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Internacional

Qatar cada vez mais isolado e uma crise política em crescendo no Golfo

ERIC CABANIS

Egito anunciou esta terça-feira o encerramento do seu espaço aéreo a aviões qataris. Passo deverá ser seguido pela Arábia Saudita e pelo Bahrain depois de esses três países, a par dos Emirados Árabes Unidos e do Iémen, terem suspendido as relações diplomáticas com o país, acusando-o de patrocinar grupos radicais como o Daesh

O Egito está a impedir, a partir desta terça-feira e "até decisão em contrário", que aviões oriundos do Qatar circulem no seu espaço aéreo, em mais um passo que promete isolar a nação do Golfo, depois de na segunda-feira várias nações árabes aliadas dos Estados Unidos terem suspendido as relações diplomáticas com o país. Ainda esta terça-feira, é esperado que a Arábia Saudita e o Bahrain sigam o exemplo egípcio e proíbam também a circulação de aviões qataris nos seus respetivos espaços aéreos.

Na segunda-feira, esses três países, a par dos Emirados Árabes Unidos, decidiram cortar relações com o Qatar acusando as autoridades de apoiarem e patrocinarem grupos terroristas que atuam na região do Golfo, entre eles o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) e a Al-Qaeda. Os qataris que atualmente vivem no Bahrain, na Arábia Saudita e nos EAU, ou que estão nesses países de férias, têm duas semanas para abandonarem os territórios. Os nacionais de cada um desses países também já foram proibidos de viajar para o Qatar e, a par disso, o Egito e os Emirados decidiram expulsar todos os diplomatas qataris, dando-lhes até quarta-feira para regressarem a casa. Contudo, as autoridades sauditas dizem que vão permitir que cidadãos qataris participem no Hajj, a peregrinação anual de muçulmanos a Meca.

Neste momento, e a par do Egito, da Arábia Saudita, dos EAU e do Bahrain, o governo sunita do Iémen, o governo da Líbia reconhecido internacionalmente e as Maldivas também já suspenderam as relações diplomáticas com o Qatar. As autoridades qataris negam estar a apoiar grupos de militância islamita, com o ministro dos Negócios Estrangeiros a pedir ontem "um diálogo com abertura e honestidade" — no rescaldo de uma decisão que, segundo o "New York Times", surge enquadrada nos esforços dos poderosos países do Golfo nos últimos quatro anos para isolarem o Qatar.

O que está em causa?

"Durante anos", escreveu ontem o diário nova-iorquino, "o pequeno país rico em energia criou um nicho no mundo árabe ao tentar ser tudo para todos. Albergou uma base militar americana e encheu as ondas de ar da região com os seus media influentes, tudo enquanto mantinha relações próximas com o Irão e com uma abrangente seleção de movimentos islamitas. [Mas] na segunda-feira, cinco países da região anunciaram que vão obrigar o Qatar a fazer uma escolha. O seu poderoso vizinho, a Arábia Saudita, a par do Egito e de pelo menos outras três nações árabes, cortaram todas as relações com o país, escalando as acusações de que a monarquia qatari está a apoiar o terrorismo islamita sunita e os desígnios iranianos na região."

Apesar da decisão súbita, o corte de relações não é de todo surpreendente. Depois de quatro anos de tensões crescentes, as relações entre o Qatar e as mais poderosas nações árabes do mundo pioraram nas últimas semanas, sobretudo depois de, no final de maio, o canal de televisão com sede no Qatar ter sido alvo de um ciberataque durante o qual declarações controversas sobre a Arábia Saudita, o Irão e Israel foram atribuídas ao emir do Qatar.

Os países do Golfo e o Egito acusam o Qatar não só de ter ligações a grupos extremistas como ao Irão xiita, o grande rival da Arábia Saudita na região. Há suspeitas de que alguns dos homens mais ricos do Qatar têm estado a doar dinheiro aos vários grupos de militância e ao Irão, com o governo do país acusado de financiar com dinheiro e armas alguns dos grupos mais extremistas que estão a atuar na guerra da Síria.

A isto, o "Financial Times" acrescentou há um dia que os aliados do Golfo ficaram zangados com o facto de o Qatar ter aceitado pagar mil milhões de dólares a jiadistas e às autoridades iranianas após alguns cidadãos qataris terem sido raptados no Iraque e na Síria. Alguns analistas também apontam que o timing da decisão, duas semanas depois da visita de Donald Trump a Riade, é de ter em atenção. No seu discurso na Arábia Saudita, o Presidente norte-americano culpou o Irão pela instabilidade no Médio Oriente e pediu aos países muçulmanos que fizessem mais para liderar o combate à radicalização e ao terrorismo, algo que terá dado força aos países do Golfo para atuarem contra o Qatar.

Na mesma semana em que Trump discursou ao mundo árabe a partir da capital saudita, já depois de ter assinado um acordo de armamento com o reino sunita avaliado em mais de 110 mil milhões de dólares, o Egito, a Arábia Saudita, o Bahrain e os EAU bloquearam o acesso a sites de notícias qataris, incluindo a Al-Jazeera, a partir dos seus territórios. A decisão foi tomada depois de os media estatais do país terem publicado declarações controversas do emir qatari — na versão do governo, "notícias falsas" fruto de um "ciberataque vergonhoso".

O país, que vai albergar o Mundial de Futebol em 2022, continua a garantir que a decisão dos países vizinhos "não vai afetar as vidas normais dos cidadãos e residentes" da península. O Irão, a Turquia e os Estados Unidos já pediram a todas as partes que se sentem à mesa de negociações para resolver as suas diferenças. O Kuwait ofereceu-se entretanto para mediar essas conversações.

Impacto do isolamento

Com as interdições nos espaços aéreos dos vários países, os especialistas estão a antecipar caos e problemas na aviação comercial, já que o aeroporto de Doha, a capital do Qatar, é um dos grandes epicentros de ligações aéreas internacionais. Entre as companhias afetadas contam-se a Qatar Airways, a Etihad e a Emirates. Quando forem impedidos de aterrar nos aeroportos sauditas, os voos oriundos do Qatar terão de percorrer rotas mais longas para chegarem aos destinos.

À Al-Jazeera, o chefe da diplomacia qatari, Mohammed Bin Abdulrahman al-Thani, garantiu na segunda-feira que o país "vai continuar a ter acesso ao mundo através do espaço aéreo internacional e de pistas internacionais marítimas". Contudo, a população da nação rica em gás natural está preocupada com as consequências destas decisões diplomáticas ao nível do acesso a bens básicos; num país dependente de comida importada, os qataris estão desde ontem a fazer fila em lojas da capital e de outras cidades para se abastecerem.