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Michel Temer gravado a autorizar suborno de Eduardo Cunha

Dilma fala com Temer (esquerda) e Eduardo Cunha fala com Aécio Neves num mural de protesto em São Paulo

NELSON ALMEIDA

Governo brasileiro desmente alegações de que o Presidente autorizou pagamentos ao ex-deputado do seu partido, atualmente a cumprir uma pena de 15 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro

O Presidente do Brasil foi gravado por um empresário a autorizar o pagamento de subornos a Eduardo Cunha, antigo líder da Câmara dos Deputados, filiado ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) de Michel Temer, que está a cumprir uma pena de 15 anos de prisão por lavagem de dinheiro e corrupção no âmbito da Operação Lava Jato.

O Globo avançou esta quarta-feira a denúncia feita por Joesley Batista, dono da JBS, a maior produtora de carnes do mundo, que no âmbito de uma "delação premiada" (possibilidade de redução de penas em troca de denúncias às autoridades prevista na legislação brasileira) — ainda não confirmada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) — acusou Temer de participar no esquema de corrupção da Petrobras em declarações à Procuradoria-Geral da República. A delação foi feita em abril e confirmada pelo juiz do Supremo, Edson Fachin, a 10 de maio.

Segundo as informações apuradas pel'O Globo, Batista terá revelado ao juiz que tinha dito ao Presidente Temer que ia pagar a Eduardo Cunha (tido como arquiteto da destituição de Dilma Rousseff) e a Lúcio Funaro (braço-direito do ex-deputado que também está preso) para que não abrissem a boca sobre as negociatas ilegais na Petrobras no decorrer da Lava Jato. "Tem que manter isso, viu?", foi a resposta do Presidente brasileiro.

A conversa foi gravada por Batista sem o conhecimento do homem que, há um ano, substituiu Dilma Rousseff na presidência. No seu depoimento aos procuradores do STF, o empresário sublinhou que Michel Temer não ordenou o pagamento de subornos, antes autorizou que os deputados fossem comprados. As revelações indicam que, no mínimo, o Presidente sabia do esquema para silenciar Cunha e o seu braço-direito. A polícia brasileira filmaria depois a entrega de 400 mil reais (cerca de 115 mil euros) a Roberta, irmã de Funaro, segundo Batista, o dinheiro destinado a Cunha ia ser-lhe entregue por Altair Alves Pinto, outro homem de confiança do ex-deputado.

Cunha foi condenado a 15 anos de prisão no final de março

Cunha foi condenado a 15 anos de prisão no final de março

FERNANDO BIZERRA JR. / EPA

No encontro entre Temer e Joesley Batista gravado pelo empresário, este também pediu ao Presidente que o ajudasse com uma "pendência da J&F no governo" — a J&F é a holding que controla a JBS. Temer disse-lhe que fosse falar com o deputado Rodrigo Rocha Lourdes, que seria depois filmado pela polícia a receber uma mala com 500 mil reais (cerca de 143 mil euros) que Batista lhe enviou.

O Globo também noticiou esta quinta-feira que, nas declarações ao STF, Joesley denunciou Aécio Neves, senador e atual presidente do Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB), por este lhe ter pedido dois milhões de reais (571 mil euros) para pagar despesas decorrentes da sua defesa no âmbito da Lava Jato. Essa conversa também foi gravada por Batista e entregue à polícia. O pagamento de um montante por revelar a um primo do senador Neves também foi filmada pela polícia federal, que conseguiu seguir o dinheiro até este ser depositado numa conta do senador Zeze Perrella (PSDB).

Na sequência das notícias, centenas de manifestantes reuniram-se esta quinta-feira ao final da noite em frente ao Museu da Arte de São Paulo, no centro daquela cidade, parando o trânsito; em Brasília, a capital, outros tantos saíram à rua gritando palavras de ordem como "Diretas, já!" (exigindo eleições antecipadas) e "Fora, Temer!". O "Folha de São Paulo" noticia que os manifestantes foram dispersados com gás pimenta.

Reagindo às alegações, num comunicado citado pela Globo, o Palácio do Planalto confirmou o encontro de Temer com Batista mas garantiu que o Presidente "jamais" tentou evitar que Cunha fosse testemunhar perante a Justiça sobre a rede de corrupção e lavagem de dinheiro na estatal petrolífera e noutras empresas.