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Internacional

Europa e China unidos contra Trump no combate às alterações climáticas

Kevin Frayer

Face aos rumores de que o Presidente dos EUA vai abandonar o Acordo do Clima de Paris, os líderes de Pequim e da União Europeia preparam-se para apresentar uma frente unida. Num comunicado a ser apresentado sexta-feira, sublinham que estancar o aquecimento global “é um imperativo mais importante do que nunca”

A BBC teve acesso a um comunicado conjunto que os líderes da China e da União Europeia se preparam para divulgar, no qual sublinham que, depois de Donald Trump ter decidido retirar os Estados Unidos do Acordo do Clima de Paris, combater as alterações climáticas e o aquecimento global “é um imperativo mais importante do que nunca” e que concretizar aquele acordo é o “mais elevado compromisso político” que podem assumir.

O documento, a ser publicado na sexta-feira depois de uma cimeira em Bruxelas, surge em resposta aos rumores de que o Presidente dos EUA vai abandonar o acordo alcançado em dezembro de 2015 na capital francesa e já ratificado por 147 dos 197 países.

No ano passado, antes de abandonar a Casa Branca, Barack Obama assinou um decreto presidencial para avançar com o acordo global — assim nomeado porque, se fosse um tratado internacional, precisaria da aprovação do Congresso de maioria republicana, que provavelmente tê-lo-ia chumbado. Esta quinta-feira, é esperado que Trump formalize a sua decisão de retirar os EUA do acordo.

Houve protestos em frente à embaixada dos EUA em Londres quando, após vencer as eleições de novembro, Trump prometeu que ia tirar os EUA do Acordo do Clima

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DANIEL LEAL-OLIVAS

Durante mais de um ano, Pequim e Bruxelas trabalharam nos bastidores para alcançarem uma plataforma comum para combater as alterações climáticas e reforçar o investimento em energia limpa. No documento consultado pela BBC, os líderes sublinham que a constante subida da temperatura no nosso planeta “é uma questão de segurança nacional e um fator de multiplicação das fragilidades sociais e políticas” — referindo também que a transição para energias renováveis vai criar postos de trabalho e servir de combustível ao crescimento económico.

“A UE e a China consideram que o Acordo de Paris é uma conquista histórica que acelera ainda mais [o objetivo de] baixas emissões de gases com efeito de estufa a nível global e o desenvolvimento resiliente do clima”, cita o canal britânico. “O Acordo de Paris é a prova de que, com vontade política e confiança mútua, o multilateralismo pode ter sucesso na construção de soluções justas e eficazes para um dos mais críticos problemas globais da nossa era. A UE e a China sublinham o seu mais alto compromisso político com a aplicação eficaz de todos os pontos do acordo.”

Acordo do Clima de Paris: O que é?

Em dezembro de 2015, reunidos na capital francesa, os líderes da maioria dos países do mundo chegaram a um acordo para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa na indústria e na agricultura, com o objetivo de desacelerar o aquecimento global e de limitar a subida da temperatura no planeta.

O acordo tem como objetivo manter as temperaturas globais “bem abaixo” do nível de dois graus centígrados registado antes da revolução industrial e “trabalhar para limitar” essa subida da temperatura a um máximo de 1,5ºC. Nele são delineados objetivos como:

  • Limitar a quantidade de gases com efeito de estufa emitidos pela atividade humana a níveis que permitam a sua absorção natural pelas árvores, o solo e os oceanos
  • Rever as contribuições de cada país para a redução das emissões a cada cinco anos, para que possam adotar medidas para enfrentar o desafio
  • Habilitar os países mais ricos do mundo a ajudar as nações mais pobres através de “financiamentos do clima” para que estas possam adaptar-se às alterações climáticas e criar fontes sustentáveis de energia renovável

Neste momento, 147 dos 197 países já ratificaram o acordo, incluindo os Estados Unidos, onde este entrou em vigor em novembro, antes de Donald Trump derrotar Hillary Clinton nas presidenciais. Depois de tomar posse em janeiro, o 45.º Presidente norte-americano continuou a refutar o impacto humano no aquecimento global, dando início ao desmantelamento das políticas energáticas encetadas por Obama.

Promessas e garantias

No documento consultado pela BBC, a China e a UE comprometem-se a “avançar com mais políticas e medidas” para aplicar os seus planos nacionais de cortes nas emissões de carbono e a definir as suas estratégias de combate às alterações climáticas até 2020.

Também delineiam outras áreas de cooperação, entre elas o desenvolvimento e reforço dos mercados de trocas de carbono. Sob este acordo de reforço, Pequim e Bruxelas também prometem trabalhar em conjunto para melhorar as suas infraestruturas e adaptar as suas fontes de energia ao desafio global.

“A UE e a China estão a unir-se para avançar com a concretização do Acordo de Paris e para acelerar a transição global para energias limpas”, refere o Comissário da UE para o Clima, Miguel Arias Cañete. “Ninguém deve ficar para trás, mas a UE e a China decidiram avançar.”

Políticas climáticas marcaram as divisões entre EUA e o resto do G7 em Taromina

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TIZIANA FABI

O reforço da cooperação entre ambos surge em resposta à postura do atual Presidente norte-americano, que ontem revelou no Twitter que vai fazer o seu anúncio formal quanto ao futuro do Acordo de Paris esta quinta-feira pelas 15h locais (19h em Lisboa). Fontes próximas de Trump dizem que ele vai retirar os EUA do acordo, algo que já tinha prometido fazer durante a campanha eleitoral.

No domingo, no rescaldo da cimeira do G7 em Taormina, na Sicília, Angela Merkel tinha sugerido que a Europa já não pode contar com o seu aliado tradicional sobretudo por causa da visão de Trump sobre o aquecimento global — um facto cientificamente comprovado que, para o líder norte-americano, é um “embuste” criado por e para a China “roubar postos de trabalho anos norte-americanos”.

“Toda a discussão sobre o clima foi muito difícil, para não dizer muito pouco satisfatória”, referiu a chanceler alemã aos jornalistas depois do encontro de dois dias em Itália. “Não há quaisquer indicações sobre se os Estados Unidos vão ou não manter-se no Acordo de Paris.”

A demonstração de força e união entre a UE e a China já está a ser aplaudida pelos ativistas ambientais, numa altura em que o segundo maior emissor de carbono do mundo parece estar prestes a abandonar os esforços globais coordenados de combate às alterações climáticas.

“Se a cooperação EUA-China deu à luz o Acordo de Paris, está agora nas mãos da UE e da China defendê-lo e melhorá-lo”, diz Li Shuo, da Greenpeace, citado pela BBC. “Ambos têm potencial para se tornarem o novo motor da diplomacia internacional sobre o clima.”