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“Não sou um herói. Agi como cidadão, como português e como enfermeiro”

CLEMENS BILAN / EPA

A história do enfermeiro Carlos Pinto e da sua colega portuguesa, que enfrentaram o perigo para salvarem a vida a uma jovem esfaqueada no ataque de Londres de sábado à noite

O enfermeiro português Carlos Pinto e um grupo de amigos estavam longe, nos arredores de Londres, quando decidiram ir jantar a um restaurante mexicano, o El Pastor, na zona do Borough Market, no sábado passado. Poucas horas depois, Carlos e outra colega sua portuguesa estavam agachados no chão, no meio de mesas e cadeiras viradas, tentando desesperadamente salvar a vida de uma jovem que acabara de ser esfaqueada durante o terceiro atentado no Reino Unido em três meses.

Carlos foi dado como herói pela BBC e seu telefone não pára de tocar. Enquanto conversava com o Expresso, na manhã desta segunda-feira, recebeu cerca de 150 mensagens.

Esta é uma história de sangue-frio e profissionalismo. Carlos Pinto nasceu em Vila Real e fez o curso de enfermagem no Instituto Piaget em Silves, no Algarve. Trabalhou em várias unidades de saúde em Portugal – como o Hospital de São José, o Instituto Português do Sangue ou o Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa. Em 2013, veio para o Reino Unido e agora trabalha num hospital privado, nos cuidados intensivos.

O jantar no El Pastor transformou-se numa traumática experiência entre a vida e a morte. Os dois enfermeiros e mais três amigos tinham chegado ao restaurante pouco depois das 21h. Tomaram um aperitivo ao balcão, depois foram conduzidos a uma mesa mesmo junto à entrada do estabelecimento. Só havia outra mesa entre a deles e a porta.

“Hoje até está calmo”, comentou o gerente do restaurante. Mas foi por pouco tempo. Quando já estavam a comer as entradas, Carlos ouviu o que parecia ser uma discussão junto à porta. “Olhámos para a entrada, vimos um indivíduo a gritar. Não percebi a língua, mas vi bem a cara dele”, conta Carlos Pinto ao Expresso. “Vi-o com uma grande faca de cozinha, ou era vermelha ou já estava coberta de sangue”.

Tentaram fugir, caíram ao chão e rastejaram procurando uma saída. Mas não havia para onde ir, estavam encurralados. Para se defenderem, os clientes atiraram mesas, cadeiras, garrafas, o que tinham à mão sobre o atacante, que se mantinha a bloquear a entrada. Quando este deu dois passos atrás, alguém conseguiu fechar um portão de segurança.

“Percebi que alguém tinha sido esfaqueado e gritei a oferecer ajuda, dizendo que éramos enfermeiros”, relata o enfermeiro. Trouxeram-lhes, em ombros, uma jovem, cerca de 17 ou 18 anos. Tinha um golpe no tronco, com cerca de cinco centímetros de largura. “Não sabia a profundidade, se tinha atingido o pulmão”, diz o enfermeiro. A jovem estava a perder muito sangue. “Comecei a gritar por toalhas para estancar a hemorragia”, conta.

Carlos e a sua colega fizeram tudo o que puderam para controlar a situação. “Pusemo-la numa posição para aliviar o fluxo de sangue à ferida. Aplicámos gelo para reduzir o fluxo periférico”, explica. Manualmente, mantiveram pressão sobre o corte. “Até sairmos de lá, conseguimos mantê-la viva e acordada”.

Enquanto acudiam a vítima, alguém disse: “É um atentado”. Algumas pessoas tentaram sair por uma porta dos fundos, apenas para constatar que se tratava de uma zona semiaberta e possivelmente mais perigosa.

“Foi tudo muito rápido. Estávamos a socorrer a vítima, o atacante ainda tentou rebentar o portão, ouvimos tiros lá fora, toda a gente tentou escapar”, relata Carlos Pinto. Os dois enfermeiros mantiveram-se onde estavam. “Estabilizámos a rapariga e houve ainda outro tiroteio, depois acalmou”.

Quando os primeiros polícias entraram em contacto com quem estava dentro do restaurante, Carlos pediu-lhes mais material médico, soro, compressas, equipamento de reanimação. Mas os agentes ainda estavam empenhados em controlar o ataque e saber se não havia mais perigo.

Passaram-se duas horas e meia até que a polícia libertasse todos os que se encontravam encurralados no restaurante. “A rapariga tinha perdido muito sangue, estava muito fraca, com a respiração muito superficial. Não aguentaria mais meia hora”, conta o enfermeiro.

A polícia mandou que todos deixassem o estabelecimento. “Dissemos-lhes que éramos enfermeiros e que não iríamos abandonar a vítima antes que chegassem paramédicos”, afirma Carlos Pinto. No final, restou um pequeno grupo de seis a oito pessoas à volta da jovem, até que finalmente chegou alguém com uma mala com material médico adequado.

“Foi aí que nós saímos, mas começou o pesadelo novamente”, recorda Carlos. Os agentes ordenaram: “Pela esquerda, corram, corram, corram!”. Mas em cada direção que aquele pequeno grupo corria, encontravam mais polícias, que lhes apontavam as armas, perguntando quem eram, para onde iam. “Andámos às voltas. Pedimos para nos deixarem voltar para o restaurante, mas não permitiram”. A determinada altura, em novo encontro com polícias armados, estes ordenaram-lhes que se agachassem, com as mãos à cabeça, enquanto a polícia abria portas com explosões controladas.

“Mal conseguíamos manter os braços à cabeça, mas se os baixássemos minimamente apontavam-nos as armas, dizendo: ‘mãos à cabeça!’”, recorda Carlos Pinto. “Nós próprios já gritávamos com eles”.

Foram finalmente autorizados a correr de novo. Encontraram outras patrulhas que os ajudaram e finalmente saíram do epicentro do ataque, para uma rua aberta ao trânsito. Ainda alugaram um táxi, uma carrinha, e levaram várias pessoas que estavam sem dinheiro, sem telefone, sem nada, para casa. “Gastámos 200 libras, o condutor nem sequer fez um desconto”.

Carlos Pinto chegou a casa exausto e ansioso. Publicou uma mensagem no Facebook a dizer que estava bem. “Fui ingénuo. Nunca pensei que ia ter a repercussão que teve. Perdi meu sossego”, refere ao Expresso.

Além de amigos, recebeu mensagens de desconhecidos, de outros hospitais onde trabalhou no Reino Unido, a oferecer qualquer tipo de ajuda. Até a Ordem dos Enfermeiros Portugueses o contactou, a felicitá-lo pelo seu profissionalismo.

“É bom o reconhecimento, mas não sou um herói. Agi como cidadão, como português e como enfermeiro”, diz Carlos Pinto. “Cumpri o meu papel”.

“Durante o ataque, cheguei a pensar: o que é que eu estou a fazer aqui, quando tenho Lisboa à minha espera?”, recorda o enfermeiro. Outros amigos ainda também se perguntaram por que é tinham ido àquele restaurante. Carlos sabe por que: “Fomos lá porque havia uma jovem que precisaria de nós”.