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650 eleições para escolher o Governo do Brexit

Foto REUTERS/Marko Djurica

As legislativas antecipadas desta quinta-feira vão ser mais renhidas do que Theresa May previa. O trabalhista Jeremy Corbyn fez uma campanha de resistência que pode moderar a dimensão à provável vitória da primeira-ministra

Este ano não houve abertura solene do ano parlamentar no Reino Unido. As legislativas antecipadas desta quinta-feira marcadas pela primeira-ministra Theresa May em abril, impediram que se realizasse em maio, como é habitual, a cerimónia em que a rainha lê o discurso que o Governo lhe preparou. Teve de ser adiada para junho, já com nova composição parlamentar mas com menos pompa, desta vez, por falta de tempo para ensaiar tudo.

Ficámos, pois, sem a “boca” que o trabalhista Dennis Skinner costuma mandar no momento em que o emissário de Isabel II vai à Câmara dos Comuns convidar os deputados a juntarem-se à monarca na Câmara dos Lordes. Se no ano passado o veterano de 85 anos mandava o Executivo “tirar as mãos da BBC”, em 2015 previu “a última resistência” da coligação no poder, que juntava os conservadores de David Cameron e os liberais democratas de Nick Clegg.

Foi mesmo. Não porque o então primeiro-ministro tivesse perdido as eleições, como Skinner desejava (é esquerdista ferrenho e hoje apoia o líder Jeremy Corbyn), mas porque as ganhou com maioria absoluta, podendo dispensar o parceiro, aliás dizimado nas urnas. Seguiu-se o que sabemos: sem os liberais, Cameron não teve desculpa para adiar o referendo à permanência na União Europeia, no qual, há quase um ano (23 de junho), o povo decidiu por 52%-48% sair da quasi-federação para onde entrara em 1973. Cameron demitiu-se e o partido escolheu a ministra do Interior, May, para lhe suceder.

A governante disse sete vezes, em nove meses, que não anteciparia as eleições. May negava que o facto de não ter sido escolhida por sufrágio universal lhe roubasse legitimidade ou, tão ou mais importante, força para negociar o Brexit. Mas foi precisamente o Brexit que invocou quando, a 18 de abril, surpreendeu o país com a decisão de ir a votos, tomada, afirmou, durante um passeio com o marido pelas montanhas do País de Gales.

Foto REUTERS/Ben Stansall

650 votações simultâneas

É a terceira ida às urnas a nível nacional nos últimos três anos. “Está a gozar? Outra? Não suporto isto! Há tanta política a acontecer na política! Porque é que ela [May] foi fazer isto?!”, indignou-se a eleitora Brenda de Bristol num vídeo que fez furor na Net. Não tardaram as anatomias da reviravolta da primeira-ministra: que queria aproveitar o momento fraco da oposição trabalhista nas sondagens, antes que o Brexit invertesse a tendência; que queria força para o “Brexit duro” que escolheu (apesar de ter defendido a permanência na UE durante a campanha do referendo), com saída do Mercado Único e da jurisdição do Tribunal Europeu de Justiça; que, pelo contrário, só com força poderia contrariar a ala dura do Partido Conservador e negociar um Brexit mais suave.

May afirmou que ia às urnas porque “o país está unido [em relação ao Brexit, afirmação que carece de verificação] mas Westminster não. Criticou a oposição por não lhe dar carta branca, ao que esta retorquiu que apenas cumpria o seu papel em democracia, e foi acusada de rodeios, já que os Liberais Democratas foram o único partido de dimensão relevante a votar contra a invocação do artigo 50 do Tratado de Lisboa, em março. Ora, os libdems de Tim Farron têm nove de 650 deputados, o que dificilmente se pode considerar força de bloqueio.

Mais de 45 milhões de pessoas são chamadas a votar, não em uma mas em 650 eleicoes. Sob o sistema de círculos uninominais, cada circunscrição é representada por um rosto identificável e conhecido. Dado que só há uma volta, ganha o mais votado, tenha ou não maioria, e os demais votos são desperdiçados. Isto leva a que os cidadãos que vivem em zonas onde predominam ideias políticas diferentes das suas tenham pouca hipótese de influenciar o resultado, optando muitos pelo “voto tático”, isto é, pelo mal menor. O sistema tem sido criticado por sacrificar demasiado a representatividade em nome da governabilidade (é raro não haver maioria absoluta), mas num referendo de 2011 o eleitorado escolheu mantê-lo, por 68%-32%.

Há vida para lá do Brexit

São as eleições do Brexit, como May sugeriu, mas não há grande possibilidade de a saída da UE ser travada. O Partido Conservador e o Partido Trabalhista estão comprometidos em levar a cabo o que se decidiu há um ano, embora com tonalidades diferentes na abordagem às conversações com Bruxelas (os trabalhistas de Jeremy Corbyn são menos duros no controlo da imigração e querem manter mais laços com a UE).

Mas são, também as eleições que podem ou não confirmar uma primeira-ministra que alterou o discurso conservador, afastando-o do elitismo de Cameron e aceitando um papel para o Estado que rompe com o neoliberalismo de Margaret Thatcher. E as eleições que testam um líder trabalhista que se assume de esquerda e mandou às malvas a Terceira Via de Tony Blair. E que tem dado luta na campanha: se May marcou eleições para esmagar Corbyn, pode o tiro sair-lhe pela culatra. Longe vão os tempos dos 20% de vantagem nos estudos de opinião, havendo mesmo alguns que admitem que os conservadores percam a maioria absoluta.

A saída da UE acarreta questões como acordos comerciais com os parceiros europeus e o resto do mundo, direitos de residência para cidadãos comunitários que já vivem no Reino Unido e vice-versa, futura política de imigração ou acertos de contas (de milhões) entre as duas partes. Em todo o caso, o Brexit nunca acontecerá antes de 2019, pelo que outros assuntos pesam na decisão do eleitor, nomeadamente a algibeira. Os anos de Cameron foram de austeridade, que não terminou.

Ainda esta semana, a propósito dos atentados terroristas de Manchester (22 de maio) e Londres (3 de junho), May foi criticada por ter sido sob a sua tutela da pasta do Interior que a polícia sofreu fortes cortes orçamentais e de pessoal. Os sistemas de educação e saúde também estão a rebentar pelas costuras. Corbyn promete aumentar impostos às grandes empresas para os cortar aos mais desfavorecidos, mas muitos duvidam da capacidade de gestão dos trabalhistas após a crise de 2008.

Se a primeira-ministra é conhecida por não manter a palavra (além da UE e da própria antecipação das legislativas, em plena campanha revogou medidas do programa eleitoral que cortavam apoios sociais a idosos e deficientes), Corbyn é conhecido por pouco mudar de ideias, o que é problemático quando algumas delas são consideradas demasiado à esquerda e quando se foi muito tolerante, no passado, com terroristas do IRA ou radicais islâmicos. O improvável líder trabalhista, cuja eleição há dois anos foi um choque, teve boa prestação nesta campanha, destacando-se pela autenticidade (que não deixa de o prejudicar dadas certas das suas ideias) enquanto May rejeitava debates e aparecia na rua em cenário muito controlado.

Foto REUTERS/Andrew Yates

Taco a taco até ao fim

Se uma vitória de Corbyn tornaria rico quem nela tiver apostado (tal é a improbabilidade), reconheça-se-lhe pelo menos o mérito de ter criado incerteza onde a derrocada parecia inevitável. Se se falava de mais de 100 deputados de diferença entre conservadores e trabalhistas, agora é realista pensar que May terá algumas dezenas de assentos a mais, mas não é impossível que perca lugares. Embora as percentagens nacionais pouco digam do futuro Parlamento, mercê do sistema, é relevante que em menos de dois meses se tenha passado de 46-35% para 42-38% em termos de intenções de voto.

O reforço (raro na Europa) do bipartidarismo não impede que outras forças tenham uma palavra a dizer. A norte, o Partido Nacional Escocês quer manter os 56 assentos (de um total de 59) com que representa a região em Westminster e aposta em novo referendo à independência, tendo em conta que a Escócia votou contra o Brexit em 2016. Em Inglaterra, Liberais Democratas fazem por aguentar ou subir, mas o europeísmo parece não bastar. O igualmente pró-UE Partido Verde quer crescer (tem um deputado) e o eurocético UKIP faz por não desaparecer depois da vitória no referendo (que ironicamente lhe tirou razão de ser) e da saída do emblemático líder Nigel Farage.

A eleição também tem relevo no País de Gales, onde o nacionalismo é moderado, mas onde os conservadores ameaçam suplantar os trabalhistas como partido mais forte, e na Irlanda do Norte. Esta última vive um ano tenso. Está sem governo regional desde as eleições de março, que não geraram maioria nacionalista nem unionista, e pejada de dúvidas quanto aos efeitos do Brexit na coesão interna entre comunidades católicas (partidárias na unificação irlandesa) e protestantes (que querem manter-se no Reino Unido). Palco de tumultos, terrorismo e violência no século XX, a região será a única futura fronteira entre o Reino Unido e a UE, onde se mantém a República da Irlanda.

Contados os votos na noite de quinta para sexta-feira, nessa madrugada haverá uma ideia de como o poder fica distribuído em terras britânicas. A 19 de junho, quando Isabel II for a Westminster abrilhantar a abertura do ano parlamentar, veremos que discurso faz, delineando as prioridades do Governo então já formado. E prestaremos atenção, é claro, ao comentário sempre acutilante de Dennis Skinner, para quem as legislativas serão de sonho ou pesadelo.