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Merkel avisa que UE “já não pode contar” com o Reino Unido nem com os EUA

Sebastian Widmann

Num comício de campanha este domingo, a chanceler alemã sugeriu que aliança ocidental pós-II Guerra foi gravemente afetada pela vitória do Brexit e pela eleição de Donald Trump

A Europa "já não pode depender completamente" dos seus aliados tradicionais, o Reino Unido e os Estados Unidos da América. Assim declarou este domingo Angela Merkel, a chanceler alemã que é candidata a um quarto mandato consecutivo nas eleições federais de outubro, num comício de campanha em que avisou que a União Europeia tem de estar preparada para "tomar o seu destino em mãos".

No evento eleitoral em Munique, no rescaldo dos encontros tensos da NATO em Bruxelas e do G7 em Itália, Merkel sugeriu que a aliança ocidental do pós-guerra ficou seriamente danificada com a vitória do Brexit no Reino Unido há quase um ano e com a eleição de Donald Trump nas presidenciais norte-americanas de novembro.

"O tempo em que podíamos depender completamente dos outros de certa forma acabou", disse a chanceler aos 2500 apoiantes que se concentraram no centro da capital da Baviera para a ouvir. "Apercebi-me disto nos últimos dias. Nós, europeus, temos verdadeiramente de tomar o nosso destino em mãos." No discurso, Merkel garantiu que a Alemanha e a Europa vão continuar a apostar nas boas relações com os EUA, com os britânicos e com outros países, "até com a Rússia", mas sublinhou: "Temos de ter noção de que temos de lutar pelo nosso futuro sozinhos, pelo nosso destino enquanto europeus."

As tensas declarações, raras entre aliados, foram proferidas um dia depois de Donald Trump ter entrado em choque com os líderes das outras seis potências mundiais – Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Canadá e Japão – e com representantes da UE no encontro do G7 em Taormina, na Sicília, entre sexta-feira e sábado.

Na cimeira, os líderes prometeram lutar contra o protecionismo, reiterando o seu "compromisso com a manutenção dos mercados abertos" em rota de colisão com a política económica de Trump. E apesar de todos terem concordado sobre a necessidade de aumentar as pressões à Coreia do Norte e de estreitar a cooperação no combate ao terrorismo, houve discordância sobre a adoção de sanções mais duras contra a Rússia e sobretudo sobre o acordo do clima de Paris. Contra as seis potências que renovaram o seu compromisso com o tratado de combate às alterações climáticas e ao aquecimento global firmado em dezembro de 2015, Trump disse que precisa de "mais tempo" para decidir o que fazer – remetendo para esta semana uma decisão final sobre o assunto.

Durante a corrida à Casa Branca, o então candidato republicano questionou frequentemente o valor da UE, apoiou publicamente a saída do Reino Unido do bloco e políticos anti-Bruxelas como a líder da extrema-direita francesa Marine le Pen e também declarou que o aquecimento global é um "embuste" criado por e para a China no contexto da concorrência económica no mundo globalizado.

No final do encontro, o Presidente norte-americano remeteu para esta semana uma decisão final sobre o acordo de Paris e Merkel disse que o resultado das conversas – que descreveu como "seis contra um" – foi "muito difícil, para não dizer muito pouco satisfatório". No Twitter, Trump fez um balanço muito diferente da cimeira: "Acabei de voltar da Europa. Viagem foi uma grande sucesso para a América. Trabalho duro mas resultados grandes!"

Antes deste encontro, os líderes da NATO estiveram reunidos em Bruxelas na quinta-feira e aí Trump voltou a repetir acusações à maioria dos Estados-membros da aliança, por não investirem 2% do seu PIB no orçamento de defesa comum, dizendo que tal "não é justo" para os contribuintes norte-americanos. Também se escusou a apoiar o artigo 5.º, uma cláusula de defesa mútua sob a qual os aliados se comprometem a defender qualquer Estado da NATO que seja atacado – que, até hoje, só foi ativada uma vez, no rescaldo dos ataques terroristas do 11 de Setembro de 2001, nos EUA.

De acordo com alguns correspondentes presentes no encontro em Bruxelas, Trump comentou que a Alemanha é "muito, muito má" pelo facto de, sendo a maior economia da Europa, estar a vender demasiados carros nos EUA. Já Merkel desejou ao novo Presidente de França, Emmanuel Macron, muito sucesso, prometendo que a Alemanha vai fazer tudo o que estiver ao seu alcance para reforçar a aliança franco-germânica. "Onde a Alemanha puder ajudar, a Alemanha vai ajudar, porque a Alemanha só pode ter sucesso se a Europa tiver sucesso."