Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Acabou de acordar? Eis o que precisa de saber sobre as eleições no Reino Unido

PAUL FAITH

Theresa May convocou eleições antecipadas para reforçar a sua postura face à União Europeia nas negociações do Brexit. Mas em dois meses, a maioria confortável que o Partido Conservador detinha sobre os restantes desapareceu. Tories lideram contagem dos votos, mas sem maioria. Jeremy Corbyn exige que May se demita mas a primeira-ministra recusa e deverá tentar formar coligação com o DUP da Irlanda do Norte. UKIP não conseguiu eleger um único deputado

Theresa May detinha um avanço substancial sobre os restantes partidos políticos britânicos quando, em abril, decidiu convocar eleições antecipadas para 8 de junho, ontem, na esperança de reforçar a sua maioria parlamentar e assim conseguir uma postura negocial mais forte face à União Europeia.

As negociações formais do Brexit tinham acabado de começar, em março. Mas o que acabou por acontecer ao longo destes meses foi que as intenções de voto tão concentradas nos Tories se foram espalhando por outros partidos e os Trabalhistas ao leme de Jeremy Corbyn foram, passo a passo, subindo cada vez mais na escada das intenções de voto até ao ponto em que, na véspera da ida às urnas, estavam praticamente empatados com o governo nas sondagens, que previam um avanço ligeiro para May mas dentro da margem de erro.

Os britânicos estavam escaldados desde o ano passado, quando a maioria das sondagens previu a vitória da UE sobre o Brexit até ao último dia de campanha, aumentando a sensação de choque que se espalhou pelo Reino Unido, pela Europa e pelo mundo quando, no dia a seguir ao referendo, se percebeu que uma maioria simples da população tinha preferido abandonar o bloco.

Foi com a mesma sensação de choque que, um ano depois dessa consulta, o eleitorado britânico voltou a acordar hoje para o inesperado: nenhum partido conseguiu uma maioria qualificada de deputados no parlamento, pelo que os próximos tempos vão ser caóticos e, dizem os aficionados em política, dos mais interessantes a que já se assistiu no Reino Unido em tempos recentes.

O Partido Conservador foi o mais votado, mas de acordo com a contagem provisória dos votos esta sexta-feira de manhã, ficou longe dos 326 votos necessários para não ter de formar coligação. Contra os seus 317 deputados eleitos, os trabalhistas conseguiram eleger 261, os Liberais Democratas 12 e o Partido Nacionalista Escocês (SNP) 35. Os três últimos estão a ponderar formar uma coligação, batizada "coligação do caos" pela ala conservadora dos media e da política, que faça frente ao governo de May.

Jeremy Corbyn, que assinou um dos maiores retornos à popularidade de que há memória, depois de vários meses a tentar gerir o duro impacto da guerra interna no partido desde o referendo ao Brexit, já declarou que May deve demitir-se num ato de humildade, como quem assume que um dos seus objetivos definidos e anunciados aos sete ventos — o de reforçar o mandato do Brexit para as negociações com a UE — ficou pelo caminho.

"As pessoas têm dito que estão fartas de políticas de austeridade", declarou o líder trabalhista esta madrugada, quando as primeiras sondagens à boca de urna começaram a antever a ausência de maioria. "A primeira-ministra convocou estas eleições porque queria um mandato. Bom, o mandato que conseguiu foi perder assentos conservadores, perder votos, perder apoios e perder a confiança [do eleitorado]."

May, que está no poder há um ano após ter sucedido automaticamente a David Cameron no rescaldo da vitória do Brexit, já garantiu que não vai a lado nenhum, pelo menos para já. O seu partido está a estudar a possibilidade de formar coligação com o Partido Unionista Democrático da Irlanda do Norte (DUP), que conquistou dez assentos no parlamento e que já declarou que só aceitará integrar um governo com os Tories se estes garantirem que o país não vai obter qualquer estatuto especial que o afaste do Reino Unido para o aproximar de Bruxelas.

"Assistimos a dois erros de cálculo político dramáticos por dois primeiros-ministros conservadores num curto espaço de tempo, é incrível", comentava esta manhã Heather Conley, diretora do programa do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos para a Europa — referindo-se ao facto de Cameron ter feito uma jogada semelhante à de May quando prometeu referendar a saída da UE para conseguir votos nas eleições de 2015, achando que a maioria dos eleitores optaria pela barricada europeísta.

Não há riscos controlados nestes tempos de volatilidades, incertezas e populismos. Que o diga também o Partido para a Independência do Reino Unido (UKIP), de Nigel Farage, um dos grandes porta-estandartes do Brexit que, nas eleições de quinta-feira, não conseguiu alcançar um único assento parlamentar — depois de, nas eleições de 2015, ter alcançado uns estrondosos quatro milhões de votos. Paul Nuttall, o atual líder do UKIP, já não é deputado por Boston e Skegness, a "capital do Brexit", após ter sido derrotado pelo conservador Matt Warman.

"O voto no UKIP colapsou em todo o país, indo sobretudo para os Conservadores. Mas a retórica pró-Hard Brexit de May não foi suficiente para lhe garantir a vitória e é difícil antever um futuro para um partido sem objetivos, numa altura em que os dois grandes candidatos estão empenhados em deixar a UE", refere o "The Guardian" esta manhã.