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O que James Comey se prepara para revelar e que ameaça a administração Trump

Zach Gibson

Chegou o dia da audiência pública do ex-diretor do FBI que o Presidente despediu há um mês, sendo de imediato acusado de obstrução à Justiça. Esta quinta-feira, alguns democratas e republicanos do Senado vão tentar apurar mais pormenores sobre as reuniões entre ambos que precederam a demissão de Comey. Se houver suspeitas concretas e o mínimo de união no Congresso, poderá ser aberto um processo de destituição contra Donald Trump

Esta quinta-feira os norte-americanos vão assistir a uma audiência “histórica”, como vários media norte-americanos estão a classificar o antecipado depoimento de James Comey à comissão de serviços de informação do Senado, marcado para esta tarde numa sessão pública. Jennifer Rubin, colunista do “Washington Post”, não tem dúvidas: “Toda a história [de James Comey] prepara o palco para acusações de obstrução à Justiça [contra Donald Trump]”.

Assim ditou a jornalista na quarta-feira à noite, depois de a comissão de serviços de informação do Senado americano ter divulgado as sete páginas de testemunho escrito de James Comey sobre reuniões mantidas com o Presidente Donald Trump desde 20 de janeiro, dia da tomada de posse do empresário tornado candidato republicano, e 9 de maio, quando foi despedido do cargo de diretor do FBI — no fundo, um sumário do que ele irá dizer esta tarde ao Senado.

Desde o despedimento há um mês, quando Comey ainda tinha pela frente seis dos seus dez anos de mandato, a barricada democrata tem acusado o Presidente de obstrução à Justiça, sobretudo depois de ter sido confirmado que, dias antes de ser afastado, o então chefe da agência federal tinha acabado de pedir mais fundos ao Departamento de Justiça para avançar com a investigação a Michael T. Flynn — o ex-chefe do Conselho de Segurança Nacional de Trump, que foi a primeira baixa do atual governo republicano. O general na reforma foi forçado a demitir-se em fevereiro, ao 25.º dia da administração, após ter sido revelado que manteve contactos potencialmente ilegais com o embaixador russo em Washington.

Desde então, os media apuraram, entre outras coisas, que Flynn recebeu dinheiro para fazer lóbi pela Turquia e também pagamentos de um canal russo, o RT, para participar num jantar com Vladimir Putin em Moscovo, alegações que vieram adensar ainda mais o mistério sobre as suspeitas de ligações de vários membros da equipa de Trump a operativos russos e elementos do Governo de Vladimir Putin. Na reta final da corrida à Casa Branca, em outubro, as secretas americanas disseram ter fortes suspeitas de que a Rússia orquestrou uma campanha de ciberataques e notícias falsas para influenciar o resultado das eleições.

Com o afastamento do diretor do FBI, também surgiram informações até então ocultas sobre como Trump terá pressionado Comey a suspender a investigação a Flynn — uma das várias em curso no FBI, bem como nas duas câmaras do Congresso, para apurar se houve ingerência da Rússia nas presidenciais americanas e também se houve conluio entre o círculo de Trump e o Governo russo para impedir a vitória de Hillary Clinton em novembro.

O general Flynn foi afastado da administração Trump em fevereiro

O general Flynn foi afastado da administração Trump em fevereiro

Mario Tama

De acordo com o testemunho escrito de Comey, que a comissão de serviços de informação do Senado decidiu revelar a poucas horas da sessão pública marcada para hoje, o ex-diretor do FBI prepara-se para confirmar que, num primeiro momento, Trump lhe exigiu lealdade e que, mais tarde, lhe pediu que “deixasse Michael Flynn ir” por ser “um bom homem”.

Ao início da tarde em Lisboa, os democratas e os republicanos da comissão vão estar concentrados em obter de Comey mais pormenores sobre as suas reuniões com o Presidente, na tentativa de apurar se houve de facto pressões ilegais para que o então diretor do FBI abandonasse uma das várias investigações que, no limite, ameaçam a sobrevivência política do Presidente.

No início da semana, dois chefes da comunidade de serviços secretos dos EUA — o diretor da Agência de Segurança Nacional (NSA), Mike Rogers, e o diretor dos Serviços de Informação Nacionais, Dan Coats — foram ao Senado garantir que nunca se sentiram pressionados pela Casa Branca a cometer qualquer ilegalidade. De acordo com o testemunho escrito de Comey, o ex-diretor do FBI prepara-se para alegar o oposto.

Para já, sabe-se que em destaque vão estar dois dos nove encontros a sós que ocorreram entre Comey e Trump antes de o primeiro ter sido despedido há um mês. O primeiro aconteceu a 6 de janeiro, duas semanas antes da tomada de posse, quando Comey foi à Torre Trump para se encontrar a sós com o Presidente eleito; nessa reunião, o diretor do FBI explicou pela primeira vez ao futuro líder dos EUA que existiam alegações “de libertinagem por verificar” sobre ele a circular nos corredores do poder em Washington — uma referência ao alegado dossiê compilado pela Rússia para manter Trump sob o seu controlo, cuja existência foi confirmada por um ex-espião britânico com extensa experiência e contactos na Rússia.

No comunicado, Comey diz que o então Presidente eleito “mostrou-se enojado pelas alegações e desmentiu-as fortemente” numa segunda reunião. Esse desmentido foi reforçado por Trump num jantar a 27 de janeiro, uma semana depois da tomada de posse; sobre esse encontro na Casa Branca, Comey prepara-se para declarar ao Senado que teve “uma conversa muito incómoda”.

“O Presidente começou por me perguntar se eu queria continuar a ser diretor do FBI, algo que estranhei porque, por duas vezes em conversas anteriores, já me tinha dito que queria que eu permanecesse no cargo, ao que lhe assegurei que era essa a minha intenção. Ele disse que muitas pessoas queriam o meu posto e que, perante os abusos que eu sofrera no ano anterior, ele compreenderia se eu quisesse ir embora. Os meus instintos disseram-me que o facto de estarmos reunidos a sós e o facto de esta ser a nossa primeira pretensa discussão sobre o meu cargo representava, pelo menos em parte, um esforço da minha parte para lhe pedir o meu emprego e para firmar uma espécie de relação de patronato.”

Sobre o encontro nesse dia, Comey irá ainda acrescentar esta quinta-feira: “Isto preocupou-me, dado o estatuto tradicional de independência do FBI face ao ramo executivo. Respondi-lhe que adoro o meu trabalho e que pretendia ficar e cumprir o meu mandato de dez anos enquanto diretor. Aí, e porque a situação estava a deixar-me desconfortável, acrescentei que não sou 'de confiança' no sentido em que os políticos usam essa palavra, mas que ele poderia sempre contar comigo para lhe dizer a verdade. Acrescentei que não estava do lado de ninguém politicamente e que não podia ser confiável no sentido tradicional político, uma postura que, disse-lhe, está no melhor interesse do Presidente. Momentos depois, o Presidente disse: 'Preciso de lealdade, espero lealdade'. Eu não me mexi, falei nem alterei a minha expressão facial de forma alguma durante o silêncio desconfortável que se seguiu. Ficámos simplesmente a olhar um para o outro em silêncio. A conversa acabou por avançar para outros assuntos, mas ele fez questão de regressar àquele ponto quase no final do nosso jantar”.

No dia anterior a esse jantar, a 26 de janeiro, a então procuradora-geral, Sally Yates, que viria a ser despedida pelo Presidente pouco depois, foi à Casa Branca avisar os conselheiros da nova administração que Flynn mentiu sobre os seus contactos com o embaixador russo. Semanas depois, no rescaldo da resignação de Flynn, Trump expulsou toda a gente da Sala Oval para se encontrar novamente a sós com Comey. Aí disse-lhe: “Espero que consiga ver claramente para abandonar este assunto, para deixar Flynn ir. Ele é um bom homem. Espero que possa abandonar isto”.

Pelas 10h da manhã em Washington DC, 15h em Lisboa, os principais canais norte-americanos vão começar a transmitir em direto a parte pública da audiência no Senado, à qual se seguirá uma sessão à porta fechada. As perguntas dos senadores e as respostas do ex-diretor do FBI vão centrar-se no comportamento do Presidente e nas interações entre os dois homens, mas não deverão abordar as investigações em curso na agência federal e no Congresso.