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27 de maio: o luto que ficou por fazer

O Expresso inicia hoje a publicação de uma série de testemunhos de sobreviventes e familiares de vítimas do 27 de maio de 1977, aquilo que o regime angolano de então considerou uma tentativa de golpe de Estado e reprimiu violentamente, executando 30 mil pessoas sem julgamento. É o tema de capa da revista E deste sábado. Nesta edição, publicamos os testemunhos da (ex)mulher, do filho e da irmã do então chefe de gabinete do primeiro-ministro Lopo do Nascimento, Rui Coelho, que foi fuzilado a dois de julho de 1977

Nicolau Santos

Nicolau Santos

Diretor-Adjunto

Gustavo Costa

Correspondente em Luanda

Rui Coelho foi preso e fuzilado a 2 de junho de 1977

Rui Coelho foi preso e fuzilado a 2 de junho de 1977

d.r.

Mila Ferreira Coelho, (ex) mulher

“Tinha ele uns 15/16 anos quando se iniciou entre nós uma amizade profunda. Ambos preenchíamos as tardes de sábado a catalogar os livros que se destinavam a pôr de pé a biblioteca da J.E.C. (Juventude Escolar Católica). Foi assim, a falar sobre livros que nos conhecemos.

O Rui tinha um espírito desembaraçado, sorridente, olhar observador, inteligência q.b., naturalidade e muito humor. Vestia-se com simplicidade. No liceu foi sempre aluno brilhante. Fascinava-me a facilidade com que lidava com a Matemática e com o Inglês. Tinha uma cultura geral fora da média.

É a partir de 1969, já na Universidade, em Lisboa, que passámos a namorar. A par das aulas envolveu-se em atividades estudantis, de luta por uma sociedade e um ensino mais justos. Acreditou que podia mudar o mundo.

As leituras passaram a girar à volta dos temas sobre O Capitalismo, O Socialismo, O Marxismo, as Lutas Proletárias, O Imperialismo, etc. Eu começava a ter consciência do quanto aquilo era importante para ele e da transformação intelectual por que estava a passar. Na sua cabeça começou a crescer a ideia de regressar a Angola, o que fez em finais de 1973. Era então finalista.

Por causa do seu regresso a Angola, mais concretamente para Luanda, não terminou o curso de Direito. Deu início assim à primeira etapa da uma carreira profissional como professor na Escola Comercial Vicente Ferreira.

Eu regressei, de barco a Angola uns dias mais tarde. Deu-se o 25 Abril de 1974 quando navegava há 3 dias no mar alto. A bordo pouco ou nada se comentou, pairou no ar como uma estranha noticia e, pouco mais. Quando o barco atracou em Luanda, o Rui estava à minha espera e com uma alegria contida falou-me dos acontecimentos de Lisboa.

Casámo-nos em abril de 1975, no Lobito.

No início de 1976 saiu da escola e foi trabalhar para o Ministério da Administração Interna como Director do Gabinete de Estudos. Como técnico deste Ministério e cidadão angolano fez a sua primeira saída de Angola, em Junho de 1976. Destino Portugal. Também foi a Cuba na mesma qualidade.

Estava eu no 6º mês de gravidez, quando ele foi à Argélia. No dia 23 de Maio de 1977 deslocou-se em serviço a este país africano. Curiosamente o seu passaporte caducava a 28 de Maio, como constatei mais tarde. Quando regressou a 1 de Junho, a tragédia de 27 de Maio ainda estava na ordem do dia. Disse-me que lhe tinham roubado a carteira à chegada ao aeroporto. Vi que estava muito intranquilo. Achou mais prudente passar a noite fora para se inteirar de tudo. Eu pouco ou nada lhe sabia contar, para lá do que tinha visto na televisão. Sentia-me aterrorizada.

No dia seguinte, a 2 de Junho, vieram buscar-nos a casa. Dois soldados armados de metralhadora levaram-nos para o Ministério da Administração Interna. Permanecemos lá toda a tarde, sentados num banco. Nas horas que ali estivemos falámos pouco. Estávamos horrivelmente destroçados. Tentávamos dissipar a nossa tristeza fazendo projetos a curto prazo. Assim, combinámos que o bebé se fosse menino se chamaria Rui. Não chegámos a acordo se fosse menina. Pediu-me que eu voltasse para Portugal logo que pudesse.

Era já noite quando nos foram buscar. Meterem-nos num cubículo escuro. Apercebemo-nos que mais alguém coabitava aquele espaço, mas não ousámos saber quem era. Pela madrugada levaram-nos para a cadeia de S. Paulo.A separação de homens para um lado, mulheres para o outro afastou-nos definitivamente um do outro. Nunca mais nos vimos. O último gesto que do Rui, guardo na memória, foi quando tirou o cinto das calças.

Uma noite qualquer estava eu em casa quando me bateu à porta um “amigo”. Era também do Lobito. Cumprimentei-o alegremente – pois, pensava eu – trazia notícias do Rui. Trazia-me, a carteira que tinha desaparecido ao Rui, no aeroporto aquando da sua chegada da Argélia. Fiquei a tremer dos pés à cabeça. Sentia-me baralhada. Às perguntas cínicas que me fez a todas elas eu respondi com dificuldade. Como é que era possível ele ser um DISA!

A partir daquele momento percebi que algo de errado tinha acontecido e, pressenti que algo de errado estava para acontecer. Os dias passavam devagar e, as notícias sobre o paradeiro do Rui chegavam-me timidamente e sem ter a certeza de que provinham de fonte fidedigna. Não estava em S. Paulo! Estaria na Fortaleza, ou não?

A verdade é que nunca consegui saber se ele tinha tido conhecimento de que no dia 15 de Agosto de 1977, às 20h30, tinha sido pai de um rapaz.

Os dias continuavam a passar e a minha obsessão por ter notícias sobre o Rui levaram-me ao Ministério da Administração Interna. Pedi uma audiência ao Ministro ou a alguém que o substituísse. Não consegui à primeira, mas consegui à segunda. Foi então que recebi a notícia que nunca queria ter ouvido. Alguém que se fingia muito educado, muito sentido, confirmou o falecimento do meu marido.”

Rui Tukayana, filho

“Foi numa noite de verão, tinha eu seis ou sete anos, que um primo mais velho perguntou-me se eu não tinha um pai no céu. Disse-lhe que não, ele insistiu que sim. Fiquei baralhado. No dia seguinte, a minha tia falou-me do meu pai biológico. Desde essa altura fiquei a saber que tinha um outro pai que não o António, com quem a minha mãe casou tinha eu uns três anos. Foi um choque. Nunca me foi escondido porque na verdade ao contrário da maior parte das pessoas eu tinha três pares de avós - os pais da minha mãe, os pais do meu pai, e os pais do meu pai biológico - e, mais cedo ou mais tarde, eu ia tentar perceber o que se passava. Só ainda não tinha reparado nisso.
Lembro-me da minha mãe dizer-me que não era suposto eu ter sabido por outros quem era o meu pai. Senti logo que o assunto era melindroso. Fui aprendendo as coisas com o passar dos anos. A minha mãe tinha muita relutância em falar do assunto e eu tinha uma enorme relutância em a fazer recordar, porque sentia a dor que ela (ainda) carrega.

Não tenho a altura precisa de quando comecei a interessar-me mais por Angola e pela história do meu pai biológico. Talvez com 16 ou 17 anos.

Sei que quando se assinalaram os 25 anos do 27 de maio, fui com a minha mãe pela primeira vez a um encontro com os sobreviventes e familiares de vítimas. Estranhamente senti muita familiaridade com toda aquela gente. Não consigo explicar, mas quase que os sinto como irmãos. Também não sei porquê, nunca explorei muito acerca do meu pai. Sei que era alguém divertido e inteligente. Olhando as fotos, vejo que sou parecido com ele.

Não sou de vinganças e aprendi desde muito cedo a ser contra a pena de morte. Mas acho que há determinados crimes que não prescrevem. A verdade é que foram cometidos crimes - atiraram pessoas para valas comuns, fizeram detenções arbitrárias, fuzilamentos, torturas, etc - , e eu até posso compreender do ponto de vista histórico que estas coisas tenham acontecido. Agora, o que já não compreendo é que seja um assunto tabu e que não haja um pedido de desculpas ou um memorial.

Gostava de saber onde estão os restos mortais do meu pai e eventualmente poder fazer uma espécie de funeral.

O meu pai não estava sequer em Angola naquele dia. Estava numa missão diplomática, enquanto chefe de gabinete do 1º ministro. Chegou a Angola no início de junho. E uma das histórias que me contaram é que ele só voltou por minha causa e da minha mãe.

Nem a minha mãe nem eu dissemos ao meu pai o que se tinha passado com o meu pai biológico. Ele apenas sabia que tinha morrido jovem. Nada mais. Na véspera do 31º aniversário do 27 de maio, escrevi um texto sobre o meu pai biológico. Nesse dia morreu o Sydney Pollack, o realizador do “África Minha”. Lembrei-me que o meu colega Fernando Alves provavelmente ia falar do Pollack na sua crónica “Sinais” e enviei-lhe um email sugerindo que arranjasse um gancho, à boleia do filme, para referir os 31 anos do 27 de maio. Enviei-lhe o meu texto para ele tirar de lá o que precisasse. O que eu não imaginava é que ele escrevesse um texto sobre mim, à conta do meu nome Tukayana, que em kimbundo quer dizer “venceremos”.

Foi o Fernando Alves quem revelou ao meu pai António, que o estava a ouvir, o que tinha acontecido e quem era o meu pai biológico. Da mesma forma que a minha mãe não teve oportunidade de ser ela a contar-me, também nem eu nem ela conseguimos ser nós a contar ao meu pai António, o que tinha acontecido ao meu pai biológico. Ele ficou em choque. Foi um momento complicado de gerir, porque muita gente ficou a saber naquele momento que ele não é o meu pai biológico. Quebrou-se um elo, que tenho pena. E ele sabe.

Voltei a Angola há uns cinco ou seis anos. Fui com a minha mãe e a minha tia Mila, aquela que me contou do meu pai. Sempre gostei muito da Angola sonhada. Queria ir porque sentia que era o meu país. É evidente que sou português mas Angola diz-me provavelmente mais do que Portugal. Se me perguntarem hoje qual é o meu país, tenho dificuldade em escolher. No Lobito senti-me perfeitamente à vontade, em casa. E ao Lobito regressarei certamente.”

Conceição Coelho, irmã

“Nunca mais vou esquecer os gritos da minha mãe. Foi a minha irmã mais velha, quem lhe deu a notícia. Revolta-me, ainda hoje, não saber o que realmente aconteceu ao meu irmão Zeca (era assim que o Rui era chamado familiarmente). Perder um irmão com 25 anos, que não teve hipótese de viver e que tinha tudo para ter uma vida melhor… .
Só queremos uma coisa: poder fazer um enterro digno. Há quem esteja vivo e saiba onde estão enterrados estes corpos. É possível saber qual é o corpo do meu irmão e dar-lhe uma sepultura digna. Para mim o que custa mais é não poder fazer o luto. Porque não sabemos onde morreu, como morreu e em que dia morreu. E mesmo assim somos uns “privilegiados” porque temos duas certidões de óbito, com datas diferentes. Há quem não tenha nada.

Ironicamente o meu irmão tinha também duas datas de nascimento. Nasceu a 31 de março mas está registado com a data de 21.

Revolta-me os meus pais não estarem cá para poderem ver a memória do filho respeitada.
Não estando envolvida na politica, a mim parece-me que o que aconteceu foi uma mistura de várias coisas. Provavelmente o poder político da altura aproveitou para fazer uma limpeza, as chamadas purgas que eram frequentes.

Nunca falei com o Zeca sobre politica. Quando cá esteve, em 1976, ele andou a tratar de assuntos relacionados com escritores angolanos. Foi a última vez que estivemos todos juntos.

Não sei se alguma vez terá pensado que seria morto. Nós fomos educados a acreditar que toda a gente é boa pessoa. Talvez ele acreditasse que era uma fase ruim. O meu irmão era um homem muito inteligente mas muito idealista e sonhador. Tenho cartas dele em que se percebe como sonhava em construir uma Angola melhor. Sinto que foi traído.

Acho muito estranho que uma pessoa que estivesse a preparar um golpe ou envolvido nele, não estivesse lá, na altura. E ele não estava.

Ao longo dos anos sentimos e calámos de uma forma muito profunda, porque vimos os nossos pais sofrerem. Para a minha mãe, em particular, foi uma dor atroz. Durante muitos anos nem sequer conseguíamos falar disto com ela, nem com ninguém. Nem havia fotografias. Era como se não existissem. A minha mãe virou-se para a igreja. Foi o seu escape. Até morrer, aos 82 anos, ela ia todos os dias à igreja de São Nicolau. Lembro-me que um dia fomos ao cemitério do Lumiar por altura do dia dos finados. Na altura mesmo quem não tinha familiares naquele cemitério podia colocar uma vela na entrada para homenagear os mortos. Ela não sabia, eu expliquei-lhe e ela ficou tão contente que foi lá pôr uma vela pelo meu irmão. Tinha uma grande necessidade de fazer o luto. O meu pai de outra maneira também teve muita dificuldade em aceitar. Perder um filho é uma coisa muito dura.

O mistério, a dúvida à volta do que aconteceu, como aconteceu, martirizou-nos durante anos.

Em memória dos que passaram um mau bocado, mas sobretudo dos que não sobreviveram e dos que não têm voz, tem de ser feita alguma coisa. Era importante para Angola, sobretudo nesta fase, 40 anos depois da independência, acho que engrandece o país. E Luanda sabe perfeitamente o que tem de ser feito.”