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27 de maio: olhares cruzados

Vicente Pinto de Andrade, professor universitário e antigo dissidente da Revolta

Foto Nuno Botelho

A última série de depoimentos sobre o 27 de maio, que publicamos esta terça-feira, é de Vicente Pinto de Andrade, que já se encontrava preso quando os “fracionistas” começaram a chegar à cadeia de S. Paulo, em Luanda, e de Hermínio Escórcio, na altura chefe de protocolo da presidência e atual embaixador na Argentina

Nicolau Santos

Nicolau Santos

Diretor-Adjunto

Gustavo Costa

Correspondente em Luanda

Vicente Pinto de Andrade

Antigo dissidente da “revolta activa” e hoje integrante da lista de deputados do MPLA

“A 27 de Maio estava encarcerado na cadeia de S. Paulo na companhia dos meus irmãos e outros companheiros da Revolta Activa porque havíamos sido presos seis meses depois da Independência. Nesse dia, entrou para a nossa cadeia o Juca Mulato, o agente da DISA que curiosamente me havia ido buscar a casa para me colocar nos mesmos calabouços que, por razões diferentes, passamos então a partilhar.

Digamos que o 27 de Maio não nos apanhou propriamente desprevenidos já que acompanhávamos na cadeia o curso dos acontecimentos. Em vésperas o Hélder Neto, um dos mais influentes responsáveis da DISA montara na cadeia todo o aparato preparatório das prisões que haveriam de ocorrer em massa nos dias e semanas seguintes.

O clima estava tenso e o Hélder Neto ao ter-se suicidado, evitou que tivesse sido morto por elementos da ala ala mais radical do movimento do 27 de Maio, que integrando alguns lumpéns como o Sabata, se preparavam também para nos liquidar...”

Hermínio Escórcio

Chefe de protocolo da presidência e atual embaixador em Buenos Aires

“Em vésperas do dia 27 de Maio havíamos sido informados pelos serviços de segurança de que os fracionistas se preparavam, a qualquer momento, para sair a rua, prender e matar gente.

Fui por isso que o Neto mandou abortar uma reunião do Conselho da Revolução que deveria ter tido lugar no Museu de História Natural em que os fracionistas se preparavam para tomar de assalto, enjaular a direção do MPLA e depor o Presidente Neto.

Semanas antes fui avisando alguns deles, entre os quais o meu cunhado Bernardo Teixeira “Nado”, para não se meterem nisso.

No dia 21 de Maio num meeting no pavilhão da Cidadela Desportiva foi tornada pública a destituição de Zé Van-Dunem e de Nito Alves do comité central do MPLA. Ninguém queria ler o comunicado com medo. Foi o Saidy Mingas que se levantou, pegou no documento e decidiu, de forma destemida, assumir a sua leitura. Depois morreu como morreu...

Na manhã do dia 27 estava em casa quando me apercebi que a Rádio Nacional de Angola (RNA) havia sido tomada. O embaixador da Nigéria foi a minha casa para me perguntar por que razão havia alteração na ordem pública. Disse-lhe que não sabia...

Fui para o meu gabinete no Palácio e de lá telefonei para o Futungo de Belas mas de caminho pude avistar o Onambwe e o Delfim de Castro dentro de um tanque, que se dirigia para as instalações da RNA onde já estava no ar o programa radiofónico Kudibanguela controlado pelos fracionistas.

Depois da retomada da RNA fui o primeiro dirigente a lá entrar e encontrei já algumas pessoas presas entre as quais o Carlos Garcia ( que viria a ser mais tarde diretor da TPA) a quem dei imediatamente ordens para que fosse libertado porque nada tinha a ver com os golpistas.

Sai da rádio e fui até a avenida Lisboa para ver se havia rastos de sublevação. Liguei ao Neto, disse-lhe que estava tudo calmo e ele prontamente afirmou: “então posso ir até aí!” Disse-lhe que por uma questão de segurança, talvez fosse melhor ficar pelo Futungo.
O Presidente virou-se para mim e disse-me que ia então mandar chamar a imprensa para fazer o ponto da situação. Mal sabia ele que o Saidy, o Eurico e o Garcia Neto já tinham sido mortos...

Mal sabia também que alguns comandantes haviam caído na emboscada montada pelos fracionistas na 9ª brigada. Quando soube de tudo isso, o Presidente ficou completamente transtornado. Não queria acreditar no que lhe estavam a dizer que havia acontecido.

Eu em simultâneo disse ao Ruy Carvalho, que trabalhava no comércio interno, para tomar conta da rádio mas este exigiu que fosse exarado um despacho a nomeá-lo o que acabou por ser feito pelo Lúcio Lara.

O Ruy, o João Abel, o Rodrigues Vaz e outros radialistas a partir daquele momento tomaram conta da rádio. O Iko e o Xietu tomaram conta das operações militares.

Uns dias depois fui a Fortaleza de S. Miguel e lá encontrei o Zé Van-Dunem (estava descalço e coberto por um lençol), o Juca Valentim e o Nado. Ainda falei com o Jacob João Caetano (Monstro Imortal) chefe do estado maior adjunto das FAPLA e outros quadros e o único que não veio falar comigo, envergonhado, foi o David Aires Machado (Minerva), então Ministro do Trabalho.

O Zé Van-Dunem perguntou-me pelo pai e disse-lhe que o velho Mateus estava desfeito, nem ele, nem ninguém esperavam que ele (Zé) se metesse numa encrenca tão grave. O Zé por fim fez-me um pedido: olhem ao menos para o meu filho...”

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  • 27 de maio: órfãos de pais e da terra

    Da série de testemunhos de sobreviventes e familiares de vítimas do 27 de maio, como ficou conhecido o movimento que há 40 anos marcou o início de dezenas de milhares de execuções, publicamos o segundo conjunto de depoimentos, de Che, filho de José Van-Dunem e Sita Valles, e de Nelson Vieira Lopes, filho de Elisiário Vieira Lopes. O assunto é o tema de capa da revista E, que chegou no sábado às bancas

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    O Expresso inicia hoje a publicação de uma série de testemunhos de sobreviventes e familiares de vítimas do 27 de maio de 1977, aquilo que o regime angolano de então considerou uma tentativa de golpe de Estado e reprimiu violentamente, executando 30 mil pessoas sem julgamento. É o tema de capa da revista E deste sábado. Nesta edição, publicamos os testemunhos da (ex)mulher, do filho e da irmã do então chefe de gabinete do primeiro-ministro Lopo do Nascimento, Rui Coelho, que foi fuzilado a dois de julho de 1977