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O capitão Trump e o naufrágio da Nave Espacial Terra

KEVIN LAMARQUE/ Reuters

Presidente dos EUA abandona o Acordo de Paris sobre o clima e vai mais longe que Bush ao rejeitar o Protocolo de Quioto em 2001. América ao lado da Síria e da Nicarágua

A 9 de julho de 1965 o antigo embaixador dos EUA na ONU, Adlai Stevenson, fez em Genebra um discurso histórico. Protagonizara em outubro de 1962 um duelo épico com o embaixador soviético Valerian Zorin durante a Crise dos Mísseis de Cuba, mas desta vez o tema era outro: “Viajamos juntos, como passageiros de uma pequena nave espacial [chamada Terra], dependentes das suas frágeis reservas de ar e solo (...) A única coisa que se interpõe entre nós e a aniquilação é o cuidado, o trabalho e o amor que dedicarmos ao nosso frágil veículo”.

Meio século depois, um Presidente dos EUA que nunca leu Stevenson e provavelmente nem faz a mínima ideia de quem foi, decide unilateralmente sair do Acordo de Paris sobre o clima. É verdade que o prometera fazer durante a campanha eleitoral, mas as consequências arriscam-se a ser pesadas até para os próprios Estados Unidos.

Quando, em 2001, os EUA abandonaram o Protocolo de Quioto — tratado climático de 1997 —, o então Presidente George W. Bush usou dois argumentos: só obrigava os países desenvolvidos a reduzirem as suas emissões e prejudicava a economia norte-americana. Década e meia depois, Trump agarrou-se apenas ao segundo motivo para anunciar, quinta-feira, que os EUA saem do Acordo de Paris, sucessor do de Quioto, aprovado consensualmente em dezembro de 2015 pela ONU.

“O Acordo de Paris vai minar a economia, prejudicar os trabalhadores, enfraquecer a soberania, impor riscos legais inaceitáveis e colocar-nos em desvantagem perante outros países”, disse o Presidente norte-americano.
Ironicamente, o Acordo de Paris é um corolário da decisão de Bush em 2001. Sem os EUA, Quioto já era um nado-morto quando entrou em vigor em 2005. Os negociadores divergiram: uns tentando salvar o que restava do protocolo e outros, incluindo os EUA, começando a discutir novo tratado.

Foi Obama que, numa caótica cimeira climática em Copenhaga em 2009, encontrou o ovo de Colombo. Com as negociações num beco sem saída, chamou à parte os líderes dos países com maiores emissões. Voltou com um documento não vinculativo, à margem do processo formal da ONU, em que todos se comprometiam a dizer o que poderiam fazer, voluntariamente, para impedir a subida do termómetro mundial.

Acordo de boas vontades

Em 2015, em Paris, este modelo transformou-se num tratado internacional. Cada país apresentou um plano para minimizar a sua contribuição para o aquecimento global sem metas obrigatórias. Cada um contribui com o que pode, embora haja um mecanismo periódico de revisão dos esforços.

O carácter não vinculativo das promessas de Paris põe em dúvida a necessidade de os EUA saírem do acordo e houve divergências na própria Casa Branca. O secretário de Estado Rex Tillerson foi um dos que argumentou que o país poderia manter-se no acordo, revendo em baixa os compromissos assumidos — por ora, uma redução de 26 a 28% nas emissões até 2025, em relação a 2005. Outros, como o diretor da Agência de Proteção Ambiental, Scott Pruitt, alegaram que o acordo poderia criar impedimentos legais à reversão das políticas climáticas de Obama, outra das promessas de Trump.

Obama disse que a decisão de Trump significa “rejeitar o futuro” e que os países que permanecerem no acordo “colherão os benefícios da criação de empregos e de indústrias”. Trump diz o contrário: os EUA perderão 2,7 milhões de postos de trabalho com as promessas feitas em Paris. O número vem de um estudo que alguns economistas criticam por razões metodológicas.

Além disso, Paris promete dar mais impulso às energias renováveis, que já empregam dez milhões de pessoas globalmente, segundo o mais recente balanço da Agência Internacional de Energias Renováveis. Este número pode crescer até 24 milhões em 2030, “mais que compensando as perdas de empregos nos combustíveis fósseis”, sustenta Adnan Amin, diretor geral da agência.

A China é o maior beneficiário desta evolução, com 3,6 milhões de empregos nas “novas renováveis”, exceto grandes barragens. É uma das razões pelas quais o maior poluidor mundial não abdica do Acordo de Paris.

O efeito da saída dos EUA não é certo. O país representa 14% das emissões mundiais de dióxido de carbono. Mas os números têm caído por razões de mercado: o gás de xisto, mais barato e menos poluente, retira o carvão das centrais e fábricas.

Deixar o Acordo Paris exige um processo formal que levará três anos e meio. Até lá, Trump quer renegociar. França, Itália e Alemanha já disseram que o acordo era “inegociável”. O novo Presidente francês, Emmanuel Macron, quebrou a tradição e fez um discurso em inglês, de alguma forma retribuindo as palavras de solidariedade em francês do então secretário de Estado John Kerry após o massacre do “Charlie Hebdo” em 2015. Disse que em matéria de clima “não há Plano B pela simples razão de que não há um planeta B”. E inverteu o slogan de Trump: “make our planet great again” (voltemos a tornar grande [não os EUA] mas o nosso planeta).