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Internacional

Presidente Duterte declara lei marcial no sul das Filipinas

Os residentes mais vulneráveis de Marawi estão a ser retirados para locais seguros

TED ALJIBE

O líder filipino diz que a medida, que surgiu na sequência de confrontos entre as forças de segurança e militantes islâmicos, pode permanecer em vigor durante um ano e será semelhante à ditadura de Ferdinando Marcos

O Presidente das Filipinas declarou lei marcial em Mindanao, uma ilha do sul do arquipélago, depois de cerca de 100 militantes islamitas terem cercado uma das maiores cidades após confrontos sangrentos com as forças do Governo. A medida de emergência já está em vigor e pode durar 60 dias, disse o porta-voz de Rodrigo Duterte, Ernesto Abella. O anúncio foi feito a partir da Rússia, onde o controverso Presidente filipino pretendia ficar quatro dias em visita oficial.

De acordo com o ministro filipino dos Negócios Estrangeiros, a visita foi encurtada para que o Presidente pudesse regressar ao seu país de imediato. “O Presidente sente que é preciso em Manila o mais rápido possível”, disse Alan Peter Cayetano. Abella, por sua vez, argumentou que a declaração de lei marcial em Mindanao “é possível com base na existência de uma rebelião”.

Por causa dos acontecimentos, Duterte encontrou-se com o Presidente Vladimir Putin na terça-feira à noite, em vez de na quinta-feira como inicialmente previsto, apontaram os media estatais russos. Esta manhã, o líder das Filipinas afirmou que a lei marcial pode ficar em vigor durante um ano e prometeu que o seu enquadramento será semelhante à ditadura de Ferdinando Marcos, que governou as Filipinas com mão de ferro entre 1965 e 1986.

“Para aqueles que já experimentaram viver sob lei marcial, não será em nada diferente do que o Presidente Marcos fez”, declarou Duterte num vídeo divulgado no site oficial do Governo. “Vai ser duro. Se levar um ano a alcancá-lo, ou se estiver concluído num mês, ficarei contente”, acrescentou.

A declaração de lei marcial surge no rescaldo da morte de um agente da polícia e de dois soldados em confrontos na cidade de Marawi (816 quilómetros a sul de Manila) que também provocaram ferimentos em doze membros das forças governamentais, avançou o ministro da Defesa, Delfin Lorenzana.

De acordo com o responsável, os militantes pegaram fogo a uma Igreja Católica, a uma prisão da cidade e a duas escolas, ocupando as principais ruas e duas pontes de Marawi, uma cidade com mais de 200 mil habitantes. O grupo também ocupou a Câmara Municipal, um hospital estatal e parte de um campus universitário, acrescentou Lorenzana. “Toda a cidade está às escuras, não há luz e há atiradores furtivos [rebeldes] em todo o lado”, informou numa conferência de imprensa em Moscovo.

O porta-voz do Exército filipino, o tenente-coronel Jo-ar Herrera, diz que as hostilidades em Marawi começaram quando soldados invadiram um apartamento onde estavam reunidos vários membros de dois grupos extremistas, o Abu Sayyaf e o Maute, que já juraram fidelidade ao autoproclamado Estado Islâmico (Daesh). Com o raide, as forças filipinas tinham como objetivo capturar Isnilon Hapilon, um dos líderes do Abu Sayyaf.

Fotografias publicadas nas redes sociais por residentes de Marawi mostram homens armados a vaguear pela cidade transportando consigo as bandeiras negras do Daesh. “Por favor rezem por nós”, pediu Mohammad Abedin, presidente da Sociedade Médica Lanao Del Sur naquela cidade. “Conseguimos ver casas a arder e estamos sem eletricidade.”

De acordo com Lorenzana, esta quarta-feira serão destacadas tropas adicionais para a cidade da ilha Mindanao. O chefe do Exército, o general Eduardo Ano, já pediu aos habitantes que não abandonem as suas casas. “Não saiam, tranquem as portas e as janelas até as nossas tropas limparem a área”, disse numa entrevista à rádio Manila também a partir de Moscovo. “Temos tropas suficientes no terreno.”

Especialistas apontam que Hapilon, o homem que as autoridades filipinas querem prender, tem estado a tentar unir vários grupos extremistas armados que já professaram lealdade ao Daesh. O líder do Abu Sayyaf, que terá sido escolhido pelo Daesh para liderar o ramo do grupo no Sudeste Asiático, integra a lista de terroristas mais procurados do Departamento de Justiça norte-americano, que mantém uma oferta de cinco milhões de dólares (4,5 milhões de euros) pela sua captura.

O Abu Sayyaf é um grupo pequeno mas muito ativo e violento que, nos últimos anos, tem recorrido a ataques à bomba, extorsões, raptos e decapitações na sua luta para criar um califado islâmico no sul das Filipinas. O grupo extremista tem nos sequestros de cidadãos, em particular de estrangeiros, uma das suas principais fontes de financiamento.