pela Encyclopedia Britannica. Ou talvez não seja nada disto. Certeza, certeza tem-se de que era uma quinta bananeira a dez minutos de comboio de Arataca, e o aviso de que se estava quase a chegar ao destino, pois uma forma específica de brisa quente e seca, a certas horas calcinante, se infiltrava pela janela aberta. Nessa manhã de 1950, Gabriel García Márquez regressou à sua cidade natal pela primeira vez em mais de uma década, acompanhando a mãe na missão, não conseguida, de vender a casa de família. E viu a desolação. Viu Arataca abandonada, quase em escombros e submersa num “silêncio material” que o escritor poderia ter identificado de olhos vendados “entre os outros silêncios do mundo”. A mãe, que vestia um luto cerrado pela morte da sua própria mãe, percorreu com o filho o vilarejo deserto. Só se cruzou com a antiga cozinheira dos pais, que passou por ela como um fantasma. Ao entrar na farmácia, encontrou uma mulher curvada perante uma máquina de costura e sussurrou: “Comadre.” A amiga ergueu os olhos e ambas se abraçaram a chorar.

Muitos anos depois, García Márquez escreveria sobre este episódio. Diria que, naquele momento, acontecera algo de “irreparável”. O que aconteceu foi o nascimento de um lugar literário, a que chamaria Macondo, e que mais não é — nem menos — do que a evocação dessa Arataca despovoada e faminta de contacto humano, onde memória e realidade entraram em direta colisão. Ali o escritor situaria o seu primeiro livro, “A Revoada”, e o segundo, “Ninguém escreve ao coronel”. Redigiu o primeiro em Barranquilla, onde García Márquez, jornalista mal pago, dormia num hotel de putas, e demorou cinco anos a publicá-lo — em Buenos Aires, a capital dos livros, fora recusado sob o conselho de se dedicar a outro ofício. O segundo surgiu-lhe em Paris como uma imposição, a meio de um outro livro [“Horas Más”]; e a sua escrita foi surpreendida pela subida ao poder do ditador colombiano Rojas Pinilla e pelo fecho do jornal “El Espectador”, do qual García Márquez era correspondente. De um dia para o outro, deixou de poder pagar o hotel da Rue Cujas, no Quartier Latin, chegando a ter de pedir moedas no metro. A novela foi também rejeitada por várias editoras e acabou publicada numa revista literária antes de um amigo editor, percebendo as dificuldades económicas de Gabo, se dispor a convertê-la em livro.
Com “Cem Anos de Solidão” a história seria outra. Não só Macondo encontraria o seu lugar no mundo, ao tornar-se a aldeia que ao fim de um século é “desterrada da memória dos homens”, como o escritor concretizaria um projeto iniciado aos 18 anos que decorria — como tudo parece decorrer na vida de García Márquez — no interior da antiga casa dos seus avós, em Arataca. Nessa casa fora deixado pela mãe com apenas um ano e vivera até aos dez, quando passou para as mãos de uns pais que mal conhecia. E com essa casa sonharia recorrentemente em adulto, “como se dela nunca tivesse saído”. Aquele esboço de adolescência intitulado “A Casa” não vingou. Foi suspenso por falta de maturidade e substituído por um curso de Direito não acabado e uma vida de jornalista boémio em Cartagena, Barranquilla, Bogotá, Paris, Venezuela, Nova Iorque. Ali trabalhava na agência cubana Prensa Latina quando se demitiu do cargo e rumou para o México de autocarro com vinte ou cem dólares no bolso — dependendo da fonte —, acompanhado pela mulher, Mercedes Barcha, e os dois filhos pequenos. Ganhou a vida primeiro como redator de uma revista feminina e mais tarde como redator publicitário e guionista cinematográfico. Era já autor de quatro livros e o seguinte, “O Outono do Patriarca”, estagnara. O crítico uruguaio Emir Rodríguez Monegal descreveu-o nesse tempo como “uma alma atormentada, um habitante do mais requintado inferno: o da esterilidade literária”.

Solidão. García Márquez em Barcelona, em 1970, a escrever “O Outono do Patriarca”. O livro que demorou 17 anos a concluir e que o escritor consideraria a sua melhor obra só seria publicado em 1975

Solidão. García Márquez em Barcelona, em 1970, a escrever “O Outono do Patriarca”. O livro que demorou 17 anos a concluir e que o escritor consideraria a sua melhor obra só seria publicado em 1975

FOTO RODRIGO GARCÍA/ARQUIVO DA FAMÍLIA

Mas não há mal que dure cem anos — cem anos que, diria Gabo no rescaldo do sucesso, nunca o foram exatamente. Uma série de boas notícias, como o contrato assinado com a agente literária Carmen Balcells e as traduções que daí decorreram, culminaram numas férias em Acapulco, onde a família tencionava ficar uma semana. Gabo gostava de conduzir o Opel branco que adquirira há pouco tempo, e deixou-se ir pela estrada sinuosa até que, de repente, algo o obrigou a encostar na berma. Esse ‘algo’ veio do nada e era um começo, uma frase lapidar, temporalmente ubíqua, que seria considerada um dos melhores inícios de livro de todos os tempos: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.” Aqui começa a novela da novela, isto é, as várias versões nem sempre coincidentes que rodearam a escrita do romance. Numa, diz-se que García Márquez fez marcha atrás e regressou logo à Cidade do México. Noutra, que as primeiras notas foram feitas em Acapulco, onde ainda permaneceu três dias antes de voltar.

O escritor contou as duas, embora para o hispanista Gerald Martin, autor da biografia “Gabriel García Márquez: Uma Vida” (D. Quixote), a segunda seja mais convincente. O escritor também foi ambíguo ao relatar se a frase lhe surgiu inteira na cabeça ou se apenas viu a imagem difusa de “um velho que leva um garoto a conhecer o gelo exibido como curiosidade de circo”, como citou o seu amigo de sempre, o também jornalista — e ex-embaixador em Lisboa — Plínio Apuleyo Mendoza. Na conversa registada no livro “O Aroma da Goiaba”, da autoria de Mendoza, Gabo também reconhece que o ‘velho’ era na verdade o seu avô, o coronel Nicolás Márquez, e que a cena teve como chão a realidade: “Lembro-me que, sendo muito pequeno, em Arataca, onde vivíamos, o meu avô me levou a conhecer um dromedário no circo. Outro dia, quando lhe disse que não tinha visto o gelo, levou-me ao acampamento da companhia bananeira, mandou abrir uma caixa de pargos congelados e fez-me meter lá a mão. Dessa imagem parte todo o ‘Cem Anos de Solidão’.”

A questão é que, chegado a casa, Gabo sentou-se a escrever. “Desta vez não me levantei nos 18 meses seguintes”, diria, mas o intervalo terá sido de pouco mais de um ano, de julho de 1965 a agosto de 1966. Só ao chegar à décima página, quando o primeiro José Arcádio Buendía encontra um galeão espanhol no meio da selva tropical, soube que a saga de quatro gerações da família Buendía a viver em Macondo cem anos da história colombiana — e latino-americana — estava realmente a ser escrita. Desistiu dos empregos, penhorou e depois vendeu o Opel branco, e o livro passou a ser a sua ocupação diária. Mercedes assegurou a sobrevivência dos quatro naqueles meses de reclusão do marido, administrando o parco dinheiro que tinham e, quando este acabou, desfazendo-se da televisão, das joias e do frigorífico, e negociando crédito com o senhorio e com as lojas do bairro. “Sabes que, ao terminar de escrever ‘Cem Anos de Solidão’, Mercedes devia cinco mil pesos ao talhante?”, contou Gabo a Elena Poniatowska, numa entrevista de 1973 onde também admitia que chegaram a dever oito meses de renda. “No bairro todos nos fiaram”, mesmo os três maços diários que o escritor fumava.

A lenda antes do livro

E isto não se devia apenas à boa vontade. A razão assentava no mito de que, na rua, algo de extraordinário estava a ser criado. Havia no bairro um escritor a escrever a sua obra-prima, fechado numa casa. “Uma coisa mágica”, disse ele a Poniatowska. García Márquez vestia um fato-macaco para trabalhar, o que fazia desde a madrugada até os filhos voltarem da escola. Fechava-se num escritório minúsculo, a que apelidava de “Caverna da Máfia”, com um sofá, um aquecedor elétrico, uma mesa com uma máquina Olivetti, e a música de Bartók, Debussy ou os Beatles sempre audível. De dois em dois dias, dava os manuscritos a Esperanza Araiza (“Pera”) para esta os datilografar. Dois incidentes célebres rodearam essa tarefa: o dia chuvoso em que “Pera” escapou por pouco de ser atropelada e as folhas correspondentes ao princípio do romance foram resgatadas pelos transeuntes da rua molhada; e a confissão tardia de que, todas as semanas, ela convidava os amigos para lerem em voz alta as páginas mais recentes.

“Cem Anos” foi um sucesso antes de o ser. Os amigos de García Márquez apareciam todas as noites lá em casa e, apesar de o escritor se recusar a mostrar partes do livro, partilhavam com ele os desenvolvimentos do dia e eram consultados sobre possíveis obstáculos. O escritor colombiano Álvaro Mutis e a mulher, Cármen, estavam entre eles, assim como o poeta Jomi García Ascot e a mulher, María Luísa Elío — a quem o romance seria dedicado. Estes e outros amigos tiveram igualmente um papel crucial na investigação necessária para o livro, nomeadamente sobre medicina, alquimia, filosofia, história da Colômbia, botânica e zoologia, trazendo-lhe volumes que Gabo percorria de noite, à procura de explicar este ou aquele pormenor, ou fazendo eles próprios a pesquisa. “O livro levava-me a tal velocidade que não podia parar. Eu vivia... eu vivia como que iluminado”, explicou mais tarde. Chegou a estar três meses seguidos sem sair de casa. Mas nem todos foram dias bons: quando terminou o capítulo 13, chorou durante duas horas. Sentiu a morte do coronel Aureliano Buendía como uma perda pessoal ou, arriscou Gerald Martin, “como um homicídio”. Porém, por mais real que tudo isto fosse, custava ao escritor distinguir até que ponto o que tinha nas mãos era um livro ou “uma nuvem de fantasia” agigantada pelo entusiasmo dos outros.

Fama. Depois da publicação de “Cem Anos de Solidão”, o já consagrado García Márquez estabeleceu-se com a família em Barcelona. Aqui, vemo-lo em Roma, com a mulher Mercedes e os filhos Gonzalo e Rodrigo, em 1969

Fama. Depois da publicação de “Cem Anos de Solidão”, o já consagrado García Márquez estabeleceu-se com a família em Barcelona. Aqui, vemo-lo em Roma, com a mulher Mercedes e os filhos Gonzalo e Rodrigo, em 1969

FOTO GETTY IMAGES

Por essa época, um convite do departamento cultural do Ministério de Negócios Estrangeiros mexicano para realizar uma palestra veio a oferecer-lhe a resposta. Numa situação normal, e de acordo com um temperamento pouco dado a eventos formais, García Márquez tê-lo-ia rejeitado, mas desta vez não o fez. Propôs uma leitura literária e juntou para o efeito um público transversal e escolhido a dedo: as funcionárias das revistas femininas em que trabalhou na sua chegada ao México, operários de oficinas gráficas, secretárias, estudantes, ex-colegas da publicidade e do cinema, “gente de todos os níveis culturais e sociais”. Não leu um capítulo determinado, mas uma seleção de parágrafos de capítulos distintos. A dada altura o silêncio era tal que levantou os olhos aterrorizado. “A verdade é que as pessoas estavam suspensas nas minhas palavras e nem uma mosca zumbia”, recordou. O melhor aconteceu quando desceu do palco. “A primeira pessoa a abraçar-me foi Mercedes, com uma expressão no rosto — creio que foi a primeira vez desde que tinha casado que percebi que ela me amava, porque olhou para mim com uma expressão!”

A cena final do romance apareceu-lhe de noite, durante uma curta estada na Colômbia, precipitando o seu regresso ao México. Dias antes, em conversa com os amigos Plinio Mendoza e Álvaro Cepeda tinha falado sobre as diferenças entre este e os seus outros livros, e sentenciado: “Ou acertei em cheio ou vou estatelar-me no meio do chão.” Nesta visita ao seu país deixou que os colegas do “El Espectador” publicassem o primeiro capítulo, a 1 de maio de 1966. Em Paris, o amigo e escritor mexicano Carlos Fuentes recebeu outros três. Ficou tão deslumbrado com aquelas 80 páginas que as emprestou ao argentino Julio Cortázar e a Emir Rodríguez Monegal. Este, em agosto daquele ano, escreveu sobre eles na edição de estreia da revista literária “Mundo Nuevo”. Fuentes também redigiu um artigo na revista “La Cultura en México (Siempre!)” anunciando um big bang chamado “Cem Anos de Solidão”. Quando finalmente Fuentes teve acesso ao manuscrito integral, escreveu a Cortázar que acabara de ler “o Quixote americano, um Quixote capturado entre as montanhas e a selva”.

escritor, uma profissão suicida

O momento em que García Márquez colocou o ponto final apanhou-o de surpresa. Eram 11 horas da manhã e ele, sozinho em casa e habituado a trabalhar até mais tarde, não soube o que fazer com o tempo que lhe restava. O livro tinha editor e não um editor qualquer: tratava-se de Paco Porrúa, da prestigiada editora Sudamericana, de Buenos Aires. Este conhecera Gabo através do jornalista chileno, Luís Harss, que lhe fez a primeira grande entrevista num tempo em que poucos conheciam a sua obra. Porém, pela altura em que “Cem Anos de Solidão” chegou ao fim, uma certa escuridão atingiu o escritor. Tinha 120 mil pesos de dívidas e isso levou-o a reconhecer, numa carta a Plinio Mendoza, que se sentia exausto e “sem perspetivas claras”. Ao amigo também dizia que este era o livro que tentara escrever aos 17 anos, do qual nunca desistira nem deixara de pensar nele, pois “quando temos um tópico que nos persegue, ele começa a crescer na nossa cabeça durante muito tempo e no dia em que explode temos de nos sentar à máquina de escrever ou corremos o risco de assassinar a nossa mulher”. Num artigo para “El Espectador”, o primeiro em cinco anos de silêncio jornalístico, argumentou que “escrever livros é uma profissão suicida” e que “nenhuma outra profissão exige tanto tempo, tanto trabalho, tanta dedicação comparativamente aos benefícios imediatos”.

Semanas depois, Gabo e Mercedes embrulharam as 490 páginas datilografadas do manuscrito e dirigiram-se aos correios, afim de o despachar para Buenos Aires. Mas o custo do envio era de 82 pesos e eles só tinham 50, pelo que dividiram os papéis a olho, “como se fossem fatias de toucinho fumado” — escreve Gerald Martin — e só mandaram metade. No dia seguinte completaram a encomenda reunindo a quantia que faltava. E aqui, mais uma vez, as versões contradizem-se: algumas defendem que Porrúa lhes terá mandado o dinheiro, outras que o casal penhorou diversos eletrodomésticos, entre os quais o liquidificador, para o arranjar. Quando o editor confirmou a receção do manuscrito, García Márquez pediu à mulher para o ajudar a destruir os 40 cadernos de rascunho que continham todas as anotações referentes ao livro, incluindo a complexa árvore genealógica dos Buendía. “Porquê?”, perguntou uma incrédula Elena Poniatowska em 73. “Por pudor”, respondeu Gabo. Pudor de que vissem “as costuras do livro, a cozinha, os desperdícios, as cascas”. Algo de semelhante a “ser apanhado em roupa interior”.

Porrúa considerou o romance “absolutamente brilhante”. E tudo começou a ser preparado para o seu lançamento. O jornalista argentino Tomás Eloy Martínez, que dirigia a influente revista “Primera Plana” — com uma tiragem de 60 mil exemplares semanais —, enviou ao México o seu repórter mais conhecido, Ernesto Schóo, para entrevistar García Márquez. Por sua parte, Mario Vargas Llosa, que acabara de publicar “A Casa Verde” e era já um autor consagrado, anunciou noutra publicação, “Amaru”, o surgimento de “um colombiano trotamundos, agressivamente simpático e com uma risonha cara de turco”, cujo novo romance é o retrato de um continente: “Como qualquer um dos Buendía, os homens hoje nascem na América condenados a viver a solidão, e a engendrar filhos com caudas de porco, isto é, monstros de vida inumana e irrisória, que morrerão sem se realizarem plenamente, cumprindo um destino que não foi escolhido por eles.”

García Márquez passava assim, ainda antes de o livro dar à estampa, a perfilar-se como o quarto elemento do chamado boom literário latino-americano, junto a Vargas Llosa, Cortázar e Carlos Fuentes. A 5 de junho de 1967 o romance foi impresso não com a tiragem inicialmente prevista de 3000 exemplares nem com o reforço de mais 2000 que entretanto recebeu, mas com os 8000 de uma edição que, pensavam, esgotaria em seis meses. Mas na primeira semana, só em Buenos Aires, venderam-se 1800 livros e na segunda o número triplicou. Ainda em junho houve uma segunda edição, seguindo-se uma terceira e uma quarta em setembro e dezembro respetivamente. Mais 20 mil exemplares do quinto livro de um autor que, como nota Gerald Martin, era até então “virtualmente desconhecido”.

Depois do sucesso em Buenos Aires, vieram os aplausos do México — que ficou para sempre com o local onde Gabo escreveu a sua obra prima — e da Venezuela. Ali conheceu pessoalmente, em agosto, Vargas Llosa, que tinha acabado de receber um importante prémio, travando uma amizade que duraria décadas e acabaria brusca e definitivamente em meados dos anos 70. Ambos viajaram juntos para Bogotá, onde “Cem Anos de Solidão” ainda não tinha sido editado e onde as notícias vindas da Argentina pareciam ter passado despercebidas. “Era como se os colombianos estivessem a esconder deliberadamente o seu interesse; como se estivessem à espera até ao momento em que seria impossível ignorar aquele fenómeno surpreendente no seu seio”, analisa Gerald Martin.

Mesmo que ainda seja o seu título mais conhecido e mais traduzido, com mais de 30 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, García Márquez não nutriria especial preferência por “Cem Anos de Solidão”. Diria, pelo contrário, que o seu melhor livro, aquele que o salvará do esquecimento, é o que publicou a seguir e levou 17 anos a escrever, “O Outono do Patriarca”. Também gostava da “Crónica de uma Morte Anunciada”, por ter conseguido controlá-lo até ao fim e fazer com ele “exatamente o que queria”. Ainda antes de o ano da sua consagração acabar, ainda antes de 1967 ficar na história, Gabo já dizia que esperava mudar e, a partir daí, escrever algo totalmente diferente. “Não quero imitar-me burlescamente”, declarou. A saga dos Buendía foi um transe momentâneo que quase lhe “arruinou a vida” — “porque a fama perturba o sentido da realidade, talvez quase tanto como o poder”, confessou a Plinio Mendoza.

— Pareces desprezá-lo —, contrapôs este.

— Não, mas o facto de saber que está escrito com todos os truques da vida e todos os truques do ofício fez-me pensar mesmo antes de o escrever que o poderia superar.

— Derrotá-lo?

— Derrotá-lo, sim.

Claro que não o conseguiu. Não porque o autor estivesse errado, mas porque estava certo. E porque ao contrário das estirpes condenadas a cem anos de solidão, ele teve uma segunda — e uma quarta, e uma décima — oportunidade sobre a terra.