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Melissa Fleming: “Frustra-me que um refugiado não possa ser o médico de amanhã”

nuno botelho

A porta-voz e diretora de comunicação do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados dizia-se especialista em tweets e press releases até escrever o livro que agora lança em Portugal

Cristina Peres

Cristina Peres

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Jornalista de Internacional

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

Melissa Fleming contou a história da refugiada síria Doaa al-Zamel numa TED Talk. O interesse suscitado levou-a a transformá-la no livro “Uma Esperança Mais Forte do que o Mar” (Porto Editora). Segue-se Steven Spielberg, em cujas mãos está o futuro filme. Na mouche!

É especialista em comunicação e gere uma equipa de cuja eficácia depende parcialmente uma coisa tão importante como é o financiamento de missões do ACNUR. O que é mais importante?
Peço aos elementos da minha equipa que não se esqueçam que todo o trabalho que fazemos diz respeito a seres humanos. Se nos ficarmos pelas estatísticas favorecemos o medo que alguns políticos estão a tentar provocar. Às vezes acho que não tenho grande sucesso porque as vozes do medo populista colocam as questões de tal modo a “preto e branco” que fica difícil contrariá-lo. Mas nós tentamos! E a única maneira de esfumar esses medos é apresentando histórias humanas.

As condições para os refugiados têm piorado na Europa e nos EUA, 
com políticas mais seletivas e a separação entre “nós” e “eles”. O que faz o ACNUR para despertar a consciência dos políticos?
Os políticos querem ganhar votos ao fomentar o medo, fazendo dos refugiados e migrantes uma ameaça. É muito difícil contrariá-lo, mas é o que fazemos. Trabalhamos com uma companhia que está a mapear as atitudes nos diferentes países da Europa para compreendermos melhor as diferenças entre eles. O presidente da câmara de Palermo, por exemplo, diz que os políticos desvalorizam a compaixão das populações e nós verificámo-lo. Quando a crise de refugiados na Europa estava no pico, muitas pessoas na Áustria acorriam em grande número à estação de comboios para acolher as pessoas que chegavam aos milhares. Muitos cidadãos queriam ajudar e faziam-no de muitas maneiras. Como aquele período foi muito desordenado e confuso, alguns que ajudaram começaram a ficar preocupados... É importante levar a sério os receios do cidadão médio europeu, que faz perguntas sobre a origem dos refugiados. Há que dizer-lhes que os refugiados são avaliados durante dois anos até poderem finalmente entrar num avião. Há políticas a funcionar, e a maioria das pessoas responde “sim” à pergunta se querem que o seu governo aceite pessoas em fuga de guerras e perseguições. Os cidadãos apenas temem que o acolhimento seja feito de forma desregulada. Somos comunicadores e temos de ter os factos e a razão. A seguir, contamos as histórias que atraem a atenção.

Usa as redes sociais para difundir histórias positivas. Como 
a do Starbucks, que vai empregar mil refugiados. É eficaz?
Tento mostrar histórias inspiradoras e surpreendentes. Há gestos de humanidade a acontecer em muitos sítios e o pano de fundo é absolutamente horrível. Não só as mortes constantes no Mediterrâneo, também as redes de tráfico de seres humanos, que raptam, torturam e violam os traficados... episódios de guerra, os refugiados no limbo sem poderem estudar nem trabalhar... Tento mostrar a paisagem completa para que as pessoas se perguntem como reagiriam se fosse com elas.

Está no ACNUR desde 2008, onde foi porta-voz de António Guterres e agora de Filippo Grandi. Qual a qualidade mais importante do alto comissário? Perícia política? Experiência? Agenda de contactos?
O que António Guterres trouxe foi uma incrível perspetiva global ganha ao longo dos anos e uma rede de líderes mundiais com os quais contava. Era um espanto: aparecíamos em qualquer país e ele conhecia as pessoas que era preciso conhecer. As portas simplesmente abriam-se, o que o preparou para secretário-geral. Guterres tinha de convencer os governos a fazerem o que está certo, o que exige enormes capacidades diplomáticas, já que autorizar a entrada de muitas pessoas necessitadas no país não é uma medida popular. Além disso, nem todos os países, em particular em torno da situação na Síria, são sequer signatários da Convenção de Genebra. Para lidar com o mundo árabe, Guterres estudou o Corão e encomendou um livro que explicava que a proteção dos refugiados está lá prevista. Fez o mundo árabe sentir ter uma religião da humanidade. Ao acreditar nisso, Guterres conseguiu mais financiamento dos países do Golfo e que outros aceitassem mais refugiados. Um alto comissário tem de ter um coração grande e ser um bom comunicador. Ele dá voz às pessoas mais vulneráveis da Terra.

Doaa tem uma história incrível e inspiradora. Teria escolhido outra?
Para mim, a história da Doaa é única, mas é também representativa. Dá corpo à experiência de refugiados da Síria e à história dos sírios antes da guerra. O facto de ela ter crescido em Daraa, onde a guerra começou na sequência das manifestações pacíficas em que ela participou, fez dela testemunha do início da guerra síria. Ela representa os cinco milhões de refugiados que vivem nos países em volta da Síria. E representa todos os jovens que arriscam a vida no Mediterrâneo sabendo que podem morrer. A história de amor dela representa outras que existem apesar do desespero. Ela representa ainda a prova de que o espírito humano é extraordinário. Homens muito mais fortes do que ela despiram os coletes salva-vidas e preferiram afogar-se. Ela conseguiu ser um dos 11 sobreviventes do naufrágio de um barco que transportava 500 pessoas. Há pessoas com uma força excecional!