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“História falsa” que levou à crise no Golfo foi “plantada por hackers russos”

Francois Nel

Depois de se ter gabado no Twitter de a sua visita à Arábia Saudita “já estar a render” –e de o corte de relações de cinco nações com o Qatar marcar “o início do fim do terrorismo” – Donald Trump telefonou ao rei saudita para lhe pedir que os aliados árabes dos EUA se mantenham unidos

O Presidente dos Estados Unidos pediu ao rei da Arábia Saudita que trabalhe para manter a união entre as nações do Golfo Pérsico perante a escalada de tensões com o Qatar, horas depois de ter declarado no Twitter que a decisão dos sauditas de suspenderem as relações diplomáticas com o pequeno emirado rico, apoiados pelo Egito, o Bahrain, os Emirados Árabes Unidos e o Iémen, pode marcar "o início do fim do horror do terrorismo".

Na segunda-feira, três países do Golfo mais o Egito e o Iémen anunciaram a suspensão das relações com o Estado qatari, encerrando os seus espaços aéreos a aviões oriundos do país e dando 48 horas aos diplomatas e cidadãos qataris para abandonarem os seus territórios. As nações árabes acusam o Qatar de patrocinar grupos terroristas como o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) e a Al-Qaeda bem como o Irão — grande rival regional dos sauditas, que Donald Trump responsabilizou pela instabilidade e o radicalismo num discurso que proferiu aquando da sua visita oficial a Riade.

O Qatar desmente as acusações de apoio ao radicalismo islamita, com o isolamento forçado a afetar os preços do petróleo, viagens e trocas de mercadorias e a fazer aumentar os receios entre a população do emirado do Golfo quanto a uma possível escassez de bens básicos no futuro próximo. O emir do Kuwait, a par do Presidente da Turquia, estão a tentar mediar a disputa, defendendo que o isolamento e as sanções não são solução para a crise.

"Tão bom ver que a [minha] visita à Arábia Saudita com o rei e outros 50 países já está a render", escreveu Trump no Twitter na terça-feira. "Eles disseram que iam assumir uma postura dura contra o financiamento do extremismo e que tudo aponta para o Qatar. Talvez este seja o início do fim do horror do terrorismo!"

Horas depois, de acordo com uma fonte oficial citada pela Reuters, Trump terá sido pressionado pela Casa Branca a alterar o seu discurso face aos recentes eventos no Golfo Pérsico, telefonando ao rei Salman da Arábia Saudita para lhe dizer: "É importante que o Golfo esteja unido pela paz e a segurança na região."

Entre as publicações de Trump na rede social e as declarações da fonte oficial à agência Reuters, a CNN assinou um dos artigos mais explosivos sobre o que pode ter levado ao isolamento forçado do Qatar, citando fontes a dizerem que a comunidade de serviços secretos dos EUA acredita que hackers russos plantaram a notícia falsa que levou as nações árabes a cortarem relações com o Qatar. O canal norte-americano diz que uma equipa de especialistas do FBI viajou até ao pequeno emirado rico em gás natural no final de maio para analisar um recente ciberataque a meios de comunicação do país; na visita terá sido apurado que foram hackers russos que "plantaram" uma "notícia falsa" na agência estatal de notícias.

Quando a Arábia Saudita deu o mote ao corte de relações na segunda-feira, abrindo as hostilidades e implementado um bloqueio que está na base da pior crise naquela região em décadas, o reino sunita citou entre os seus argumentos declarações controversas recentes atribuídas ao emir do Qatar, nas quais este criticava os sauditas e elogiava o Irão xiita. O emirado continua a garantir que a notícia é falsa e que os meios de comunicação do país, entre eles a Al-Jazeera, foram alvos de um ciberataque coordenado.

Antes da notícia avançada pela CNN, Patrick Cockburn, um dos grandes especialistas em Médio Oriente que trabalha para o jornal britânico "The Independent" desde 1990, tentou explicar o que está de facto a alimentar a crise diplomática com o Qatar — relegando para segundo plano o facto sublinhado por vários outros media sobre a Arábia Saudita estar empenhada em isolar o emirado há pelo menos quatro anos.

"Os sauditas e os seus aliados estão a exigir, com efeito, que o Qatar acabe com a sua política externa independente e que amanse ou encerre a sua estação de televisão, a Al-Jazeera", escreveu Cockburn. "Alegam que o Qatar é cúmplice do Irão no apoio ao terrorismo, apesar de o Qatar integrar a coligação de Estados sunitas que estão a apoiar forças hostis ao Irão na Síria e no Iémen. Um lobista pró-Arábia Saudita nos EUA até já chegou a ameaçar o Qatar com uma alteração de regime, tweetando ao emir qatari: 'Gostava de o lembrar que [o Presidente egípcio eleito e deposto um ano depois] Mohammed Mursi fez exatamente o mesmo [que vocês] e que depois foi deposto e preso.' A Arábia Saudita e o Qatar são rivais há muito e, apesar do pequeno tamanho do Qatar, a sua enorme riqueza e vastas reservas de gás natural têm-lhe garantido grande influência. Apoiou a Primavera Árabe com a sua riqueza e meios de comunicação, e apoia a Irmandade Muçulmana no Egito e o Hamas na Faixa de Gaza."

Há três anos, continua o correspondente, "houve um confronto parecido mas menos sério entre o Qatar e os seus vizinhos, com o primeiro a acusar os restantes de interferência nos seus assuntos internos. Desde então, o Qatar tem estado muito mais empenhado em não confrontar ou seguir políticas radicalmente diferentes daquelas que a Arábia Saudita e os EAU seguem. Então o que mudou no Golfo para precipitar esta crise agora? A resposta é que a bola de demolição que é Trump passou pela região no mês passado e o apoio sem reservas do Presidente dos EUA à Arábia Saudita, em particular ao vice-príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, veio desestabilizar o equilíbrio de forças na região. Já deu força à monarquia sunita do Bahrain para esmagar a resistência xiita, matando cinco manifestantes numa aldeia e encerrando o derradeiro jornal independente que existia no país."

"Mais grave que isso", acrescenta Cockburn, "é que o apoio inapto de Trump às monarquias sunitas e aos autocratas durante a sua visita de dois dias a Riade encorajou o reino a dar início a uma segunda e, esperam eles [os sauditas], última ronda de confrontos com o Qatar. Trump pode não ter tido a intenção de firmar esta última crise quando, de forma imprecisa e agressiva, demonizou o Irão e deixou implícito que o xiismo é a fonte de todo o terrorismo no Médio Oriente e Norte de África. Mas as suas palavras foram intepretadas pelos sauditas como um aval para darem passos contra o Qatar, apesar de o país albergar uma importante base militar dos Estados Unidos", que tem sido usada para as operações de guerra na Síria e no Iraque.

Apesar das tensões entre os qataris e os vizinhos registadas nos últimos anos, o corte de relações diplomáticas e o inédito bloqueio dos espaços aéreos a aviões do Qatar apanhou a maioria dos políticos e analistas de surpresa. E Cockburn não é o único a apontar o dedo à leviandade de Trump nos seus discursos e visitas oficiais; ontem ao final do dia, alguns media norte-americanos fizeram análises semelhantes do que se está a passar no Golfo. Entre eles conta-se a revista "Slate", onde o escritor e especialista em ciberguerras Fred Kaplan assinou um artigo intitulado "Como Trump piorou ainda mais a situação com o Qatar".