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May criticada por sugerir que gigantes tecnológicas estão a criar “espaços seguros” para os terroristas

TAUSEEF MUSTAFA

No rescaldo do ataque de sábado à noite, a primeira-ministra britânica apontou a mira à internet e às redes sociais, prometendo aumentar a regulação e a vigilância online. As empresas do sector garantem que já estão a apostar em força na área e organizações que defendem a privacidade dos utilizadores acusam a chefe do governo de simplificar um assunto complexo. Um especialista em radicalização diz que o seu argumento é “intelectualmente preguiçoso”

A promessa que a primeira-ministra britânica fez no rescaldo do ataque de sábado à noite em Londres, que provocou sete mortos e mais de 40 feridos, de reforçar as regulações da internet está a angariar críticas das maiores empresas cibernéticas e de ativistas que defendem a privacidade dos cidadãos online.

Este domingo, Theresa May disse que há áreas da internet que devem ser encerradas, sugerindo que as gigantes tecnológicas têm estado a criar "espaços seguros" que permitem a disseminação de ideologias terroristas. "Não podemos permitir que esta ideologia tenha o espaço seguro de que precisa para se reproduzir", declarou a primeira-ministra britânica. "No entanto, é precisamente isso que a internet, que as grandes empresas [cibernéticas], asseguram."

Horas depois, em entrevista à ITV, a sua ministra do Interior, Amber Rudd, acrescentou que é necessário um acordo internacional para forçar as empresas de redes sociais a fazerem mais para travar a radicalização de indivíduos na internet. "Primeiro, temos de garantir que se faz mais para retirar o material que está a radicalizar as pessoas. E em segundo lugar, temos de ajudar [as empresas] a trabalhar connosco para limitar a quantidade de encriptação fim-a-fim que, de outra forma, pode ser usada pelos terroristas."

A chamada "encriptação fim-a-fim" impede a leitura de mensagens intercetadas, quer por criminosos quer pelas autoridades. A Google, dona do YouTube, o Facebook, que detém a aplicação WhatsApp, e o Twitter são as principais empresas tecnológicas que estão a ser pressionadas para encontrarem formas de combater conteúdos extremistas online. Todas garantem que estão a analisar a fundo formas de limparem as suas redes de atividades terroristas.

Em comunicado, a Google sublinhou este domingo que já investiu centenas de milhões de libras para combater abusos nas suas plataformas e que já está a trabalhar integrada num "fórum internacional para acelerar e reforçar o trabalho em curso na área", acrescentando que partilha "o compromisso do governo para garantir que os terroristas não encontram uma voz online".

O Facebook garante que, através de "uma combinação de tecnologia e revisões humanas", tem estado a "trabalhar agressivamente para retirar conteúdos terroristas da plataforma assim que são detetados" e compromete-se a "notificar as autoridades" quando "for detetada uma emergência envolvendo riscos iminentes para a segurança de qualquer pessoa".

O Twitter, por sua vez, sublinha que "não há espaço para conteúdos terroristas" na rede social. "Continuamos a expandir o uso da tecnologia como parte de uma abordagem sistemática de remoção deste tipo de conteúdo" da plataforma, lê-se no comunicado da empresa.

Também em reação às críticas de Theresa May, o especialista da BBC em tecnologia, Rory Cellan-Jones, lembrou que as empresas do sector já têm acordos internacionais em vigor para identificar material extremista e retirá-lo de imediato da internet, e alertou que vai ser "muito difícil persuadir as empreas de tecnologia a livrarem-se da encriptação fim-a-fim" por causa do seu uso generalizado.

Em paralelo, a Open Rights Group, uma organização sem fins lucrativos que defende a privacidade e a liberdade de expressão online, avisou que a posição de May e de outros políticos a favor de mais regulação cibernética arrisca empurrar as "redes perversas" dos terroristas para "os cantos mais escuros da internet". "A internet e as empresas como o Facebook não são a causa do ódio e da violência, são ferramentos que podem ser abusadas. Apesar da ser preciso que governos e empresas adotem medidas para travarem abusos, tentativas para controlar a internet não são a solução simples que Theresa May invoca."

Para Peter Neumann, diretor do Centro Internacional para o Estudo da Radicalização no King's College em Londres, "as grandes plataformas de redes sociais têm estado a reprimir contas jiadistas e isso tem levado a maioria dos jiadistas a usarem plataformas de troca de mensagens encriptadas fim-a-fim, como por exemplo o Telegram", como explicou no Twitter. "Isto não resolveu o problema, só o tornou diferente... e para além disso, há poucas pessoas a radicalizarem-se exclusivamente online. Culpar as redes sociais é politicamente conveniente mas inteletualmente preguiçoso."

Contra as críticas, Julia Rushchenko, investigadora do Centro Henri Jackson para a Radicalização e o Terrorismo, alinhou-se com Theresa May, defendendo que as gigantes tecnológicas podem e devem fazer mais para combater a disseminação de material extremista online, sobretudo ao nível da privacidade e não tanto da segurança. "Todos sabemos que as empresas de redes sociais têm sido uma ferramenta útil para os que pregam o ódio e para os extremistas", disse em entrevista à BBC.