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Os dias difíceis da senhora May

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Há dois meses, as sondagens mostravam que o Partido Conservador da primeira-ministra britânica Theresa May tinha um avanço mais do que confortável para as eleições da próxima quinta-feira. Agora está em risco de as perder

Paulo Anunciação

Paulo Anunciação

em Londres

Correspondente em Londres

Na manhã de 18 de abril, Theresa May apanhou quase toda a gente de surpresa. No palanque montado no exterior da residência oficial, em Downing Street, a primeira-ministra britânica, com um vestido azul-cinza sóbrio e solene, fez um discurso de quase sete minutos para anunciar a realização de eleições antecipadas. A decisão, soube-se depois, fora tomada durante o fim de semana da Páscoa, preenchido com longas caminhadas ao lado do marido nas montanhas de Snowdonia, no País de Gales.

O segredo da decisão, tomada em família, foi mantido durante alguns dias. Até àquela manhã de 18 de abril, muito pouca gente sabia que as eleições parlamentares iriam afinal realizar-se já em 2017 e não em 2020, como seria normal (a rainha sabia, pois Theresa May telefonou-lhe na véspera da comunicação oficial ao país). “Quando John Major herdou inesperadamente o Governo e a maioria conservadora, em 1990 [após a demissão de Margaret Thatcher], ele costumava dizer que ‘vivia em pecado’”, explica o comentador político John Sergeant, um veterano das televisões britânicas. “Tal como Major, Theresa May herdou a chefia do Governo e a maioria conservadora [de David Cameron]. Ela provavelmente sentiu que precisava de um mandato confirmado nas urnas que lhe desse maior autoridade para as duras negociações do ‘Brexit’”, diz ainda Sergeant, em conversa com o Expresso.

O momento, aparentemente, era mais do que propício. Theresa May tinha, na altura, índices muito altos de popularidade, e as sondagens colocavam quase sempre o Partido Conservador a 20 ou mais pontos de distância do Partido Trabalhista, chefiado pelo socialista rebelde Jeremy Corbyn. No espaço de seis semanas, no entanto, os Tories desbarataram quase por completo esse avanço confortável.

Como é que isso aconteceu? A campanha do Partido Conservador não correu nada bem. Theresa May recusou-se a participar em debates televisivos com Corbyn, preferindo, em vez deles, o conforto de entrevistas meigas sentada ao lado do marido no sofá de programas como “The One Show”, da BBC, onde discutiu sapatos, viagens e tarefas domésticas (“Lá em casa, sou eu quem põe o caixote do lixo na rua”, anunciou o marido, Philip May).

Nas últimas semanas, os discursos da primeira-ministra centraram-se numa mensagem extremamente simples, repetida até à exaustão, sobre liderança em tempos de ‘Brexit’. O soundbite favorito, no entanto — “uma liderança forte e estável” —, não funcionou. Comentadores e humoristas troçaram da forma como May repetia esta expressão a toda a hora e de um modo quase robótico. Adversários políticos notaram a contradição entre a liderança “forte e estável” e as frequentes piruetas de uma primeira-ministra que em 2016 era contra o ‘Brexit’ (agora não é), uma primeira-ministra que não queria eleições antecipadas (agora quer) e uma primeira-ministra que cedeu às pressões populares e da imprensa e alterou à pressa as propostas do Governo em matéria de contribuições para a Segurança Social ou de encargos a suportar pelos idosos que recebem assistência social.

Timing. Theresa May anunciou que as eleições parlamentares iriam afinal realizar-se já em 2017 e não em 2020, como seria normal quando a sua popularidade estava claramente em alta

Timing. Theresa May anunciou que as eleições parlamentares iriam afinal realizar-se já em 2017 e não em 2020, como seria normal quando a sua popularidade estava claramente em alta

foto Toby Melville/Getty Images

Esta última reviravolta foi particularmente embaraçosa. O programa eleitoral do Partido Conservador incluía uma medida revolucionária (e corajosa) que previa que os cidadãos ou as suas heranças passassem a pagar pela assistência domiciliar recebida pelos doentes de Alzheimer e por doentes com outras patologias invalidantes. Os tabloides revoltaram-se contra este “imposto sobre a demência”. A rejeição popular foi enorme. Quatro dias depois do anúncio do manifesto eleitoral, Theresa May voltou atrás e cancelou a medida. Estas piruetas humilhantes são bastante penosas para uma política que é muitas vezes comparada — de forma algo injusta e sexista — a Margaret Thatcher, a única primeira-ministra que a antecedeu na história britânica. Num discurso famoso de outubro de 1980, Thatcher, recorde-se, autoclassificou-se como “a senhora que não volta atrás”.

A queda dramática nas sondagens — no início da semana, o Partido Trabalhista estava apenas a seis pontos de distância do Partido Conservador — está diretamente ligada à popularidade crescente de Jeremy Corbyn. A linguagem dele, direta, simples e sem rodeios — em contraste com a dos adversários, com uma propensão irritante para soundbites vazios —, atrai os eleitores, sobretudo os mais jovens. “Jeremy [Corbyn] é um político autêntico, cheio de paixão e energia, verdadeiramente empenhado em acabar com as desigualdades gritantes e crescentes que existem no país”, diz Carlos Castro, de 41 anos, um lisboeta que emigrou para Inglaterra em 2009 e que é vereador eleito pelo Partido Trabalhista na Câmara de Crawley, nos arredores de Londres.

O líder trabalhista guardou na gaveta grande parte do seu passado de ativista rebelde que tinha simpatias pelo IRA, que defendia o desarmamento nuclear, o pacifismo ou mesmo a queda da monarquia. Até o ar desgrenhado negligé e o guarda-roupa antiquado (casaco cinzento, camisola interior, sandálias com meias, boina Lenine) foi remodelado. Na segunda-feira, Corbyn entrou nos estúdios da Sky News de fato e gravata e com o cabelo cortado de fresco para um debate com o público, seguido de uma entrevista com Jeremy Paxman, uma espécie de inquisidor rottweiler conhecido por ser o entrevistador mais duro da televisão britânica. Corbyn sobreviveu às perguntas, muitas vezes com uma ponta de humor. Em contraste, Theresa May, entrevistada segundo o mesmo modelo logo a seguir, pareceu tensa e pouco à vontade quando confrontada por um membro do público sobre os cortes nas forças policiais e sua eventual ligação ao ataque terrorista em Manchester no dia 22 de maio.

“Corbyn é muito melhor em campanha do que Theresa May. Ela tem a simpatia pessoal, a graça, os dons oratórios e o encanto de um frigorífico Indesit que foi mal instalado por um tipo qualquer a troco de cinco libras e que agora está cheio de congelados a decompor-se”, escreve com uma brutalidade surpreendente o colunista Rod Liddle no semanário conservador “The Spectator”.

Mas será que a agenda esquerdista, populista — e de certa forma antiestablishment — de Corbyn, com as suas promessas de maior proteção social e investimento no sector público, será suficiente para ganhar eleições? E será que os recentes lapsos de Theresa May anularão a imagem, que ela gosta de cultivar, de uma estadista dura e implacável, pronta para enfrentar os demónios continentais durante as negociações do ‘Brexit’? “Quem sabe quem irá ganhar? Nos últimos anos aconteceram as coisas mais inesperadas”, diz por sua vez Ed Balls, antigo ministro e deputado do Partido Trabalhista. Balls, de 50 anos, não conseguiu ser eleito deputado no sufrágio de 2015 e retirou-se da vida política. “Na véspera das eleições americanas, eu estava convencido de que Trump seria derrotado. No dia antes do referendo [sobre o ‘Brexit’] também tinha a certeza de que não iríamos sair da União Europeia. Depois sabe-se o que aconteceu. Quem olha para as sondagens dirá que Theresa May será a próxima primeira-ministra. Mas quem sabe?”

Porta a porta

Ao contrário do que acontece em Portugal, as campanhas eleitorais no Reino Unido não têm caravanas automóveis nem buzinadelas intermináveis ou cartazes nas paredes, muito menos grandes comícios com histeria de decibéis, celebridades e música pimba. Os partidos, por tradição, mandam os seus candidatos parlamentares para a estrada. Com molhos de panfletos debaixo do braço, eles diligentemente batem na porta de cada casa do círculo eleitoral respetivo. Têm tempo para um dedo de conversa. Se ninguém abrir a porta, deixam um folheto na caixa do correio.

Além destas campanhas a nível local, os dirigentes nacionais, ministros e ministros-sombra fazem visitas-relâmpago — a uma fábrica, uma escola, um hospital, por exemplo — em círculos eleitorais escolhidos pela máquina partidária. O Partido Conservador é bem mais estrito nestas ações de campanha. Quando a primeira-ministra Theresa May visita uma pequena cidade da província, por exemplo, o mais provável é que discurse para um número reduzido de eleitores escolhidos a dedo, num ambiente muito controlado. Não são permitidas, em princípio, perguntas por parte de jornalistas (os Tories foram criticados pelo facto de exigirem conhecimento prévio das perguntas, sobretudo quando os pedidos são feitos por órgãos de comunicação ou jornalistas considerados como “hostis”). Estas performances cuidadosamente coreografadas são sobretudo para consumo dos noticiários televisivos.

O líder trabalhista, Jeremy Corbyn, guardou na gaveta grande parte do seu passado de ativista rebelde e refrescou o visual

O líder trabalhista, Jeremy Corbyn, guardou na gaveta grande parte do seu passado de ativista rebelde e refrescou o visual

foto Matt Cardy/Getty Images

O líder trabalhista, no entanto, ainda prefere fazer um tipo de campanha mais clássica. Jeremy Corbyn sente-se à vontade a caminhar pelas ruas entre a populaça, à frente de uma comitiva de jovens de t-shirt e bandeiras na mão. Está como peixe na água a discursar perante centenas num palanque numa praia de West Kirby, uma cidadezinha perto de Liverpool. Ou subindo inesperadamente ao palco montado no estádio do Tranmere Rovers, clube das divisões regionais de futebol, durante um festival de música. O discurso espontâneo, populista, breve, antes das canções dos The Libertines, foi bem recebido pela multidão, que gritou “Corbyn há só um!”

A campanha mais importante, porém, decorre bem longe das câmaras e dos olhares dos eleitores. Em meados do século passado, as eleições de 1951, 1955 e, sobretudo, 1959 — disputadas entre Harold Macmillan (líder do Partido Conservador) e Hugh Gaitskell (do Partido Trabalhista) — foram marcadas por uma inovação importantíssima: a utilização dos tempos de antena oficiais na televisão. Em 1959, os programas televisivos que o Partido Trabalhista transmitiu na BBC e na ITV eram talvez mais profissionais do que os tempos de antena dos conservadores. Mas Gaitskell não funcionava muito bem em frente das câmaras. O Partido Trabalhista perdeu as eleições.

Nos últimos anos, outra inovação está a transformar por completo a forma como os principais partidos britânicos conduzem as suas campanhas eleitorais: o Facebook. Tal como aconteceu nas eleições presidenciais norte-americanas e no referendo britânico de 2016, esta rede social transformou-se num campo de batalha eleitoral cada vez mais importante, porque possibilita fazer o chamado microtargeting — o direcionamento de mensagens/ações de campanha específicas a um público-alvo restrito e pré-selecionado.

O Partido Conservador parece ser particularmente eficaz nestas operações de marketing político conduzidas nas redes sociais. De acordo com os professores universitários Philip Cowley e Dennis Kavanagh, a vitória do Partido Conservador de David Cameron nas eleições de maio de 2015 ficou a dever-se, em grande parte, ao investimento nas redes digitais. “No melhor período dessa campanha eleitoral [de 2015], o Partido Trabalhista alcançava 16 milhões de pessoas por mês através do Facebook. O Partido Conservador promovia anúncios e mensagens no Facebook que atingiam 17 milhões de pessoas cada semana”, escrevem estes académicos no livro “The British General Election of 2015”. Nesse ano, os Tories gastaram mais de 1,2 milhões de libras (1,38 milhões de euros, ao câmbio atual) em anúncios no Facebook.

Tal como em 2015, estas eleições de 2017 estão a ser geridas, no Partido Conservador, pelos gurus Jim Messina e Lynton Crosby. Messina, de 46 anos, é um norte-americano que foi diretor de campanha de Barack Obama em 2012. Colabora com o Partido Conservador desde 2015. Lynton Crosby, de 60 anos, é um australiano que trabalha para os Tories desde 2005 (os serviços prestados à causa valeram-lhe o título de Sir, homologado pela rainha Isabel II, em 2016, a pedido de Cameron). Messina e Crosby são grandes apologistas do recurso ao chamado “Big Data”, o rasto digital que todas as pessoas deixam quando clicam “gosto”, quando usam cartões bancários, quando fazem pesquisas no Google ou quando se movimentam com o smartphone no bolso.

O partido concentra as atenções no eleitorado flutuante, que muda facilmente de intenção de voto. Através do recurso a focus groups, Messina e Crosby identificam os temas principais que preocupam esses eleitores indecisos e concebem uma forma eficaz de comunicar com eles nos círculos eleitorais mais problemáticos. Isso é feito em grande parte através do Facebook. As ferramentas de publicidade da maior rede social do mundo permitem atingir públicos-alvo muito específicos, definidos em função do sexo, idade, localização e interesses.

Monstro supranacional

Eleições recentes, no Reino Unido, ficaram marcadas pelos resultados surpreendentes alcançados por partidos fora do bloco central conservador-trabalhista. Mas parece que isso não vai voltar a acontecer. Os eleitorados de movimentos como o UKIP ou os Lib Dems (democratas liberais) serão largamente absorvidos pelos dois maiores partidos. O UKIP — um pequeno partido da direita populista — foi dominado durante anos pela figura de Nigel Farage, um demagogo carismático cuja razão de ser, desde 1992, foi a destruição do projeto europeu. O partido nunca elegeu qualquer deputado em eleições parlamentares, mas em 2014 ganhou as eleições para o Parlamento Europeu, conquistando 27,5 por cento dos votos britânicos.

Atentado. Theresa May fica incomodada com as críticas sobre a relação entre os cortes nas forças policiais e o ataque terrorista em Manchester

Atentado. Theresa May fica incomodada com as críticas sobre a relação entre os cortes nas forças policiais e o ataque terrorista em Manchester

foto Andrew Yates/Reuters

A vitória do ‘Brexit’ no referendo de 2016, no entanto, parece ter esvaziado este partido antieuropeu, para quem Bruxelas e Estrasburgo são as faces de um monstro supranacional e diabólico que ameaça a independência do Reino. O UKIP deixou de ter uma razão de existir. Farage, o líder histórico do UKIP, abandonou a presidência, dando origem a múltiplas divisões internas e lutas pelo poder (Farage continua a pregar o evangelho antieuropeu, mas dedica-se, sobretudo, a projetos mais lucrativos nos media). O atual líder do UKIP, Paul Nutall, é um católico de 40 anos que promete fechar as portas aos imigrantes, defende a pena de morte e a proibição do véu islâmico. Nutall parece ter também uma tendência exasperante para a escrita criativa. Sobrevive no cargo apesar de os jornais britânicos desmascararem a toda a hora as frequentes meias verdades, invenções ou puras mentiras que ele vai acrescentando ao seu currículo pessoal, político e profissional.

Numa eleição em que o ‘Brexit’ é um dos assuntos dominantes, seria de esperar que outro dos partidos mais intervenientes durante o referendo — os Lib Dems — estivesse em primeiro plano. As sondagens revelam, de facto, que o NHS (Serviço Nacional de Saúde) e as negociações com a União Europeia no âmbito do ‘Brexit’ são os temas que mais preocupam o eleitorado. Os democratas liberais continuam a ser a força política britânica mais declaradamente pró-europeia. Sob o comando de Nick Clegg, os Lib Dems alcançaram um resultado histórico — 23 por cento — nas eleições parlamentares de 2010 e participaram na coligação com os Tories que governou o país até 2015. Essa coligação revelou-se fatal. O partido foi trucidado nas eleições de 2015, conquistando 7,9 por cento dos votos e elegendo apenas oito deputados. O partido é dirigido agora por Tom Farron, de 47 anos, um europeísta convicto que defende a realização de um segundo referendo sobre o ‘Brexit’. A proposta, porém, não convence. O partido marca passo sob o comando de Farron. A eleição transformou-se em definitivo naquilo a que os ingleses chamam de two-horse race — uma corrida entre dois cavalos, disputada ao sprint entre a primeira-ministra, Theresa May, e o líder da oposição, Jeremy Corbyn.