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“Londres é uma cidade com muito estofo”

Pessoas a serem acudidas pela polícia na zona de SouthWark Bridge

Carl Court / GETTY IMAGES

Guilherme Rosa está em Londres há 15 anos. Atualmente, é vereador do município Lambeth, em Londres. Ao Expresso, diz que o ataque à capital britânica pode influenciar os resultados das eleições, marcadas para a próxima semana

Guilherme Rosa, 43 anos, estava a pouco mais de um quilómetro de distância da London Bridge. Estava a jantar num restaurante em Vauxhall, zona com grande presença da comunidade portuguesa, quando ouviu uma série de sirenes, carros de polícia e ambulâncias a passarem na estrada. Ao início, não ligou. “Ao sábado à noite é algo normal, as autoridades estão mais nas ruas”, conta ao Expresso.

“Quando vi na televisão que havia um terceiro incidente em Vauxhall, comentei com o dono do restaurante. Felizmente, confirmou-se logo de seguida que o que estava ali a acontecer não tinha relação com o que aconteceu em London Bridge”, referiu.

Chegou a Londres há 15 anos e, em 2014, foi eleito como vereador do município londrino de Lambeth. Para o vereador, o mais preocupante é existirem “milhares de voluntários adormecidos” que estão dispostos a morrer pela causa do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh). “Um atentado com carros, qualquer um pode fazer. Não é preciso comprar armas ou preparar explosivos. Desde que a pessoa esteja disposta a morrer pela causa ou a ir presa, pode facilmente fazer um ataque”, refere.

Admite que na capital britânica paira no ar uma “certa consciência de que um atentado terrorista pode acontecer a qualquer momento”. Sobretudo em alturas de grande cobertura mediática, como são “a final da Liga dos Campeões e as vésperas das eleições legislativas”, marcadas para dia 8 de junho.

“Acho que o que aconteceu esta noite pode ser duas coisas: ou alguma célula relacionada com o ataque de Manchester, que viu que estava quase a ser apanha pela polícia e decidiu fazer isto sem planear; ou então era algo já planeado com o intuito de desconcertar a cidade em véspera de eleições”, comenta Guilherme Rosa.

A menos de uma semana do sufrágio, o vereador não tem dúvidas que incidentes como o desta noite serão usados no discurso político. Aliás, a campanha, diz Guilherme Rosa, tem sido mais marcada por temas como o terrorismo e segurança do que pelo 'Brexit'.

“Incidentes como estes podem, e não tenho qualquer dúvida, influenciar as eleições. Em Londres vive-se muito intensamente a questão da segurança, Por exemplo, é uma cidade enorme e é quase impossível deixar uma mala sozinha sem que apareça logo a polícia. No metro, bastam dois ou três minutos”, conta.

Este domingo não será a primeira vez que o Reino Unido irá acordar após um ataque. Só em 2017, será a terceira vez (em março, Westminster, e em maio, Manchester). “Os ingleses têm muito o espírito 'keep calm and carry on'. São muito calmos e serenos. Não andam em histeria após um atentado. Vê-se mais polícia na rua, mas as pessoas estão muito calmas”, diz Guilherme Rosa.

“Londres é uma cidade com muito estofo. Foi muito bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial, viveu o terrorismo do IRA (Exército Republicano Irlandês) e, mais recentemente, esta série de atentados. É uma cidade muito atormentada”, conclui.

“Não deixamos que o terrorismo afete a nossa vida”

Também Eduardo Lopes, estudante de 20 anos, estava em Londres esta noite. Na festa de despedida de uma amiga, a cerca de 15 minutos da London Bridge, conta que quando se apercebeu do sucedido todos ficaram afetados. “Podíamos ser nós na ponte. Aliás, agora mesmo estamos todos a questionar qual é a forma mais segura de regressar a casa.”

O jovem, a viver em Londres há três anos, recorda que a zona de London Bridge “é muito movimentada” e “liga o sul e o norte da cidade”. “Há bares, restaurantes, discotecas e é muito frequentada por turistas. Dez minutos antes da carrinha ter atropelado as pessoas, o meu colega de casa estava lá a apanhar o autocarro”, conta.

Eduardo Lopes reconhece que, de certa forma, “já havia a sensação de que algo como isto podia acontecer a qualquer momento”. Mas sublinha que “a melhor forma de resposta ao terrorismo é não mudar o nosso estilo de vida. E este foi claramente um atentado ao nosso estilo de vida. Por mais que tenhamos medo, não deixamos que o terrorismo afecte os nossos comportamentos, a nossa vida e todo o aspecto social da cidade”.

Este sábado à noite, Londres foi palco de mais um ataque terrorista. Na London Bridge, uma carrinha atropelou várias pessoas. Poucos metros ao lado, no Borough Market, vários homens entraram armados com facas e terão esfaqueado várias pessoas.