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Presidente Trump, sente-se bem?

Profissionais questionam a sanidade de Donald Trump

Kevin Lamarque/reuters

O líder sofrerá de “narcisismo maligno”, que o impede de distinguir realidade de ficção. Destituição é possível

A sabedoria popular americana garante que um Presidente chegado à Casa Branca tem de se deitar no divã do psicanalista, tal a complexidade do ofício. Nixon fê-lo e foi diagnosticado com paranoia. Clinton sofria de hipomania, manifestada pela dificuldade em se concentrar.

No caso de Donald Trump, a análise fornecida ao Expresso por peritos em saúde mental revela um cenário mais sombrio. O desrespeito pelas mulheres, latinos e deficientes, a obsessão pela popularidade e pelo tamanho das multidões que o acompanham e, por fim, a insistência em que venceu o voto popular, embora a contagem oficial atribua uma vantagem de mais de três milhões de votos a Hillary Clinton, alimentam dúvidas.

John Gartner, psiquiatra e professor na Universidade Johns Hopkins, autor de “In Search of Bill Clinton: A Psychological Biography”, defende que “Trump está doente. Sofre de narcisismo maligno”. Incurável, a condição distingue-se do narcisismo clássico porque inclui paranoia, comportamento antissocial e sadismo. “É como comparar um tumor maligno a um tumor benigno”, esclarece o médico.

Convencidos desta avaliação, vários congressistas exigem que Trump abandone a presidência. É o caso da democrata Karen Bass, cuja petição juntou quase 40 mil assinaturas. “Trump é um perigo para o nosso país. A sua impulsividade e falta de controlo emocional são preocupantes. É um dever patriótico suscitar a questão da saúde mental do Presidente”, afirma.

O seu colega de bancada Gerry Connoly considera que “passámos de um caso de entretenimento para um caso clínico”. O problema irá complicar-se, prossegue, visto que “Trump está rodeado de facilitadores e psicopatas”, que em vez de o chamarem à atenção “alimentam a loucura”.

A questão é pertinente. Especialistas em Direito Constitucional já tinham recordado ao Expresso que a 25ª adenda à Constituição define que um chefe de Estado pode ser destituído do cargo se a maioria do Executivo ou do Congresso detetar incapacidade física ou mental. “Como se chega a esta conclusão? Quando a pessoa em causa demonstra ao longo de um longo período de tempo que não tem o temperamento adequado”, afirma Bradford Wilson, da Universidade de Princeton.

De Hitler a Trump

Gartner lembra que foi o médico Erich Fromm, refugiado alemão durante o regime nazi, que falou pela primeira vez em “narcisismo maligno”, a propósito de Adolf Hitler. “Estamos a falar de pessoas que veem armadilhas em todo o lado. No caso de Trump, umas vezes são os jornalistas, outras os próprios republicanos, todos combinados para o tramar”.

Voltou-se a falar da sanidade do Presidente após os últimos dias, marcados por avanços, recuos e desmentidos relativamente ao despedimento do ex-diretor do FBI, James Comey, partilha de dados confidenciais com Moscovo e eventual obstrução da Justiça (Comey terá escrito que Trump lhe pediu para abandonar a investigação sobre as alegadas ligações à Rússia do antigo conselheiro de segurança nacional Michael Flynn).

“Sei que muitos colegas receiam este tipo de diagnóstico (não-presencial), mas os sinais são tantos que é impossível continuar a fingir que tudo está bem. Além do narcisismo maligno, ele também sofre de hipomania, dada a agressividade, irritabilidade e arrogância”, diz ao Expresso Lance Dodes, professor de Harvard e analista da Boston Psychoanalytic Society.

Não é a primeira vez que a saúde mental de Trump preocupa o público. Nos anos 90, a imprensa americana questionava o impulso esbanjador do magnata, então prestes a cair na bancarrota. “Havia alturas em que comprava obras de arte e carros de luxo sem negociar o preço. Era incontrolável”, disse ao Expresso Barbara Res, vice-presidente da Trump Organization entre 1990 e 1992.

Olhando para o historial médico da família, sabe-se que o avô do Presidente americano, Friedrich, teve problemas com as autoridades do Alasca, depois de desatar a construir edifícios em terrenos que não lhe pertenciam. “Ergueu dezenas de hotéis que se tornaram bordéis ilegais. À medida que ia sendo apanhado, fazia-se de vítima e deslocava-se para norte, repetindo a tática”, recorda Dodes.

Segundo o mesmo perito, “tal como no avô, há uma combinação de aparente doença mental e carácter maligno, isto é, o que define Donald Trump como pessoa. Suspeitamos que é alguém com tendência para manipular e mentir. Trump mente a si próprio. Cria a sua realidade”.

Julie Futrell, reputada psicóloga em Nova Iorque, onde colabora com a polícia local (NYPD, na sigla inglesa), insiste que quando Trump garantiu que existiam milhões de pessoas a assistir à sua tomada de posse “não se tratou de uma mentira, mas da projeção de um cenário ‘óbvio’ para ele. Transformou a mentira em verdade para se validar”.

A possibilidade de a saúde mental do Presidente poder gerar um longo processo de impeachment deixa Gartner “esperançado, mas também aterrorizado”, visto que “a democracia americana enfrenta uma ameaça existencial”.