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França a votos este domingo: O Senhor do Eliseu à beira da maioria absoluta

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Depois das presidenciais desenha-se nova vitória de Emmanuel Macron, desta vez nas legislativas. Le Pen e Mélenchon deverão conseguir a eleição para o parlamento

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As sondagens publicadas nos últimos dois dias da campanha eleitoral para a primeira volta das legislativas deste domingo apontam para uma vitória esmagadora do movimento República Em Marcha (REM), do Presidente Emmanuel Macron, com 30% de votos. As projeções para a segunda volta do dia 18 — as legislativas francesas decorrem em sistema eleitoral uninominal maioritário a duas voltas — sugerem uma maioria absoluta na futura Assembleia Nacional (AN), na sequência da vitória nas presidenciais.

Os mesmos estudos indicam que a líder ultranacionalista da Frente Nacional (FN), Marine Le Pen, poderá ser eleita pela primeira vez deputada por um círculo do norte da França, tal como o radical de esquerda Jean-Luc Mélenchon, chefe da França Insubmissa (FI), em Marselha, no sul do país. As duas formações poderão não conseguir, depois da segunda volta, formar grupo parlamentar, caso fiquem aquém dos 15 deputados. Para domingo, a FN é creditada com 18% e a FI com 12%, mas devido à lei eleitoral francesa, às transferências de votos entre as duas voltas e ao isolamento de Le Pen, que enfrenta dificuldades para encontrar aliados, Mélenchon pode ter mais deputados do que a Frente Nacional, respetivamente 12 a 22 contra 8 a 18.

Amanhã pode confirmar-se o descalabro do Partido Socialista (PS) nas recentes presidenciais. O PS conta com 7% das intenções de voto na primeira volta e entre 15 e 25 deputados depois da contagem final.

REPUBLICANOS SOBREVIVEM

Já os republicanos (LR, direita), cujo candidato às presidenciais (Fillon) foi, tal como o do PS (Hamon), eliminado logo na primeira volta do escrutínio que levou Macron ao Eliseu, poderão conseguir salvar a face, obtendo 21% de votos amanhã, e formar um grupo parlamentar de 120 a 150 deputados. O LR passaria a ser a principal força da oposição mas o seu bloco pode apresentar fortes divisões sobre a estratégia a seguir face a Macron, que continua a dizer querer unir a esquerda e a direita moderadas e formou um Governo de centro-direita dirigido por Édouard Philippe, um militante do LR, partido bem implantado no norte do país. Duas outras personalidades dos republicanos entraram para o executivo e assumiram as importantes pastas da Economia e das Finanças e Orçamento.

ESCONJURAR O “HOLLANDE BIS”

Além destes três, uma parte do LR parece inclinada para cooperar com Macron na futura AN como deu a entender esta semana ao Expresso Marie-Carole Ciunju, candidata da direita num círculo do Val de Marne, na região parisiense.

O REM beneficiou da boa imagem do jovem Presidente francês que, algumas semanas depois de tomar posse, conseguiu destruir a ideia de que seria um “Hollande bis”, como o apelidavam alguns dirigentes da direita durante a campanha presidencial. Macron assumiu com audácia o que sempre dissera, que não era nem de esquerda nem de direita, provou-o com a formação do Governo e cativou o eleitorado moderado socialista, centrista e de centro-direita. Nem um “caso” político-financeiro que atinge o seu amigo e braço direito, Richard Ferrand, atual ministro da Coesão Territorial, parece ter influência significativa nas intenções de voto.

Devido à crise em que mergulharam os partidos tradicionais depois das presidenciais, Emmanuel Macron parece certo de que irá conquistar uma folgada maioria absoluta nas legislativas. Além disso e como o LR dá sinais de alguma confusão e provavelmente se dividirá na futura assembleia, o chefe de Estado ficará com as mãos livres para dirigir o país quase sem oposição no parlamento. Poderá desta forma levar a cabo com alguma rapidez o que pretende — e avançar nas próximas semanas com a reforma das leis do trabalho no sentido de uma maior flexibilidade, projeto que está já a ser contestado e apelidado de liberal pelos sindicatos.

REFORMAR LEIS LABORAIS

A nova legitimidade que Macron certamente ganhará com as legislativas dar-lhe-á força para as negociações com os parceiros sindicais até porque o velho e histórico Partido Comunista francês (PC), que concorre separado da FI apesar de ter apoiado Mélenchon nas presidenciais, também poderá sair destroçado destas eleições. As sondagens dão apenas 3% aos comunistas para a primeira volta deste domingo. Com uma provável futura AN completamente dominada por Macron, comunistas, sindicalistas e socialistas de esquerda prometem agora uma forte oposição, mas nas ruas.

A nova AN será muito diferente da anterior, as bancadas terão centenas de caras novas e, se os resultados confirmarem as sondagens, Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon serão duas das grandes novidades. Ambos serão ruidosos e, como é tradição de ambos, prometem exprimir-se sem papas na língua.

Os socialistas tentam tudo para conseguirem, pelo menos, ter mais deputados do que a FI graças às alianças que farão para a segunda volta. Mas confessam-se muito pessimistas. “O desastre do mandato de François Hollande pôs-nos nesta péssima situação e Macron não é de esquerda, nem mesmo da mais moderada”, diz ao Expresso Axel Urgin, candidato do PS em Créteil, nos arredores de Paris.